Érika Kokay defende mais mulheres nos espaços de poder e alerta para os desafios da democracia em 2026
Deputada federal afirma que a luta por igualdade de gênero é estruturante para a construção de uma sociedade democrática e critica a disseminação de ódio e desinformação nas redes sociais
Brasília (DF) – A ampliação da participação feminina nos espaços de poder, o enfrentamento à violência política de gênero e a defesa da democracia marcaram a participação da deputada federal Érika Kokay no programa Diálogos ADUnB, promovido pela Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB), em parceria com a TV Comunitária de Brasília. Durante a entrevista, a parlamentar traçou um panorama das desigualdades enfrentadas pelas mulheres brasileiras e destacou a importância das eleições de 2026 para a consolidação democrática do país.
Integrando a programação do Março de Lutas das Mulheres, o debate abordou a baixa representação feminina nas instituições políticas e os obstáculos históricos que ainda limitam o acesso das mulheres aos espaços de decisão.
“A luta por equidade de gênero não é um adorno, nem a cereja do bolo. Ela é estruturante para a construção de uma sociedade democrática e igualitária”, afirmou a deputada.
Militância iniciada na resistência à ditadura
Natural de Fortaleza (CE), Érika Kokay chegou a Brasília em 1975 e ingressou no curso de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). Foi na instituição que iniciou sua militância política em defesa da democracia durante o regime militar.
Participante das mobilizações estudantis de 1977, acabou sendo expulsa da universidade juntamente com outros estudantes considerados opositores da ditadura. Após a aprovação da Lei da Anistia, conseguiu retornar à UnB por decisão judicial e concluiu a graduação em Psicologia em 1988.
“Eu fui expulsa da universidade porque ousava lutar pela democracia, pelo riso e pelos direitos. Mas retornamos e concluímos nossa formação”, relembrou.
Movimento sindical e trajetória política
Antes de ingressar na vida parlamentar, Érika destacou-se no movimento sindical bancário. Funcionária da Caixa Econômica Federal, participou da primeira greve da história da instituição, em 1985, reivindicando o reconhecimento dos empregados como bancários e o direito à sindicalização.
Posteriormente, presidiu o Sindicato dos Bancários de Brasília e a Central Única dos Trabalhadores do Distrito Federal (CUT-DF). Em 2002, foi eleita deputada distrital e, desde 2011, exerce mandato na Câmara dos Deputados, estando atualmente em seu quarto mandato.
Violência de gênero e desigualdade estrutural
Durante a entrevista, a parlamentar ressaltou que a discriminação contra as mulheres é resultado de uma construção histórica e cultural baseada no patriarcado e no machismo.
Segundo ela, diversas formas de violência permaneceram naturalizadas por décadas e passaram a ser reconhecidas a partir de legislações como a Lei Maria da Penha.
“A violência psicológica, patrimonial, institucional, política e obstétrica sempre existiram. O desafio é desnaturalizar essas práticas”, observou.
A deputada também chamou atenção para o chamado “teto de vidro”, expressão utilizada para descrever as barreiras invisíveis que dificultam a ascensão das mulheres aos cargos de liderança.
“Quando uma mulher ocupa espaços historicamente reservados aos homens, parece que ela não pode errar. A sociedade impõe às mulheres uma ditadura da perfeição”, afirmou.
Participação feminina ainda é reduzida
Embora as mulheres representem a maioria da população brasileira, elas ocupam menos de 18% das cadeiras da Câmara dos Deputados, percentual considerado insuficiente pela parlamentar.
Para Érika Kokay, é necessário avançar além das cotas de candidaturas e discutir a paridade na ocupação dos mandatos.
“Nós queremos paridade nas cadeiras. Queremos acesso ao microfone, à caneta e ao batom”, declarou, em referência à necessidade de maior participação feminina nos espaços de poder.
Políticas públicas com recorte de gênero
A deputada elogiou a recriação do Ministério das Mulheres pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e destacou a retomada do Ligue 180, serviço nacional de atendimento às mulheres em situação de violência.
Segundo ela, todas as políticas públicas — nas áreas de saúde, educação, cultura, trabalho e geração de renda — precisam incorporar a perspectiva da igualdade de gênero.
“Não é possível construir uma sociedade livre enquanto milhões de mulheres têm medo de voltar para casa”, afirmou.
Eleições de 2026 e combate à desinformação
Ao analisar o cenário político, Érika Kokay classificou as eleições de 2026 como decisivas para a continuidade da reconstrução democrática do país. A parlamentar demonstrou preocupação com a disseminação de notícias falsas e discursos de ódio nas plataformas digitais e defendeu a regulamentação das redes sociais.
“Os discursos não são inocentes. Eles se transformam em ações e em estatísticas. O Brasil continua entre os países com maiores índices de feminicídio do mundo”, alertou.
A deputada também destacou o papel das mulheres na derrota da extrema direita nas eleições de 2022 e ressaltou a importância da organização popular como instrumento de fortalecimento da democracia.
“Não quero andar só”
Ao encerrar a entrevista, Érika Kokay fez uma defesa da solidariedade, da participação coletiva e da diversidade como fundamentos da democracia.
Inspirando-se em pensamentos da revolucionária Rosa Luxemburgo, a parlamentar afirmou que o movimento coletivo é essencial para romper as estruturas que limitam a participação das mulheres na sociedade.
“Eu sozinha talvez chegue mais rápido, mas com outras mulheres chego mais longe. Não quero andar só”, concluiu.
A entrevista integrou as atividades do Março de Lutas das Mulheres da ADUnB, iniciativa voltada à promoção do debate sobre igualdade de gênero, democracia e direitos sociais.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
