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UnB é a primeira universidade do país a conceder o título de Doutora Honoris Causa a Lélia Gonzalez

UnB é a primeira universidade do país a conceder o título de Doutora Honoris Causa a Lélia Gonzalez

Em cerimônia histórica, universidade homenageia a antropóloga e militante símbolo da luta antirracista no Brasil

Universidade de Brasília (UnB) celebrou na tarde desta quinta-feira (6) a trajetória e o pensamento da antropóloga, filósofa, professora e militante histórica do movimento negro brasileiro Lélia Gonzalez, falecida em julho de 1994. Pela primeira vez na história do país, uma universidade concedeu à pensadora, postumamente, o título de Doutora Honoris Causa.

A cerimônia de entrega do título lotou o auditório da Associação dos Docentes da UnB (ADUnB) e reuniu, além de familiares da homenageada, estudantes, professores e representantes de organizações do movimento negro.

“Essa honraria acadêmica é um ato simbólico muito importante. Só que ele não se esgota em si mesmo, é um ato que implica a reafirmação enfática e irrevogável dos compromissos antirracistas da nossa universidade”, destacou o professor do Departamento de Filosofia da universidade Herivelto Pereira de Souza, um dos autores do pedido de concessão de título à Lélia Gonzalez.

À jovem Taynara Rodrigues, mestranda em Filosofia na UnB, coube a tarefa de apresentar a homenageada. No discurso, ela destacou o legado de Gonzalez. “Parte essencial de sua trajetória foi a presença constante e corajosa em múltiplos territórios, acadêmicos, políticos, culturais e populares. Porque seu compromisso maior era circular, dialogar e repensar as estruturas opressoras que insistem em se apresentar como naturais”, disse Rodrigues para uma plateia atenta e emocionada.

Taynara Rodrigues foi uma das autoras do texto que fundamentou o pedido de diplomação, concedido em maio pelo Conselho Universitário da UnB (Consuni). “Esse é um momento de impulsionar ainda mais a memória, o legado da Lélia González, para que mais jovens negras, mulheres anônimas, mulheres que estão na batalha por um pensamento rico que enfrenta esse discurso hegemônico que insiste em fazer com que a gente se cale, com que a gente desista. Então, eu acho que representa um impulso para que novas formas de pensar o Brasil sejam engajadas a partir do pensamento de mulheres negras”, ressaltou em entrevista ao Brasil de Fato DF.

Taynara Rodrigues foi uma das autoras do pedido de diplomação | Flávia Quirino/BdF DF

‘Justiça histórica’

Representando a família, a neta de Lélia, Melina de Lima, recebeu o diploma da reitora da UnB Rozana Naves e expressou o orgulho e a emoção de todos os familiares. No discurso, a neta observou que sua avó dedicou a vida e a família para lutar pela igualdade de raça e gênero e para denunciar a ‘falácia da democracia racial’.

“Hoje o que se concretiza aqui é mais do que uma homenagem acadêmica, é um ato de justiça histórica, é o reconhecimento de uma mulher negra que transformou a dor em pensamento, o racismo em denúncia, o silêncio em palavra”, destacou.

“Lélia viveu e produziu em um tempo em que ser uma mulher negra intelectual era um gesto de insurgência. Ela ousou ocupar os espaços que lhe negavam lugar e com coragem e afeto fez do conhecimento um instrumento de libertação coletivo”, enfatizou Melina de Lima.

Para a Reitora da UnB, com a concessão do título a universidade dá mais um passo para a coerência institucional, reafirmando o valor intelectual, político e civilizatório de Lélia Gonzalez.

Neta de Lélia, Melina de Lima recebe o diploma da reitora da UnB, Rozana Naves | Jorge Monicci

“Ela sempre será uma das grandes pensadoras desse país. O que fazemos hoje é reafirmar publicamente esse reconhecimento em nome de uma universidade que quer ser cada vez mais coerente com o Brasil que ajuda a formar. Lélia foi a ponte entre universos que o racismo tentou separar, o da experiência e o da teoria, o da vida e o da palavra. Falava a língua do povo e a linguagem da ciência, sem se submeter uma à outra”, enfatizou Rozana Naves.

