Livro “IA-cracia” denuncia poder das big techs e alerta para ameaça dos algoritmos à democracia
Autor de “IA-cracia” defende maior transparência das plataformas digitais e afirma que grandes empresas de tecnologia exercem influência crescente sobre a política, a economia e o comportamento social
Brasília – O avanço das grandes empresas de tecnologia e o poder exercido pelos algoritmos sobre a vida cotidiana estão no centro das reflexões do pesquisador e escritor Ergon Cugler, autor do livro “Iacracia – Como Enfrentar a Ditadura das Big Techs”. Na obra, o especialista alerta para o que considera uma nova forma de concentração de poder, capaz de influenciar decisões políticas, padrões de consumo e até mesmo o funcionamento das democracias contemporâneas.
Segundo o autor, as gigantes da tecnologia – entre elas Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon e Meta – acumulam lucros bilionários e passaram a ocupar uma posição estratégica na economia global, superando setores tradicionais como petróleo e construção civil.
“Essas empresas moldam o nosso cotidiano e influenciam a forma como pensamos, consumimos e até votamos”, afirma. Para ele, o conceito de “iacracia” surge justamente da combinação entre algoritmos e poder econômico, criando um ambiente em que a lógica do lucro se sobrepõe ao exercício pleno da cidadania.

Algoritmos influenciam emoções e decisões
Na avaliação do pesquisador, as plataformas digitais operam por meio de sistemas que capturam preferências, medos e emoções dos usuários para direcionar conteúdos capazes de aumentar o engajamento e, consequentemente, a receita publicitária das empresas.
Ele cita estudos que apontam o aumento da disseminação de teorias conspiratórias, discursos de ódio e conteúdos de forte apelo emocional nas redes sociais.
“O lucro mediado pelos algoritmos acaba favorecendo conteúdos que provocam medo, indignação e polarização”, argumenta.
Ataques em escolas e limites da liberdade de expressão
Durante a apresentação do livro, Ergon relembrou episódios ocorridos em abril de 2023, quando grupos extremistas utilizaram plataformas digitais para organizar ameaças de ataques a escolas brasileiras.
Segundo ele, a recusa inicial do Telegram em fornecer informações sobre usuários investigados levantou um debate sobre os limites entre liberdade de expressão, privacidade e responsabilidade das plataformas.
“A liberdade de expressão termina quando há prática de crime. Nenhuma empresa pode se colocar acima das leis de um país”, defende.
“Constituições secretas” das plataformas
Um dos principais argumentos do autor é que as redes sociais passaram a funcionar como territórios regidos por regras pouco transparentes.
Ele compara as políticas internas das plataformas a uma espécie de “constituição secreta”, em que os usuários desconhecem os critérios utilizados pelos algoritmos para determinar quais conteúdos terão maior alcance ou serão restringidos.
“Hoje, uma plataforma privada pode decidir o que aparece ou deixa de aparecer sem que a sociedade conheça os critérios adotados. Isso afeta diretamente a disputa democrática de ideias”, afirma.
Para o pesquisador, palavras, temas e determinados grupos sociais podem ter níveis diferentes de visibilidade em razão dos mecanismos automatizados de recomendação.
Comunicação no centro da disputa política
Ergon argumenta que a comunicação deixou de ser uma questão secundária e passou a ocupar posição central nas disputas econômicas e políticas contemporâneas.
Ele chama atenção para a aproximação entre lideranças do setor tecnológico e forças políticas conservadoras em diferentes países, apontando que a influência das plataformas digitais extrapola o campo empresarial e alcança diretamente as instituições democráticas.
“Estamos diante de um momento em que as políticas de privacidade das empresas não podem substituir as leis dos países”, afirma.
Mobilização coletiva como resposta
Apesar do cenário que considera preocupante, o autor defende que a sociedade ainda tem condições de enfrentar o avanço do poder das big techs.
Entre as alternativas apontadas estão a organização em sindicatos, movimentos estudantis, veículos de comunicação independentes e entidades dedicadas ao combate à desinformação e à defesa dos direitos digitais.
Segundo ele, iniciativas como a Coalizão Direitos na Rede, a Rede Nacional de Combate à Desinformação e organizações da mídia alternativa têm desempenhado papel importante na construção de mecanismos de regulação democrática do ambiente digital.
“O pior caminho é enfrentar esse problema de forma isolada. A organização coletiva é fundamental para impedir que as grandes plataformas ditem as regras da sociedade”, conclui.
Ao propor o conceito de “iacracia”, Ergon busca estimular o debate sobre soberania digital, transparência algorítmica e regulação das plataformas, temas que ganham cada vez mais espaço nas discussões sobre democracia e direitos na era da informação.
