De Teerã, jornalista iraniana explica cotidiano sob bombas: ‘Lojas abertas e população nas ruas’
Às vésperas do Ano Novo iraniano, Elham Abedini diz que população quer continuar guerra para retaliar violência sofrida
- SÃO PAULO (SP)
- RODRIGO DURÃO COELHO

A jornalista continua trabalhando diariamente em Teerã, mesmo sob bombardeios diários de Israel e Estados Unidos. Nesta quinta-feira (19), ela explicou ao Brasil de Fato como ela e a população iraniana vêm lidando com a violência iniciada com os ataques não provocados de 28 de fevereiro. A entrevista, que você confere abaixo, foi adiada em um dia porque o prédio da emissora estava sendo atacado na véspera. Acompanhe:
Brasil de Fato: Gostaria de começar pedindo para você falar como está o cotidiano em Teerã, como vocês estão lidando com tanta violência diariamente, após o início dos bombardeios?
Elham Abedini Abedini: Obrigada por me receber. Na verdade, como sou jornalista, viajo para diferentes lugares e, assim que esta guerra começou, estive em pelo menos cinco cidades do Irã. Posso dizer que todo o país está lidando serenamente com esta guerra.
Os Estados Unidos e o regime israelense realizaram ataques contra inúmeras cidades do Irã. Eu mesma testemunhei muitos edifícios residenciais, cafés, restaurantes e hospitais bombardeados, mesmo sendo alvos civis. Em Teerã, houve mais explosões, infelizmente até contra edifícios históricos. Durante as 24 horas do dia, ouvimos a defesa antimísseis do Irã e as explosões do regime israelense e dos Estados Unidos, principalmente após a meia-noite.
Amanhã (20) à tarde, no horário local, é o Ano Novo do Irã, o Nowruz. Apesar das explosões e ameaças, muitas lojas e bazares estão abertos e as pessoas tentam comprar o que precisam para as celebrações, como flores e itens para o Eid al-Fitr (o festival da quebra do jejum que marca o fim do Ramadã, mês sagrado muçulmano). Foi interessante ver que os bazares ainda estão lotados; isso me traz uma boa vibração.
Essa normalidade contrasta com as imagens que vemos de Tel Aviv: ruas vazias, pessoas em pânico correndo para abrigos subterrâneos.
Além do Ano Novo, todas as noites as pessoas vão às ruas protestar contra os Estados Unidos e Israel, gritando que querem continuar esta guerra para retaliar tudo o que aconteceu contra nós.
Como os bombardeios afetaram a opinião pública, levando em conta que ocorreram protestos nos últimos meses, anteriores à guerra, contra o governo?
Algumas pessoas acreditavam que os Estados Unidos não visariam alvos civis ou que ajudariam a remover as sanções, mas agora, após os bombardeios e a guerra de 12 dias no ano passado, o povo está mais unido do que nunca.
Até mesmo iranianos no exterior, que participavam de protestos contra o governo, agora admitem que a guerra e a intervenção estrangeira não são a solução.
Houve infiltração estrangeira naqueles protestos, causando distúrbios e violência?
Existem evidências oficiais disso. Eu, como cidadã, vi pessoas comuns armadas, sendo que no Irã é ilegal portar armas de fogo. Alguém deve ter financiado o contrabando dessas armas. Além disso, mídias baseadas no exterior treinavam pessoas sobre como enfrentar a segurança e fabricar explosivos, o que não é normal para o jornalismo. É óbvio que essas mídias são financiadas por organizações dos EUA e de Israel.
Vocês estão vivendo escassez de alimentos, eletricidade ou água?
Felizmente, ainda não há escassez desses itens. No entanto, as sanções são o maior problema, causando inflação e falta de medicamentos importados. Os Estados Unidos e o regime israelense bombardearam fábricas farmacêuticas que produziam medicamentos domésticos em Teerã. Isso causará escassez a médio prazo. Também espero dificuldades energéticas no próximo inverno devido ao bombardeio do campo de petróleo de Parsadanube.
Vocês estão preparados para esta guerra durar tanto tempo, até o próximo inverno?
Não acho que durará tanto, mas o reparo do campo de petróleo levará tempo e trará dificuldades.
Qual foi o efeito dos assassinatos de Larijani e Ismail Khatib? Sei que o país está em luto, mas, em termos práticos, o que você espera que aconteça?
