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Gertrudes de Jesus, uma mulher negra à frente do movimento abolicionista em Pernambuco

Três mil pessoas podem ter fugido de barco do Recife com ajuda de Gertrudes e clube de abolicionistas

Fonte: Agência Pública (20/11/25) – Por Mariama Correia

Quando anoitecia, as embarcações deslizavam sorrateiramente pelo Rio Capibaribe, no Recife. Elas estavam abarrotadas de pessoas escravizadas fugidas, escondidas debaixo de feixes de palha. O destino final era o Cais do Porto, de onde homens, mulheres e crianças seguiam para outras províncias, principalmente o Ceará, que já tinham abolido a escravidão em março de 1884.

O Recife cresceu seguindo o curso das águas do Capibaribe, uma estrada fluvial que servia para transporte e por onde se escoava mercadorias, principalmente o açúcar produzido nos engenhos. No final do século 19, o rio tornou-se também uma rota secreta para as fugas de escravizados. Estima-se que, ao menos, três mil escravizados teriam fugido pela rota do rio entre 1884 e 1888, com ajuda de movimentos abolicionistas, sobretudo o Clube do Cupim.

Essa associação secreta e ilegal, fundada na capital pernambucana, era formada por ativistas de vários lugares do país. A maioria eram homens brancos abastados, com grande influência na sociedade, mas havia também mulheres negras libertas, embora a participação delas nos movimentos abolicionistas tenha sido relegada pela historiografia oficial. O fato é que, ainda que não sejam apontadas como protagonistas, as mulheres negras, escravizadas ou libertas, estiveram na linha de frente da luta contra a escravidão no Brasil. Uma delas foi Gertrudes Maria de Jesus.

A trajetória dela foi mapeada pelos pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Adriana Santana, Arthur Danillo Castelo Branco e José Bento Rosa da Silva. Eles apontam que Gertrudes de Jesus era “parte do primeiro escalão de auxiliares, os chamados ‘internos’ do Clube do Cupim” e “a única mulher negra reconhecidamente abolicionista a aparecer em uma fotografia no início do século 20”. O registro é uma edição de 14 de maio de 1910 do Jornal Pequeno, que circulava no Recife. Ela é a única mulher da foto entre nove homens, que aparecem atrás de uma miniatura da jangada da organização, um símbolo de liberdade.

“Na hierarquia, ela estava acima de mulheres brancas de elite, que eram auxiliares externas. Era provavelmente tão importante quanto os mais destacados auxiliares internos, todos homens, frequentemente mencionados na documentação e nas fotografias”, explica Santana.

O Clube do Cupim era uma rede que corroia as estruturas da escravidão por dentro, organizando fugas, libertações e trabalhos para os ex-escravizados. Os chamados “cupins” se comportavam como espiões: se comunicavam em linguagem codificada, adotavam pseudônimos, e conseguiam burlar a polícia e a justiça com agentes secretos infiltrados em diversas esferas da sociedade, incluindo órgãos públicos.

A casa de Gertrudes, que ficava em uma área central da cidade, funcionava como um entreposto do Clube do Cupim, segundo Santana. Os canoeiros, geralmente homens negros libertos que ajudavam outros cativos, precisavam conhecer bem o traçado sinuoso do rio e tomar cuidado porque a polícia montava postos secretos no curso das águas.

“A casa dela era uma ‘panela’, ou seja, um local que escondia os escravizados até a hora do embarque final. Ela fazia parte do coração da organização. Era líder de um quilombo urbano”, explica. “Por ser negra e não ter tantas condições materiais como mulheres brancas que participavam do Clube do Cupim, ela corria muito mais riscos em abrigar escravizados na sua casa”, acrescenta Santana.

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