Evento reuniu artistas, pensadores e público em celebração ao Dia Mundial do Hip Hop

Painel reuniu artistas e pensadores no festival GOG (Com)Vida” para debater o papel do hip hop na construção da identidade e resistência negra no Brasil. – Brunna Ramos/Brasil de Fato DF
Na data em que se celebra o Dia Mundial do Hip Hop, o Teatro dos Bancários, em Brasília (DF), protagonizou o festival GOG (Com)Vida, idealizado pelo rapper e poeta Genival Oliveira Gonçalves, popularmente conhecido como GOG, um dos principais representantes da cultura hip hop no país. O evento reuniu artistas, coletivos e intelectuais de diferentes regiões do Brasil para uma programação que integrou música, debate e economia criativa.
Entre as atrações, estiveram nomes como Dexter, Atitude Feminina, Renan (Inquérito), Japão (Viela 17), X (Câmbio Negro), Janine Mathias, Thabata Lorena, Mascoty (Ideologia e Tal) e Bira e o Bando (PE). O festival também promoveu o “Momento Elementos”, com DJs, grafiteiros, b-boys e poetas em apresentações dos DF Zulu Breakers, Soundersound, Marola, Freedom Beat, Sarau da Casa, Batalha GOG com Rimas e Guga Baygon no graffiti.
Para GOG, a essência do movimento está na coletividade e na consciência sobre suas origens. “O principal é se juntar aos outros elementos do hip-hop, não se sentir vaidoso. A revolução de um só é vaidade”, afirmou. O artista destacou ainda a importância da ancestralidade: “Não da pra ser ser um rapper sem conhecer a história do rap, sem conhecer a ancestralidade da caminhada, sem conhecer como foi a diáspora africana.”
A iniciativa contou ainda com a Expo Perifa, espaço voltado à economia criativa e à valorização de produtos e marcas periféricas. A proposta foi unir os quatro elementos do hip hop, que são MC, DJ, break e grafite, com o quinto elemento, o conhecimento, em um único ambiente.
Hip Hop na geografia de Brasília
Brasília, planejada para ser o centro de integração nacional, é também marcada por uma configuração espacial segregada. Enquanto o Plano Piloto concentra os órgãos administrativos e a elite econômica, as cidades periféricas, como Ceilândia, Samambaia e Recanto das Emas, entre outras regiões administrativas, tornaram-se territórios de resistência e berço de manifestações culturais populares.
Nesses espaços, o hip-hop se consolidou como linguagem social e instrumento de transformação. O deputado distrital Max Maciel (Psol), presente no evento, reforçou a importância dessa expressão para a juventude das periferias.
“O rap é voz de uma parcela da população que não consegue encontrar outro espaço para reivindicar suas lutas, para mostrar suas dores e também suas alegrias. Ver o movimento hip hop crescendo e ocupando vários espaços mostra de fato a transformação que ele é para um conjunto da população, sobretudo vários jovens negros periféricos”, afirmou Maciel.

A Batalha do Cinzeiro, uma das mais antigas batalhas de rima do Distrito Federal, marcou presença no festival, os artistas Fernando vulgo Mr. MC e Arthur de Brazlândia. A batalha, que há 12 anos promove encontros entre jovens MCs e produtores da periferia, atua como um espaço de formação cultural e social.
Para Arthur, produtor, MC e DJ do coletivo, o rap mantém viva sua função original de conscientizar e mobilizar a juventude. Ele afirmou que “o rap já nasce com esse intuito”, e que o gênero “é uma comunicação, uma tecnologia, um elemento central na construção de uma nova cultura, uma cultura latina, da população negra, com novos valores”.
Segundo o artista, o hip-hop tem papel fundamental na transformação social: “O movimento fortalece políticas públicas, ocupa escolas, unidades de internação, produz eventos nas comunidades e aproxima os jovens do estudo. Muitas vezes, o hip-hop vira uma família, mais do que apenas um projeto.”
