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Bloco das Montadas crava bandeira da diversidade no coração do poder político em Brasília

Bloco das Montadas crava bandeira da diversidade no coração do poder político em Brasília

Conheça a trajetória do bloco de drags queens que desfila no Distrito Federal há 8 anos

Drags em frente ao museu Nacional em Brasília
Drags em frente ao museu Nacional em Brasília | Crédito: Thiago Sabino

O Bloco das Montadas ocupou as ruas de Brasília com a bandeira da diversidade e atraiu mais de 100 mil pessoas. O tradicional cortejo aconteceu no domingo (15) na área externa do Museu Nacional da República, com as seguintes  atrações: Lia Clark, Gretchen, Banda das Montadas e outros artistas.

Para 2026 o tema foi Nosso Pop, que exalta a diversidade cultural brasileira. Para a artista Ruth Venceremos, o propósito da festa é “garantir um espaço acolhedor e cheio de alegria” para as pessoas foliãs, mantendo o Bloco das Montadas como espaço de celebração, cultura e participação social no Carnaval de Brasília.

A tão esperada festa no domingo de Carnaval marcou mais um capítulo de uma trajetória iniciada em 2018, que articula arte drag, participação popular e resiste a diferentes contextos políticos e sociais vividos no país ao longo dos últimos anos.

Um bloco que nasce no centro do poder

Criado no Setor Bancário Norte, o Bloco das Montadas nasce próximo aos espaços do poder político nacional, em uma área que concentra sedes de instituições financeiras. Desde sua primeira edição, o bloco se insere no Carnaval de Brasília como uma experiência de ocupação do espaço público por pessoas, estéticas e narrativas historicamente marginalizadas.

A estreia do bloco, em 2018, ocorreu em um cenário de instabilidade política, marcado pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff e pela ascensão da extrema direita, associado a retrocessos em políticas sociais e culturais. Naquele ano, o tema Carnaval sem Temer inseriu a crítica ao momento político na festa popular.

Montação

O Bloco das Montadas tem como eixo estruturante a cultura drag e a arte transformista, reunindo drag queens, drag kings e artistas LGBT+ como protagonistas da folia. Sobre o nome do bloco, Ruth Venceremos explica que “o bloco tem esse nome em referência ao processo de montação, característico da cultura drag”, ressaltando o significado simbólico da transformação estética como forma de expressão artística e identitária.

“Carnaval sem Temer” | Crédito:Mídia Ninja

A organização inicial previa um evento de pequeno porte, com estrutura reduzida e público estimado em algumas centenas de pessoas. No entanto, a adesão superou todas as expectativas e revelou uma demanda reprimida por espaços de celebração da diversidade no Carnaval de Brasília. “Esperávamos 500 pessoas e apareceram 15 mil”, destaca Ruth Venceremos.

A primeira edição contou com estrutura básica, o que exigiu adaptações. A experiência contribuiu para a profissionalização do bloco nos anos seguintes, ampliando o diálogo com órgãos públicos e políticas de fomento à cultura para garantir segurança, acessibilidade e condições de trabalho para artistas e técnicos.

Carnaval como espaço político

Ao longo das edições, o Bloco das Montadas consolidou o Carnaval de Brasília como espaço de expressão política sem o dissociar da festa. Fantasias, performances, repertórios musicais e estandartes passaram a dialogar com pautas relacionadas a direitos humanos, democracia, diversidade e liberdade de expressão, acompanhando o cenário político nacional.

Em 2019, o bloco retornou às ruas com maior estrutura e lançou seu hino oficial, reforçando sua identidade no Carnaval. No mesmo ano, foi reconhecido como Melhor Agremiação do Carnaval de Brasília, consolidando sua presença no calendário oficial da cidade e ampliando a visibilidade junto ao público e à imprensa.

