Em entrevista ao Mundioka, o professor e jornalista Rennan Rebello revela que as décadas de parceira entre Moscou e Caracas vão além de economia e mostram uma afinidade em valores e objetivos.
Rússia e Venezuela constroem ao longo das últimas três décadas uma das relações bilaterais mais bem-sucedidas do mundo. Mesmo nos momentos econômicos difíceis de Caracas, catalisados pelos embargos econômicos dos Estados Unidos, Moscou não deixou de investir no país com empresas de diferentes setores, como nos ramos petrolífero e automotivo.
Em 2025, a relação entre as duas nações assumiu um novo patamar, com a assinatura da Parceria de Cooperação Estratégica Rússia-Venezuela. Pelos próximos dez anos, os países vão trabalhar juntos em diversas áreas: comércio, defesa, energia, esporte, cultura, entre outros.
Enquanto Moscou se aproxima cada vez mais de Caracas, apesar dos 9 mil km que afastam as duas capitais, a vizinha Brasília parece estar distante. Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, o jornalista e professor de geografia Rennan Rebello enfatizou a relação política estreita entre Vladimir Putin e Nicolás Maduro em comparação com o que poderiam ser os laços do líder venezuelano com Luiz Inácio Lula da Silva durante o terceiro mandato do petista.
“Você parou para pensar que a Venezuela está a 9 mil km de distância da Rússia e ela tem mais contato político com a Rússia do que com seus vizinhos sul-americanos? […] Luiz Javier Ruiz, cientista político da Venezuela, disse que, hoje, China e Rússia são mais importantes para a Venezuela do que o Brasil.”
Rebello, que também comanda o canal Rússia em Português, explica que nem sempre Rússia e Venezuela foram próximas e este fato se deu pela forte presença e dominação dos Estados Unidos na América Latina, na segunda parte do século XX, em especial.
Os caminhos de Caracas e Moscou começaram a se cruzar em 1999, quando o então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, assume o poder e passa a fazer acenos ao Kremlin. Até aquele momento, a história democrática do país era dividida entre três partidos das elites nacionais, inclinadas a Washington.
No fim da década de 1990, a sociedade venezuelana era marcada pela desigualdade social. Apesar da abundância de petróleo que o país possuía — e ainda possui, uma vez que detém as maiores reservas de hidrocarbonetos não exploradas do mundo —, tamanha riqueza não refletia o dia a dia da população.
“Em 1999, a primeira coisa que Chávez faz é o que ele vinha prometendo desde os anos 1980, que a República da Venezuela precisava ser refundada. Então, ele convoca uma Assembleia Constituinte, ou seja, recria a Constituição. Foi a primeira coisa que ele fez. A partir dali, tem as mudanças.”
De acordo com Rebello, a postura de Chávez incomodou os Estados Unidos, que desde 2006, sob comando de George W. Bush, realiza inúmeras sanções à Venezuela visando estrangular a economia local. A ação do republicano também impediu que Caracas adquirisse armas de Washington, conduzindo o país latino-americano para os braços de Moscou.
“Chávez, como militar, sabe que tem que armar suas forças, tem que ter bons equipamentos. E, além dos Estados Unidos, quem produz muito armamento bélico é a Rússia.”
Ao mesmo tempo que a Venezuela precisava de um fornecedor de armas, a Rússia implementava a doutrina Primakov, elaborada por Evgeny Primakov, que buscava um mundo multipolar. O especialista ressalta que a posição venezuelana — geograficamente na América do Sul e com acesso ao Caribe — cria a abertura de portas perfeitas para os russos no continente.
Apesar de a aproximação russo-venezuelana ter sido iniciada por questões comerciais e admitir que nas relações internacionais não existem amizades, mas, sim, interesses, Rebello acredita que a relação entre esses dois países pode ser diferente.
“Vejo a Rússia com laços fortes [com a Venezuela], que vão além do dinheiro.”