Há uma consequência psicológica ao ver autoridades sendo mortas. Sobre Larijani especificamente, ele era visto como um ator principal na segurança e alguém que poderia negociar o fim da guerra.
Seu assassinato mostra que o regime israelense quer arrastar os Estados Unidos ainda mais para o conflito e bloquear qualquer caminho de negociação.
Você acredita que agora o Irã quer negociar um cessar-fogo com os Estados Unidos?
Não. Um cessar-fogo agora seria apenas temporário e não resolveria o problema. Um trunfo que temos é o Estreito de Ormuz. O Irã sempre foi moral e nunca usou essa vantagem sob pressão, mas mudar a geopolítica pode ser necessário para acabar com esta guerra. Caso contrário, o Irã se tornaria outro país como o Líbano ou a Síria, onde os EUA e Israel fazem guerra e assassinatos quando querem.
E quanto à relação com os países do Golfo? Vimos o bombardeio de campos de petróleo e a guerra escalando. Você acredita que a relação com essas monarquias pode ser consertada diplomaticamente ou linhas vermelhas foram cruzadas?
Tentamos melhorar as relações com vizinhos como Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos. No entanto, o Irã alertou que, se esses países permitirem que seu solo ou espaço aéreo sejam usados para nos atacar, retaliaremos contra essas bases militares.
Nossas autoridades são diplomáticas, pedindo apenas que não ajudem nossos inimigos. Sobre os campos de óleo e gás, o Irã disse que visaria apenas locais onde os EUA têm participação, para que eles não se sintam seguros na região.
Você poderia explicar, para o público brasileiro não tão familiarizado com a sua parte do mundo, como é a relação entre os persas iranianos e as populações árabes destas monarquias do Golfo?
O Irã fala farsi, enquanto os vizinhos falam árabe, mas nos comunicamos por meio da religião e das viagens sagradas para Meca, Medina (ambas cidades na Arábia Saudita) e Karbala (Iraque). Pesquisas mostram que as populações árabes estão percebendo que o Irã é o único país que realmente apoia a Palestina contra Israel.
Mesmo jornalistas árabes estão incomodados com os ataques e entendem que a responsabilidade final é dos EUA e de Israel.
Quais são suas impressões sobre a declaração do Hamas pedindo que o Irã pare de bombardear os países do Golfo?
O apoio do Irã à Palestina e ao Hezbollah é sobre a natureza da resistência contra o imperialismo, não apenas sobre grupos específicos. O regime israelense tem ambições de um “Grande Israel”, que ameaça os países árabes do Golfo em seus mapas. Grupos como o Hamas podem ser forçados politicamente a fazer certas declarações por ajuda humanitária, mas temos um objetivo comum: resistir ao imperialismo.
Algo que surpreendeu o mundo foi a rapidez com que o Irã e o Hezbollah conseguiram se rearmar após a guerra de 12 dias do ano passado. Como isso aconteceu, e por quanto tempo o Irã está preparado para sustentar esta guerra?
O Irã é resiliente porque é bom em guerra assimétrica. Nossos drones custam US$ 30 mil, enquanto eles gastam US$ 4 milhões em um míssil para abater um único drone. É muito mais fácil e rápido para nós repormos nossos equipamentos do que para eles reporem sistemas caros como o THAAD [sistema de defesa antimíssil avançado dos EUA].
Além disso, há o fator ideológico: as pessoas acreditam que estão lutando contra a crueldade. Enquanto os EUA e Israel evitam invasões terrestres para proteger suas forças, no Irã, há pessoas nas ruas dispostas a garantir a segurança por suas crenças.
Muito obrigado pela entrevista e, em nome do Brasil de Fato, que vocês tenham um bom Ano Novo.
Muito obrigada a vocês e aos brasileiros a quem mando minha mensagem final: nenhum país está a salvo do imperialismo e da hegemonia dos EUA. Se no Brasil surgir um governo que eles não queiram, tentarão intervenções ou golpes.
A solução é a cooperação entre os países do Sul por meio do BRICS, da Organização de Xangai e de uma moeda comum para enfrentar as sanções. Rezo para que vocês tenham um bom ano também, em segurança e com saúde.Veja abaixo o prédio da emissora antes e depois dos ataques israelo-estadunidenses de 2025:
