Durante séculos, os povos indígenas apareceram nas telas brasileiras como personagens. Eram observados, interpretados, descritos. Quase nunca tinham o direito de decidir onde posicionar a câmera, quais memórias preservar ou quais silêncios respeitar.
Agora, essa direção muda de mãos.
A seleção de produções do povo Xukuru do Ororubá para o Festival de Cinema de Gramado — um dos palcos mais prestigiados do audiovisual brasileiro — representa mais do que uma conquista artística. É um deslocamento histórico. Pela primeira vez, muitas dessas histórias chegam ao circuito nacional conduzidas por quem sempre as viveu.
“O território também produz conhecimento, arte e cinema de alta qualidade”, afirmam os integrantes do coletivo Ororubá Filmes. A frase resume um movimento que vai além da cultura: trata-se da disputa sobre quem tem o direito de narrar o Brasil.
No alto da Serra do Ororubá, em Pesqueira, Agreste pernambucano, o cinema não começou com claquetes nem grandes produções. Começou como começa toda tradição: escutando.
Escutando os mais velhos.
Escutando a terra.
Escutando a memória.
Foi desse exercício de permanência que nasceu o Ororubá Filmes, coletivo formado por realizadores indígenas que transformou o audiovisual em uma extensão da própria luta pelo território. Se antes o povo Xukuru precisou resistir para continuar existindo, hoje também resiste para que sua existência seja contada por sua própria voz.
Entre os filmes selecionados está Empeleitada, realizado em parceria com a Símio Filmes. Dirigido por Micaele Xukuru, Chico Ludemir e Sérgio Borges, o documentário reúne ainda Kleber Xukuru na direção de produção e roteiro, Diego Xukuru na fotografia e roteiro e Rhuam Xukuru no som direto e roteiro.
À primeira vista, o filme acompanha a construção de casas de taipa.
Mas seria um erro reduzi-lo à arquitetura.
Cada parede levantada revela uma tecnologia ancestral construída sem cimento industrial, mas sustentada por algo ainda mais resistente: o trabalho coletivo. O barro mistura-se à água, às mãos e ao tempo. As casas erguem-se porque ninguém constrói sozinho. Enquanto a taipa ganha forma, também se reforçam vínculos familiares, solidariedades e conhecimentos transmitidos entre gerações.
A câmera não documenta apenas uma técnica.
Documenta uma maneira de existir.
É nesse percurso que o filme também homenageia o Cacique Xikão Xukuru. Sua presença atravessa a narrativa como lembrança de que cultura e território nunca caminharam separados. Defender a terra sempre significou defender também os modos de viver, construir, celebrar e recordar.
Talvez seja essa uma das maiores diferenças entre o cinema indígena produzido dentro do território e aquele feito por olhares externos.
Aqui, o documentário não busca traduzir uma cultura para quem está de fora.
Ele nasce para preservar uma memória que pertence, antes de tudo, à própria comunidade.
Essa lógica também orienta o trabalho cotidiano do Ororubá Filmes.
Mais do que realizar produções, o coletivo forma realizadores.
Oficinas, cursos e encontros mostram aos jovens indígenas que uma boa história não depende de grandes orçamentos. Um telefone celular, uma câmera simples e um território cheio de memórias podem ser suficientes para iniciar uma filmografia inteira.
Esse processo ganha agora uma nova dimensão com a formação de 50 jovens cineastas indígenas por meio de uma parceria entre o Ministério dos Povos Indígenas, o Instituto Federal do Sertão Pernambucano e a Associação da Comunidade Indígena Xukuru do Ororubá. Roteiro, fotografia, edição, direção, produção e captação de som tornam-se ferramentas de continuidade cultural.
Forma-se, assim, uma geração que aprende simultaneamente duas linguagens: a do cinema e a da ancestralidade.
Enquanto uma ensina enquadramentos, a outra ensina pertencimento.
Os próximos projetos revelam que Gramado nunca foi entendido como destino final.
Entre eles está uma documentário-ficção dedicada à trajetória do Cacique Xikão Xukuru e à continuidade da luta conduzida pelo Cacique Marcos Xukuru. Também estão previstos novos documentários sobre espiritualidade, juventude, memória dos anciãos e saberes tradicionais, além da ampliação de parcerias com universidades, instituições de pesquisa e festivais nacionais e internacionais.
O objetivo não é apenas produzir mais filmes.
É ampliar o espaço onde as narrativas indígenas possam circular sem pedir autorização para existir.
No fim, talvez a maior conquista do povo Xukuru não seja ocupar um festival.
Seus filmes chegam a Gramado carregando algo muito mais antigo do que qualquer premiação: a memória de um povo que resistiu ao apagamento e que agora transforma essa resistência em imagem.
Durante muito tempo, o Brasil assistiu aos povos indígenas.
Agora, será convidado a enxergar o país através dos olhos deles.