Ela ainda pontuou que graças à persistência do movimento negro, especialmente das mulheres negras, a memória de Lélia Gonzalez continua viva. “A Universidade de Brasília que nasce do sonho de uma educação libertadora, ao homenagear Lélia Gonzalez, reafirma seu compromisso em ser cada dia mais plural, acessível, insurgente, decolonial e negra. Para nós, o título não é apenas uma honraria, mas um chamado, o de abrir espaços, corrigir silêncios e aprender com quem veio antes”, finalizou.

‘Nunca é tarde’

Primeiro presidente da Fundação Cultural Palmares, Carlos Alves Moura, assistiu emocionado à cerimônia. Contemporâneo de Lélia Gonzalez, ele disse que a primeira vez em que representantes do movimento negro subiram a Serra da Barriga, local onde existiu o Quilombo dos Palmares, em 1979, Lélia estava presente.

“Então, esse momento é muito importante e me faz lembrar também de grandes figuras do movimento negro que já não estão entre nós, como a Lélia, o Abdias [Nascimento] e o João Rufino. E é uma alegria muito grande estar aqui, nessa grande festa de comemoração”, disse.

Na cerimônia Carlos Moura ao lado da esposa Glória de Veiga Moura | Flávia Quirino/BdF DF

“Nunca podemos dizer que é tarde. Mas nós, a sociedade civil, nós, do movimento negro, os professores, de um modo geral, demoramos muito para celebrarmos o que tá sendo feito essa tarde”, finalizou.

Centro de Convivência Negra Lélia Gonzalez

A homenagem também resultou na nomeação do Centro de Convivência Negra da universidade, que passa a se chamar Centro de Convivência Negra Lélia Gonzalez. O título concedido, embora póstumo, é um reconhecimento de que o pensamento de Lélia segue vivo.

Para a jornalista e doutoranda em Comunicação na UnB Suewellyn Cassimiro, foi emocionante ver o auditório lotado para celebrar o legado de Lélia González e a mudança de nome do Centro de Convivência da universidade. “É lindo ver esse reconhecimento, presenciar a emoção da família. Como estudante da UnB, como estudiosa da Lélia, tenho ela como uma grande referência há muito tempo e revolucionou toda a minha história, a minha visão de mundo, me mudou para melhor”.

Cassimiro observou ainda que esse 6 de novembro ficará na história. “É uma data histórica e faz a gente ficar muito feliz de poder comemorar o mês da Consciência Negra com alegria, com felicidade, esse é um momento inesquecível e me sinto extremamente privilegiada”, comemorou.

Auditório do sindicato de professores da UnB ficou lotado para diplomação | Flávia Quirino/BdF DF

Para a neta de Lélia Gonzalez o reconhecimento é importante, mas não uma novidade. “Ela nos ensinou que a luta é coletiva, que a palavra tem poder, e que a liberdade começa quando nos reconhecemos inteiros, com nossa história, nossa cor, nossa voz. Hoje o Brasil reconhece oficialmente o que o povo negro já sabia: Lélia Gonzalez é doutora”, finalizou Melina de Lima.

Lélia Gonzalez

Nascida em Belo Horizonte (MG) em 1935, Lélia Gonzalez se graduou em História, Geografia e Filosofia, e lecionou na rede pública de ensino. Já na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), alçou o cargo de diretora do departamento de Sociologia e Política.

Em sua trajetória como militante do movimento negro, a filósofa trouxe reflexões sobre a realidade das mulheres, principalmente negras e indígenas. Lélia participou do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN-RJ), do Movimento Negro Unificado (MNU) e do Nzinga Coletivo de Mulheres Negras. Ela faleceu em 10 de julho de 1994, aos 59 anos, vítima de problemas cardiorrespiratórios. Lélia Gonzalez é considerada um dos grandes nomes do movimento negro contemporâneo.

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