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Prisão de desembargador avisa que crime mais organizado do RJ não usa fuzil

Prisão de desembargador avisa que crime mais organizado do RJ não usa fuzil

Leonardo Sakamoto • Colunista do UOL – Foto: TH Joias foi fotografado com malotes de dinheiro em cama

16/12/2025 08h05

Há quem repita, como um mantra confortável, que o Brasil está dominado pelo crime. Geralmente, a frase vem acompanhada da imagem simplista da favela, do jovem armado, do território sem

Estado. Mas a prisão hoje do TH Joias foi fotografado com malotes de dinheiro em cama desembargador federal Macário Júdice Neto sugere uma realidade bem menos conveniente: o crime se organiza de verdade, não no morro, mas em gabinetes climatizados que pertencem ao Estado.

Macário foi preso pela Polícia Federal na segunda fase da Operação Unha e Carne, que investiga o vazamento de informações sigilosas da Operação Zargun. Ele era o relator da ação contra o deputado estadual TH Joias, acusado de tráfico e de relação com o Comando Vermelho. Agora, aparece como peça de uma engrenagem que teria beneficiado justamente estruturas do crime organizado.

O mandado de prisão e as dez buscas e apreensões foram autorizados por Alexandre de Moraes, do STF, e tocadas por uma PF que muita gente gostaria de ver domada por leis que reduzem seus poderes.

O episódio não é um raio em céu azul. Ele se soma a um mosaico perturbador no qual os Três Poderes de um mesmo estado aparecem, em maior ou menor grau, atravessados por relações promíscuas com facções criminosas e milícias.

No Executivo, especialmente na área da segurança pública, há um histórico extenso de policiais envolvidos com milícias, grupos de extermínio e tráfico de drogas — não como desvios isolados, mas como método de acumulação de poder e renda. E o braço armado do Estado, em certos casos, funcionando como sócio do crime. A esbórnia não começou com o governo de Cláudio Castro (PL), mas segue impávida. Aliás, ele é o único dos governadores eleitos nas últimas décadas que não foi cassado nem preso por corrupção. Ainda, pois há processo contra ele por desvio de recursos para fins eleitorais no TSE.

No Legislativo, o caso de TH Joias (sem partido) é exemplar. Não se trata apenas de um parlamentar acusado de crimes comuns, mas de alguém que, segundo as investigações, teria usado o mandato como instrumento para proteger interesses de uma facção criminosa. O presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar (União

Brasil), também foi preso sob suspeita de atuar para blindar Joias, vazando informações e interferindo politicamente para frear investigações.

A Casa que deveria fiscalizar virou escudo quando votou para tirar Bacellar da cadeia. Mas se ele não fala a PF, o seu celular, aprendido, esta cantando alto. Ele, aliás, foi alvo de novas buscas nesta operação.

Agora, o Judiciário participa dessa festa com um desembargador federal preso por suspeita de participar de um esquema de vazamento de informações que favoreceria o crime organizado.

Isso não é apenas um escândalo jurídico, mas um indicativo de que quando se fala em “crime organizado”, estamos falando de algo muito mais sofisticado do que fuzis e bocas de fumo. É acesso privilegiado a informações, decisões judiciais, articulações políticas, proteção institucional.

Como já disse aqui, a promiscuidade entre crime e Estado. Por exemplo, Domingos e Chiquinho Brazão, respectivamente, conselheiro do Tribunal de Contas do Rio e deputado federal, foram apontados como mandantes da execução da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, em março de 2018. Rivaldo Barbosa, então chefe da Polícia Civil, foi o terceiro nome dessa organização criminosa, ajudando a atrapalhar as investigações e proteger os assassinos. A PF foi, inclusive, fundamental para resolver o caso.

Facções aprenderam há muito tempo que o verdadeiro poder não está apenas na venda de droga, mas também no controle territorial e em outros negócios lucrativos, como venda de gasolina adulterada e investimento do dinheiro tendo como parceiros fundos da Faria Lima. Mas também entenderam a necessidade de imbricar-se no Estado. No orçamento, na caneta, nos segredos de investigação, na capacidade de atrasar, anular ou direcionar decisões. O bandido mais perigoso não é aquele que corre das autoridades, é o que janta com elas e dorme tranquilo porque sabe, antes de todo mundo, quando vai rolar um toc-toc-toc na sua porta.

Dizer que “tá tudo dominado” não é força de expressão. É diagnóstico. Mas não no sentido preguiçoso de que o Estado perdeu para o crime.

O que esses casos mostram é algo mais grave: partes do Estado decidiram conviver, negociar e, em certos momentos, trabalhar para o crime.

Quando isso acontece, a favela vira apenas o palco visível de um espetáculo cujo roteiro foi escrito nos palácios.

Combater o crime organizado, portanto, não deveria ter como exemplo uma operação desastrada que termina com 118 civis e quatro policiais mortos, como a que ocorreu na Penha e no Alemão. Mas investigar deputados, prender presidentes de Assembleia, afastar policiais corruptos e, sim, deter desembargadores quando há indícios de que cruzaram a linha, como a PF faz. Tudo o mais é discurso fácil para quem prefere apontar o dedo para baixo e não olhar para cima.

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