Segundo decisão de Alexandre de Moraes, Bolsonaro tentou romper tornozeleira eletrônica na madrugada deste sábado
Fonte: Brasil de Fato – São Paulo
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi preso na manhã deste sábado (22) pela Polícia Federal. Em nota, a PF informou que cumpriu “um mandado de prisão preventiva em cumprimento a decisão do Supremo Tribunal Federal”.
Em regime domiciliar desde o dia 4 de agosto, Bolsonaro foi levado à Superintendência da PF após ser detido em sua casa por volta das 6h da manhã, em Brasília.
Segundo informaram as autoridades, a detenção deste sábado tem caráter de medida cautelar e não se trata do início do cumprimento da pena de 27 anos e três meses pela qual o ex-presidente de extrema direita foi condenado no julgamento da trama golpista.
Na decisão, o ministro do STF Alexandre de Moraes afirma que o pedido de prisão preventiva foi motivado por uma convocatória de um ato – chamado de “vigília” – feita por Flávio Bolsonaro, que ocorreria em frente à residência do ex-presidente. Além disso, segundo Moraes, Bolsonaro tentou romper a tornozeleira eletrônica.
“[Houve uma] ocorrência de violação do equipamento de monitoramento eletrônico do réu […] às 0h08 do dia 22/11/2025”, que teria como objetivo “garantir êxito em sua fuga, facilitada pela confusão causada pela manifestação convocada por seu filho”.
A convocatória citada por Moraes foi difundida na sexta-feira (21) por Flávio em um vídeo em suas redes sociais, convocando apoiadores para se reunirem no sábado, às 19h, em frente ao condomínio que Bolsonaro mora. Na mensagem, o senador diz que o país estaria na mão “de bandidos” e “ditadores”.
Indicando o risco de fuga, Moraes lembrou que Bolsonaro “planejou, durante a investigação que posteriormente resultou na sua condenação, a fuga para a embaixada da Argentina, por meio solicitação de asilo político àquele país”.
Relembre o caso
Considerado líder da trama golpista que tentou romper o Estado democrático de direito em 8 de janeiro de 2023, o caso contra Bolsonaro na Justiça data de anos antes, pelo menos, desde 2021.
Segundo a acusação apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), o dia 8 de março de 2021, quando o então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) retoma seus direitos políticos, após a anulação dos processos da Lava Jato pelo
Supremo Tribunal Federal, foi o marco de uma série de ataques do então presidente Jair Bolsonaro às urnas eletrônicas e ao sistema eleitoral brasileiro.
A PGR destaca que, em meados de 2021, o Bolsonaro realizou uma transmissão ao vivo na residência presidencial, onde colocou em dúvida a segurança do sistema eletrônico de votação. Para a acusação, essa live sinalizou o começo de uma campanha para desqualificar a Justiça Eleitoral.
Naquele mesmo ano, durante as celebrações do 7 de setembro, o então presidente da República chegou a declarar publicamente que não acataria decisões emanadas da Suprema Corte.
2022: bate o desespero
Em 5 de julho de 2022, a atuação do governo contra as instituições ganhou um novo capítulo com a realização de um encontro ministerial focado no debate eleitoral. O registro audiovisual dessa reunião foi posteriormente recuperado no equipamento de um auxiliar próximo ao ex-presidente.
Na reunião, o então presidente convoca seus ministros a reagirem diante de um cenário desfavorável nas pesquisas eleitorais.
“Todos aqui temos inteligência bem acima da média. Todos aqui, como todo mundo ali fora, têm algo a perder. Não podemos, pessoal, deixar chegar as eleições e acontecer o que está pintado, está pintado. (…) A gente vai ter que fazer alguma coisa antes”, disse o ex-presidente a sua equipe, e chegando a falar em “plano B”.
“A fotografia que pintar no dia 2 de outubro acabou, porra! Quer mais claro do que isso? Nós estamos fazendo a coisa certa, mas o plano B tem que botar em prática agora”, afirmou Bolsonaro.
Em outro momento da mesma reunião, o general Augusto Heleno, então chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) chega a falar em “virar a mesa”.
“Não vai ter revisão do VAR. Então, o que tiver que ser feito tem que ser feito antes das eleições. Se tiver que dar soco na mesa é antes das eleições. Se tiver que virar a mesa é antes das eleições”, afirmou Heleno.