Brasília como metáfora da montação

A edição de 2020 trouxe o tema “Brasília, uma cidade montada”, conectando a ideia da montação drag ao processo de construção da capital federal, planejada e erguida por pessoas de diferentes origens. Ruth Venceremos destacou que “Brasília é uma cidade montada, construída por muitas mãos”, reforçando a relação entre diversidade cultural e identidade urbana.

Naquele Carnaval pré-pandemia, o desfile reuniu cerca de 60 mil pessoas no Setor Bancário Norte, tornando-se a maior edição do bloco até então. Poucas semanas depois, o avanço da covid alteraria radicalmente a dinâmica social, cultural e econômica do país, interrompendo as festas de rua.

O bloco no tempo do cuidado

Em meio a pandemia global, a suspensão do Carnaval evidenciou os efeitos da crise de saúde sobre o setor cultural, especialmente para artistas e trabalhadores informais. As ruas antes ocupadas pela folia permaneceram vazias, refletindo o luto coletivo e a crise sanitária enfrentado pela população brasileira.

Diante desse cenário, o coletivo Distrito Drag reorganizou sua atuação e promoveu campanhas de apoio financeiro e distribuição de alimentos para artistas LGBT+ e pessoas em situação de vulnerabilidade, adaptando suas práticas à realidade imposta pela pandemia.

Retomada

Com o avanço da vacinação e a redução das restrições sanitárias, 2022 marcou a retomada das atividades culturais presenciais. O Bloco das Montadas voltou a se apresentar em eventos e festivais, retomando o contato direto com o público após dois anos de interrupção.

Gente é pra brilhar | Crédito: Shake It BSB

A volta do bloco ocorreu em um contexto de reconstrução social e econômica, em que o Carnaval voltou a ocupar papel central na rearticulação de vínculos comunitários e na valorização da cultura como direito e como trabalho.

Democracia e memória recente

Em 2023, o Bloco das Montadas desfilou em meio a debates nacionais sobre democracia, após os ataques às instituições da República no início do ano. O desfile incorporou referências à defesa da ordem democrática, utilizando o Carnaval como linguagem simbólica de memória política.

No mesmo ano, a trajetória do bloco foi registrada no documentário Glitter Carnavalescoexibido no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, ampliando o registro histórico do Montadas também no audiovisual.

Novos territórios e linguagens

Em 2024, o Bloco das Montadas passou a ocupar o gramado da Biblioteca Nacional, no coração do Plano Piloto, ampliando sua presença em espaços simbólicos da capital federal. A escolha do local reforçou a relação do bloco com áreas centrais da cidade e com espaços ligados à memória, à cultura e às instituições públicas.

O tema da edição foi Priscilla, Rainha do Cerrado, em referência aos 30 anos do filme Priscilla, a Rainha do Deserto (1994), marco da cultura drag internacional.

A edição foi marcada por ações visuais e performáticas que dialogaram com o cinema, a cultura pop e a paisagem do Cerrado. Mesmo com a chuva durante parte do evento, o bloco manteve sua programação. Para Ruth Venceremos, a ocupação daquele espaço reforçou o sentido do projeto.

“A gente fincou a bandeira da diversidade no coração do poder político aqui em Brasília”, destaca Ruth Venceremos ao comentar a presença do bloco em áreas centrais da cidade.

Em 2025, o Bloco das Montadas apresentou o tema Ritmos do Brasil, ampliando o diálogo com a diversidade musical do país. A proposta partiu da valorização de diferentes expressões sonoras que compõem a cultura popular brasileira, integrando gêneros como samba, axé, funk e pop ao repertório do desfile.

A edição marcou a estreia do bloco na área externa do Museu Nacional da República, espaço de grande circulação e relevância cultural no Distrito Federal. De acordo com Ruth, a mudança reforça a dimensão coletiva do projeto: “O bloco é a culminância de todo um trabalho construído ao longo do ano”, explicou, ao situar o desfile como resultado de processos artísticos, organizativos e comunitários contínuos.

Editado por: Clivia Mesquita

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