Entre outubro e novembro, três territórios do Distrito Federal — Samambaia, Ceilândia e Taguatinga — vão se transformar em palcos de celebração da diversidade, da memória e da potência criativa das periferias. É o Circuito de Glória, projeto que une arte, formação e performance em torno da cultura ballroom, reafirmando o protagonismo de corpos e vozes negras, indígenas, LGBTQIAPN+ e periféricas.
O circuito é uma realização da Casa de Onijá, coletivo que há anos se dedica a construir espaços de afeto, resistência e visibilidade para as comunidades historicamente marginalizadas no DF. Mais do que uma série de eventos, o projeto é uma afirmação de que a cultura que nasce nas periferias é central na produção de saberes e no redesenho da vida social e cultural do país.
“Essa glória representa celebrar depois de um ano de lutas, em um espaço totalmente reformado, e ter a possibilidade de desenvolver novos projetos. Também é sobre compartilhar essa experiência com a comunidade. Por isso, criamos o Circuito da Glória, que inclui oficinas de produção cultural para capacitar outras houses a lidar com burocracias e conseguir fomentos para seus projetos.
Glória, para nós, é enaltecer nossa cultura, celebrar nossa trajetória árdua e criar oportunidades de formação, aprendizado e troca com a comunidade”, afirma Werick Mendes, idealizador do projeto.
A cultura ballroom como resistência
Nascida das comunidades negras e latinas LGBTQIA+ em Nova Iorque nos anos 1970, a ballroom se tornou um espaço de pertencimento, expressão artística e contestação. NoBrasil, ganhou corpo especialmente nas periferias, onde encontra ressonância com histórias de exclusão e luta.
No DF, a cena se fortalece com a ação de coletivos como a Casa de Onijá, que faz da ballroom uma pedagogia de resistência, conectando ancestralidade, espiritualidade e diversidade.
“Glória”, nesse contexto, não é apenas triunfo ou vitória, mas um chamado à dignidade coletiva: um reconhecimento da força que pulsa na periferia, na negritude e na ancestralidade indígena.
“Na Casa de Onijá, nos organizamos como uma família. Temos uma sede física onde pessoas negras, indígenas, LGBTQIAPN+ e héteros convivem, compartilham experiências e enfrentam juntos as mesmas dificuldades. A ballroom é o fio condutor: permite dançar, competir, criar performances e produzir eventos que reforçam a ancestralidade negra e indígena e fortalecem a identidade cultural da periferia. Assim, conecta luta, memória e celebração, reafirmando a vida como resistência”, explica Werick.
Programação do Circuito
O Circuito de Glória contará com oficinas, rodas de conversa e três grandes bailes, momentos que simbolizam os pontos altos da programação:
Samambaia – 17 e 18 de outubro: abertura com o MINIBALL “Glória Ancestral”
Ceilândia – 24 e 25 de outubro: realização do MINIBALL “Glória Trans”
Taguatinga (Mercado Sul, sede da Casa de Onijá) – 12 a 15 de novembro: encerramento com atividades formativas e o Baile de Glória – The OGO of Ball (15/11)
“Sediar o grande baile de encerramento no Mercado Sul Significa ocupar o centro a partir da borda, valorizar o que é nosso por direito e mostrar que a cultura de vanguarda não nasce apenas nos espaços consagrados do centro, mas brota com força total nas periferias. É devolver para a comunidade, em forma de espetáculo e glória, toda a energia e a criatividade que dela emergem. É no Mercado Sul que a festa se torna ato político: estamos em casa, celebrando nossa própria casa”, diz Ciellen Selene, produtora executiva do projeto.
Todas as atividades são gratuitas e abertas ao público.
A força coletiva da Casa de Onijá
A Casa de Onijá constrói um território simbólico e real de resistência. Seu trabalho articula a periferia como centro da criação cultural e da luta por direitos, desafiando estruturas que historicamente marginalizaram corpos dissidentes.
O Circuito de Glória é, portanto, um marco: ao mesmo tempo celebração e denúncia, festa e formação, corpo e memória. Um espaço em que a arte se encontra com a política e onde a “glória” não é individual, mas partilhada.
“‘Glória” é um conceito que vai muito além da simples sobrevivência. É sobre transbordar, sobre ir do mínimo essencial ao excepcional. É a materialização da exuberância, um estado de exaltação e plenitude onde as preocupações materiais se dissolvem. É possuir as riquezas que o dinheiro não pode comprar: o afeto, o respeito, o legado. No fim, a verdadeira Glória se encontra no seio da família e da comunidade, no altar dessas relações que nos sustentam e fortalecem”, complementa Ciellen.
Serviço
Evento: Circuito de Glória
Locais: Samambaia, Ceilândia e Taguatinga (DF)
Data: 17 de outubro a 15 de novembro
Acesso: gratuito
Mais informações: Nayá Tawane (61) 98106-801
