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Romancista e policial civil relança obra sobre redemocratização e defende uma segurança pública comprometida com os direitos humanos

Romancista e policial civil relança obra sobre redemocratização e defende uma segurança pública comprometida com os direitos humanos

Daniel Barros, autor de cinco romances e coordenador dos Policiais Antifascistas, afirma que literatura e atuação policial podem caminhar juntas na defesa da democracia

Brasília (DF) – Quinze anos após a primeira edição, o escritor e policial civil Daniel Barros relança o romance O Sorriso da Cachorra, obra ambientada na década de 1980 e que revisita o processo de redemocratização brasileira, os conflitos pela reforma agrária e a escalada da violência política no campo volta à TV Comunitária de Brasília, no programa Letras & Livros, produzido e ancorado pelo escritor Pedro Batista. O lançamento ocorrerá no próximo dia 9, às 19 horas, no tradicional Beirute da 109 Sul, em Brasília.

Autor de cinco romances publicados, professor da Escola Superior de Polícia e coordenador dos Policiais Antifascistas, Daniel afirma que a nova edição da obra representa mais do que uma celebração literária. Para ele, trata-se de uma oportunidade de revisitar temas que permanecem atuais, como a violência contra as mulheres, os ataques à democracia e o crescimento de discursos autoritários no país.

“O livro é uma provocação ao leitor e uma reflexão sobre a importância da luta pela democracia e pelos direitos que foram conquistados com muito sacrifício”, afirmou.

Romance resgata conflitos da década de 1980

Ambientado em Alagoas, O Sorriso da Cachorra acompanha a trajetória de dois adolescentes que vivem as descobertas do amor em meio às transformações políticas que marcaram o fim da ditadura militar. Paralelamente, a narrativa aborda a organização do movimento estudantil, a luta pela reforma agrária e o surgimento da União Democrática Ruralista (UDR), entidade associada aos conflitos agrários que marcaram o período.

Segundo o autor, revisitar esse momento histórico é fundamental para compreender os desafios enfrentados pela democracia brasileira nos dias atuais.

“Quando se pede a volta do AI-5, pede-se também a volta da censura, do silêncio e da violência de Estado”, observou.

Segurança pública e combate ao autoritarismo

Além da literatura, Daniel Barros é uma das vozes do campo progressista na área da segurança pública. Pré-candidato a deputado distrital pelo PT, ele afirma ser o único policial identificado com a esquerda no cenário político do Distrito Federal.

Na entrevista, o policial criticou o que considera a apropriação do discurso da segurança pública por setores ligados ao autoritarismo e à chamada “bancada da bala”. Segundo ele, a valorização dos profissionais, a formação humanista e o fortalecimento da inteligência policial são mais eficazes no combate ao crime do que políticas baseadas exclusivamente na repressão.

“Eles não defendem a polícia. Defendem uma estrutura fragilizada, mal remunerada e suscetível à corrupção”, afirmou.

Defesa da reforma nas academias de polícia

Professor da Escola Superior de Polícia, Daniel defende uma reformulação dos currículos das academias policiais brasileiras, com maior participação das universidades públicas e fortalecimento do ensino em direitos humanos.

Segundo ele, a estrutura de formação ainda carrega traços herdados do período da ditadura militar e necessita de atualização.

“Não se pode continuar formando policiais com uma lógica que enxerga a população como inimiga. A polícia existe para proteger vidas e servir à sociedade”, destacou.

O escritor também defende a retomada do debate sobre a desmilitarização das polícias militares e a implementação de carreiras únicas nas instituições policiais.

Literatura policial e crítica social

Dos cinco romances publicados por Daniel Barros, três pertencem ao gênero policial. Em suas obras, os personagens centrais são pessoas comuns inseridas em contextos marcados por desigualdades sociais, corrupção e disputas de poder.

No romance Enterro Sem Defunto, por exemplo, policiais honestos enfrentam obstáculos internos para investigar crimes envolvendo figuras poderosas da República. Segundo o autor, a literatura é também uma forma de refletir sobre as estruturas de poder existentes na sociedade.

“Não é possível escrever sem dialogar com a realidade em que vivemos”, afirmou.

Novos livros abordarão trabalho escravo e violência contra a população LGBT+

Daniel revelou que prepara dois novos romances. O primeiro, provisoriamente intitulado Cana, Corte e Sangue, retrata as condições de exploração dos trabalhadores envolvidos na colheita da cana-de-açúcar e os casos de trabalho análogo à escravidão ainda registrados no país.

A obra teve o título alterado após sugestão do escritor e frade dominicano Frei Betto. Inicialmente, o livro se chamaria Sacarara de Sangue, referência a uma palavra de origem sânscrita relacionada ao açúcar.

O segundo romance, ainda sem previsão de lançamento, abordará a violência contra a população LGBTQIA+ por meio da história de um assassino em série que escolhe como vítimas pessoas da comunidade. O título provisório é Armário Fechado.

Cultura e valorização dos escritores do DF

Daniel Barros também defende políticas públicas voltadas à literatura e aos escritores do Distrito Federal. Entre as propostas apresentadas estão a criação de categorias específicas para autores locais em premiações literárias e a inclusão de obras produzidas no DF entre os livros adotados pela Universidade do Distrito Federal em seus processos seletivos.

“Temos escritores premiados nacionalmente e uma produção cultural extremamente rica. É preciso valorizar quem produz literatura no Distrito Federal”, afirmou.

Ao unir atividade policial, militância em defesa dos direitos humanos e produção literária, Daniel Barros acredita que a cultura e a segurança pública não são campos opostos, mas instrumentos complementares na construção de uma sociedade mais democrática.

“A defesa da democracia não é uma questão pessoal. É um compromisso coletivo que exige coragem e participação”, concluiu.

Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:

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