Criador da icônica sinalização de Brasília celebra 50 anos do projeto que se tornou símbolo da capital e integra acervo do MoMA
Arquiteto Danilo Barbosa conta como desenvolveu, aos 26 anos, o sistema de placas que orienta motoristas e pedestres e que hoje é reconhecido internacionalmente
Brasília (DF) – Poucas obras estão tão presentes no cotidiano dos brasilienses quanto a sinalização urbana da capital federal. As placas azuis, verdes e brancas que orientam motoristas e pedestres pelas asas, eixos e superquadras tornaram-se parte da identidade visual da cidade e ganharam reconhecimento internacional ao integrar o acervo permanente do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Por trás desse projeto está o arquiteto, designer gráfico e professor aposentado Antônio Danilo Moraes Barbosa, que completa em 2026 os 50 anos da criação do sistema que se transformou em um dos símbolos mais conhecidos de Brasília.
Em entrevista ao programa Pietra na TV, apresentado por Pietra Rocha, Danilo relembrou sua chegada à capital em 1968, vindo de São José do Rio Preto, no interior paulista, para estudar Arquitetura na Universidade de Brasília (UnB). Segundo ele, foi amor à primeira vista.
“Quando o ônibus entrou no Eixo Rodoviário e eu vi aquela paisagem monumental, fiquei deslumbrado. Até hoje me emociono ao lembrar daquele momento”, contou.
De estudante da UnB ao criador de um dos ícones da cidade
Formado em Arquitetura e Urbanismo pela UnB em 1973, Danilo iniciou sua trajetória profissional na administração regional do Guará e, posteriormente, na Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan). Em 1975, aos 26 anos, recebeu a missão de elaborar um projeto de sinalização para a capital.
“Eu era muito jovem e talvez um pouco irresponsável por aceitar um desafio tão grande, mas tive a felicidade de reunir uma equipe extremamente comprometida com Brasília”, recordou.
O trabalho envolveu meses de pesquisas, visitas às cidades do Distrito Federal e centenas de fotografias que registravam a ausência de padronização existente na época. O projeto foi concluído em 1976 e implantado nos anos seguintes em todo o DF.
Harmonia com a arquitetura de Brasília
Uma das maiores preocupações da equipe era criar uma sinalização que se integrasse ao conjunto urbanístico concebido por Lúcio Costa e às obras de Oscar Niemeyer e Athos Bulcão, sem competir visualmente com a arquitetura da cidade.
“Fizemos inúmeros estudos e protótipos para garantir que a sinalização informasse sem agredir a paisagem urbana”, explicou Danilo.
As placas passaram a seguir um sistema cromático específico. O verde foi destinado às indicações direcionais; o azul, à identificação de locais e serviços; o branco, às informações explicativas; e, posteriormente, o marrom foi incorporado à sinalização turística, conforme padrões internacionais.
Pensado para motoristas e pedestres
Além dos condutores de veículos, o projeto foi desenvolvido para atender também aos pedestres. O sistema incluiu mapas de quadras e setores, painéis com pontos turísticos e placas interpretativas em português, inglês e espanhol. Brasília tornou-se a única cidade brasileira a possuir ícones turísticos próprios, aprovados pelos órgãos nacionais de trânsito.
Outro elemento característico é o prisma triangular utilizado na identificação dos blocos das superquadras, projetado para ser facilmente visualizado tanto por quem circula de carro quanto por quem caminha sob os pilotis.
Reconhecimento internacional
O sistema de sinalização de Brasília ganhou projeção mundial em 2012, quando uma de suas peças foi incorporada ao acervo permanente do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). O processo de avaliação durou cerca de dois anos e contou com a intermediação do embaixador André Corrêa do Lago, integrante do comitê de arquitetura e design da instituição.
A peça escolhida representa a Unidade de Vizinhança formada pelas superquadras 107, 108, 307 e 308 Sul, considerada a única totalmente concluída conforme o projeto original de Lúcio Costa.
“Para mim, mais importante do que o reconhecimento internacional é o carinho da população. Os moradores abraçaram o projeto e ajudam a preservá-lo”, afirmou o arquiteto.
Um candango por escolha
Casado há 50 anos e pai de dois filhos nascidos em Brasília, Danilo se define como um candango por vocação.
“Cheguei aqui sozinho para estudar e Brasília me deu tudo: uma família maravilhosa, amigos e a oportunidade de deixar uma pequena contribuição para a cidade”, disse.
Hoje, aos 76 anos, o arquiteto continua sendo convidado para palestras em universidades e faz questão de compartilhar sua experiência com as novas gerações.
“É importante que os jovens conheçam a história da cidade e entendam como ela foi construída. Essa é a minha pequena contribuição para Brasília”, afirmou.
Cinco décadas depois da criação do projeto, as placas que orientam milhões de pessoas diariamente continuam cumprindo a função imaginada por seu criador: integrar-se à paisagem da capital e ajudar a contar a história de uma das cidades mais singulares do mundo.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
