Falta de verba atrasa cirurgias oncológicas no Hospital da Criança de Brasília, relatam mães
Secretaria de Saúde alega que os débitos determinados pela Justiça foram quitados
Por Brasil de Fato DF – Luiza Melo
Foto: Em frente ao Hospital da Criança de Brasília, mães cobram urgência no tratamento| Crédito: Luiza Melo/Brasil de Fato DF
Mães de pacientes pediátricos oncológicos protestaram em frente ao Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) nesta sexta-feira (9). Elas denunciam a suspensão de atendimentos e o fechamento de leitos causados pela falta de verba nos últimos meses. Segundo o hospital e a Secretaria de Saúde, os valores em aberto foram pagos.
A filha de Larissa Cairus, que faz acompanhamento médico no HCB desde 2023, foi afetada com o bloqueio dos atendimentos. A criança aguarda uma cirurgia para a retirada de um cisto broncogênico no pulmão, diagnosticado desde o nascimento.
“O atendimento dela foi suspenso desde o anúncio da falta de repasses. Ela fez um exame de broncoscopia e já está regulada para ser operada. Estamos aguardando a vaga dessa cirurgia. Com a suspensão, ficamos em desespero”, relata ao Brasil de Fato DF.
Devido à falta de pagamento nos meses de outubro, novembro e dezembro de 2025, o hospital teve que fechar temporariamente 65 leitos de internação e 24 leitos de UTI. A dívida registrada somou R$ 79 milhões.
Com um filho que faz tratamento há um ano no HCB, Cilene Rodrigues compartilha do mesmo sentimento de preocupação das outras mães. Seu filho, Nicolas Renan, teve uma consulta pré-cirurgia cancelada neste período.
“Sabemos que o câncer não espera. Precisávamos urgentemente da resposta do governo para que o hospital voltasse a funcionar normalmente. Essa consulta era muito importante, porque gerou os preparativos para uma nova cirurgia do pulmão”, afirmou.
Na terça-feira (6), o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) determinou que o Governo do Distrito Federal (GDF), liberasse o repasse de R$ 69 milhões para restabelecer o funcionamento integral dos procedimentos.
Em nota, o HCB informou que os pagamentos já foram realizados pelo governo e os serviços assistenciais foram restabelecidos e estão funcionando normalmente a partir desta sexta-feira. A SES também alega que os débitos foram quitados.
Doenças raras
Além de pacientes oncológicos, o HCB trata crianças e adolescentes com síndromes raras e condições complexas e crônicas, que também foram afetados pela falta de repasses financeiros.
Camila Louise, presidente da Raro Afeto, rede de familiares e pacientes com condições raras, explica que a filha de um ano e oito meses também foi prejudicada. Apesar da retomada, a representante acredita que as mães precisam continuar atentas aos serviços prestados.
“Eu tive a notícia da retomada. Mas, considerando o tempo de prejuízo no serviço, precisamos manter a vigilância. Uma coisa é interromper as medidas de contingência, outra é normalizar o serviço prestado. Já sentíamos questões antes mesmo do corte. Estamos em contato direto com as outras mães”, explica.
Hospital da Criança
Sob a gestão público-privada, o HCB é referência na capital federal e no Brasil. O Hospital da Criança de Brasília atende exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e é gerido pelo Instituto do Câncer Infantil e Pediatria Especializada (Icipe) e a Secretaria de Saúde do DF.
O atraso no repasse para o HCB faz parte de uma crise na saúde pública do DF que há muito se arrasta, refletindo a demora nos atendimentos, falta de profissionais e falhas estruturais em unidades de saúde. O cenário deve ser ainda mais crítico em 2026 com a previsão de redução em R$1 bilhão do orçamento na área.
Rede de apoio
A mobilização foi encabeçada pela Mães da Onco (Instituto Amavida), entidade que presta apoio a mães e famílias de pacientes oncológicos. Atualmente, a organização integra a Frente Parlamentar de Enfrentamento ao Câncer da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).
A rede surgiu a partir da iniciativa de Shalma Vicentim, quando ela recebeu o diagnóstico de leucemia da filha em 2023. No começo, o grupo era limitado apenas a troca de mensagens entre as mães.
Um ano depois, Vicentim começou a se engajar e tornou-se porta-voz dessas famílias com o HCB. Hoje, são feitos projetos sociais dentro da organização para acolhimento de mães em vulnerabilidade.
“Em junho de 2024 começou o trabalho social. E aí a partir disso, a distribuição de kits de higiene. Começamos a suprir de outra forma, de acordo com a necessidade das mães. Temos conseguido abrir um leque. Ajudamos aquelas mães com maior vulnerabilidade. Se precisar de um advogado, conseguimos fazer essa ponte”, afirma.
Editado por: Clivia Mesquita