Pouco depois, em 18 de julho, Bolsonaro recebeu representantes de nações estrangeiras no Palácio da Alvorada, quando voltou a levantar suspeitas sobre a lisura do sistema eleitoral. O Ministério Público interpretou o encontro como uma tentativa de buscar aval internacional para uma eventual ruptura institucional.
Derrota eleitoral
Durante o segundo turno das eleições presidenciais, em outubro de 2022, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) conduziu operações em áreas onde o candidato Lula obteve votação expressiva no primeiro turno. À época, o TSE convocou o então diretor-geral da PF, Silvinei Vasques, e ordenou o fim dos bloqueios. Embora a Justiça Eleitoral tenha assegurado que ninguém foi impedido de votar, as ações geraram fortes críticas e foram alvo de apurações.
Após a derrota nas urnas, grupos de apoiadores do ex-presidente montaram acampamentos na frente de quartéis do Exército, clamando por intervenção militar, enquanto o ex-presidente se manteve recluso, sem reconhecer publicamente a vitória nas urnas, até as vésperas da posse do presidente e vice-presidente eleitos, Lula e Geraldo Alckmin (PSB), quando o Bolsonaro deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos.
2022 – 2023: O “plano secreto”
No final de 2022, a Polícia Federal identificou um projeto chamado “Punhal Verde e Amarelo”. Atribuído ao general Mário Fernandes, o documento continha propostas drásticas, como a anulação do resultado eleitoral, a prisão de oponentes e até planos de assassinato de autoridades eleitas e do então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Alexandre de Moraes.
A crise atingiu seu ponto máximo em 8 de janeiro de 2023, com a invasão e destruição das sedes dos Três Poderes em Brasília. Mais de 1.500 pessoas foram detidas nos dias seguintes, acusadas de crimes como dano ao patrimônio público e tentativa de abolição do Estado Democrático.
Em setembro de 2023, o ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cid, firmou um acordo de delação premiada, revelando às autoridades detalhes dos crimes cometidos por Bolsonaro e outros ex-membros de seu governo.
2024 – 2025 – Sanções e início da ação penal
A primeira sanção judicial ao ex-presidente veio em 30 de junho de 2023, quando o TSE o declarou inelegível por um período de oito anos, em razão do uso indevido dos meios de comunicação durante a reunião com os embaixadores no Palácio do Alvorada.
Por outro lado, o inquérito criminal avançou e em novembro de 2024, a Polícia Federal acusou formalmente Bolsonaro por tentativa de golpe. Em fevereiro de 2025, a PGR encaminhou a acusação à Suprema Corte, imputando ao ex-presidente a liderança de uma organização criminosa armada que teria atentado contra a ordem constitucional. Em março de 2025, o colegiado da Primeira Turma do STF o transformou em réu na Ação Penal 2668.
Entre maio e agosto de 2025, o caso ganhou uma dimensão internacional, quando um dos filhos do ex-presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), buscou apoio nos Estados Unidos para que fossem impostas sanções a autoridades brasileiras, alegando perseguição política.
Em resposta a este contexto, o ministro relator do STF impôs severas medidas restritivas ao ex-presidente, que incluíram prisão domiciliar, limitações de contato, a retenção do passaporte e a proibição de uso de plataformas digitais. As medidas foram intensificadas após uma série de descumprimentos.
Condenação
O julgamento definitivo da ação penal ocorreu em setembro de 2025, quando, por 4 votos a 1, a Primeira Turma do STF condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão, a serem cumpridos em regime fechado, pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito, golpe de Estado, dano contra o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.
Além do ex-presidente, outras sete pessoas foram condenadas, acusadas de pertencerem ao “núcleo crucial” da trama golpista, sendo eles: o deputado federal e ex-diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência, Alexandre Ramagem (PL-RJ), o ex-comandante da Marinha Almir Garnier, o ex-ministro da Justiça de Bolsonaro Anderson Torres, o general Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa, e o general Walter Souza Braga Netto, ex-ministro da Casa Civil e candidato na chapa derrotada em 2022. As penas dos oito réus variam de 16 a 27 anos, de acordo com nível de envolvimento de cada um.
*Colaborou Leonardo Fernandes, de Brasília
Editado por: Lucas Estanislau