Ao comentar a evolução do gênero no país, Arthur destacou o amadurecimento da cena. “O hip-hop evoluiu bastante. Mesmo com a vertente mais comercial, a linha politizada tem se fortalecido. Hoje temos rodas de conversa, seminários e linhas de pesquisa que estudam o movimento. Nosso desafio agora é nos organizarmos como um movimento político de consciência importante”, disse.
O rapper Mr. MC, que há mais de uma década atua na organização da Batalha do Cinzeiro, reforçou a importância de manter as bases que sustentam o movimento. Para ele, “a cena precisa enxergar a verdadeira raiz, o fundamento da cultura, entender por que o rap existe e o que ele representa como bem coletivo”. O artista definiu o hip-hop como “uma resistência cultural de todo um povo”, lembrando que o compromisso social deve continuar sendo o eixo que guia as rimas da periferia.
Rap desperta consciência
Durante a tarde, o evento promoveu um painel com o tema “O Hip-Hop e a Nação Brasileira”, reunindo pensadores e artistas como Regina Lúcia dos Santos do Movimento Negro Unificado de SP), Babi MC, Bonga (MAC), Chamas (Voz Sem Medo), Ferréz e Renan (Inquérito), sob mediação de Fabi Girl. O debate abordou a trajetória do hip hop como instrumento de resistência, educação e consciência racial no Brasil.
Para Regina Lúcia, coordenadora do Movimento Negro Unificado (MNU) em São Paulo, o rap é uma ferramenta de despertar social e político. “O rap é a bomba que a gente precisa todos os dias para acordar a juventude, para despertar a consciência, para que ela consiga colocar para fora a vivência da periferia, valorizar sua cultura e o seu conhecimento”, afirmou.
Ela também destacou a importância de reconhecer o passado: “A gente tem que trilhar o caminho do futuro sem esquecer o que foi feito lá atrás, e o hip hop hoje tem o papel de construir possibilidades de resistência e de autoconhecimento”.
A rapper e palestrante Bárbara Rodrigues, vulgo Babi MC, integrante do movimento hip hop há seis anos e estudante da Universidade de Brasília (UnB), refletiu sobre o crescimento do gênero e seus desafios. “O rap é o gênero mais ouvido do mundo atualmente. Mas com isso veio uma grande expansão de pessoas fazendo e consumindo rap sem saber qual é a raiz, sem saber o tipo de aspecto político que moldou o cenário que fez o hip hop nascer”, disse.
Para ela, o problema não é o mainstream, mas a falta de consciência, por alguns que entram na cena, mas não seguem os princípios de coletividade do movimento.
“O maior problema é que as pessoas que lucram, lucram sem letramento, sem capacidade de transformar isso num agente de transformação. Lucram sem conseguir almejar uma vitória coletiva. E aí eles acabam salvando a própria vida e dizendo que a favela venceu”, refletiu Babi MC.
Transformação social
Entre as atrações principais, o grupo Atitude Feminina, dos Distrito Federal, existente a mais de 25 anos, reafirmou o papel do rap na conscientização popular. Para Ellen, integrante do grupo, o gênero é um instrumento de educação e superação.
“O rap é a voz da periferia. Através dele, conseguimos conscientizar a mulher que ela não deve aceitar a situação de violência e alertar o jovem que o crime não é o caminho. Mesmo sendo periférico, é possível estudar, fazer faculdade e mudar de vida”, disse.
Vindo do Nordeste, o pernambucano Bira, vocalista do grupo Bira e o Bando, ressaltou o potencial do movimento como ferramenta social: “O hip hop é a ferramenta de transformação que o povo da periferia tem”, declarou.
Ele também chamou atenção para o distanciamento de parte das novas gerações em relação à origem do movimento. “A maioria da galera está no hype, mas não busca saber quem foi que derrubou várias portas, quem asfaltou a estrada para eles estarem pisando hoje. Falta isso no hip hop de agora. O hip hop de verdade faz parte de uma cultura e de um resgate de vida”.
