Assista “Papoeirando” com o Mestre Kall nesta quarta (29), às 17h, pelas telas da TV Comunitária de Brasília
Referência da capoeira brasiliense, Mestre Kall relembra os tempos de rivalidade entre grupos, destaca a transformação da modalidade em instrumento de inclusão social e defende a valorização dos mestres e da tradição. Ele transformou experiência de combate em legado de educação e união em Brasília O Papoeirando é um programa produzido e apresentado por Israel Melo, o Boquinha.
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Brasília (DF) – A história da capoeira no Distrito Federal passa por personagens que ajudaram a construir sua identidade. Entre eles está Mestre Kall, nome pelo qual é conhecido o capoeirista José Carlos Pereira, uma das principais referências da modalidade em Brasília. Em entrevista ao programa Papoeirando, o mestre relembrou sua trajetória iniciada na década de 1970, falou sobre as transformações da capoeira ao longo dos anos e defendeu que a arte hoje cumpra um papel cada vez mais voltado para a educação, a inclusão social e a formação cidadã.
Segundo Mestre Kall, o primeiro contato com a capoeira aconteceu em 1975, ainda adolescente, quando assistia às tradicionais rodas realizadas em Taguatinga. Na época, a prática acontecia de forma espontânea, nas ruas, sem grupos organizados ou metodologia de ensino. “Era uma capoeira de rua. Entrava quem queria e saía quem podia. Foi ali que nasceu minha paixão pela capoeira”, recordou.
Formação ao lado de grandes mestres
Antes de se dedicar integralmente à capoeira, Kall praticou boxe e kung fu. Posteriormente passou a treinar sob orientação do Grão-Mestre Barto, uma das maiores referências da capoeira brasiliense, no grupo Pequeno Dragão. Ao longo da entrevista, também destacou a influência de nomes históricos como Mestre Adilson, Mestre Tabosa, Mestre Pombo de Ouro, Mestre Zulu e diversos outros pioneiros da capoeira no Distrito Federal.
Segundo ele, observar esses mestres em ação foi fundamental para desenvolver seu próprio estilo. “Nunca treinei diretamente com alguns deles, mas bastava vê-los jogar para aprender. Eles inspiraram toda uma geração de capoeiristas de Brasília”, afirmou.
Os anos de rivalidade
Mestre Kall relembrou que as décadas de 1980 e 1990 foram marcadas por intensas disputas entre grupos de capoeira. Na avaliação do mestre, muitos encontros terminavam em confrontos físicos, o que acabou criando uma imagem negativa da modalidade perante parte da sociedade.
Ele próprio admite ter participado desse período. “Naquela época muitos de nós queríamos provar quem era mais forte. Perdemos muito com isso. Hoje entendemos que a capoeira é muito maior do que a briga”, reconheceu. Segundo Kall, a experiência serviu como aprendizado para transformar a cultura da capoeira em Brasília.
Da rivalidade à união
Com o amadurecimento da modalidade, Mestre Kall afirma que Brasília passou a ser referência nacional justamente pelo espírito de cooperação entre mestres. Hoje, segundo ele, dezenas de lideranças atuam conjuntamente em ações sociais, eventos esportivos e campanhas de solidariedade.
Entre as iniciativas destacadas está a mobilização para arrecadar recursos destinados a mestres e familiares que enfrentam problemas de saúde. “Hoje conversamos, nos ajudamos e entendemos que somos uma família. A união fortaleceu a capoeira de Brasília”, destacou.
Roda da Torre completa quase três décadas
Um dos símbolos dessa transformação é a tradicional Roda da Torre, coordenada por Mestre Kall. Criada há quase 30 anos, a roda tornou-se um dos principais pontos de encontro da capoeira brasiliense e reúne praticantes de diferentes grupos, estilos e gerações.
Segundo ele, a principal regra sempre foi simples: respeito. “Quem não gosta de alguém não precisa jogar com essa pessoa. Mas todos precisam respeitar o espaço da roda. É isso que mantém o ambiente saudável”, explicou.
Capoeira como instrumento de educação
Ao longo da entrevista, Mestre Kall enfatizou que o papel do mestre vai muito além do ensino dos movimentos. Na avaliação dele, o professor de capoeira também atua como orientador, conselheiro e referência para crianças e adolescentes. “O mestre acaba sendo pai, tio, professor e até psicólogo. Muitos alunos contam para nós coisas que não conseguem dizer nem dentro de casa”, afirmou.
Ele também incentiva seus alunos a priorizarem os estudos. Segundo Kall, a formação acadêmica é essencial para que os jovens tenham oportunidades profissionais além do esporte. “A capoeira sempre estará aqui, mas o estudo abre portas para toda a vida”, ressaltou.
Reconhecimento internacional
A dedicação à capoeira levou Mestre Kall a diversos países. Ao longo da carreira, participou de eventos nos Estados Unidos, Canadá, Espanha e França, além de receber homenagens internacionais por sua contribuição ao desenvolvimento da modalidade. Entre elas, destacou uma homenagem recebida no estado do Texas, nos Estados Unidos, durante um encontro internacional de artes marciais.
Segundo ele, representar Brasília no exterior sempre foi motivo de orgulho. “A capoeira fala por nós em qualquer idioma. Ela abre portas e aproxima pessoas do mundo inteiro”, afirmou.
Liga de Capoeira busca fortalecer a modalidade
Atualmente, Mestre Kall preside a Liga de Capoeira de Brasília, entidade criada para promover integração entre grupos, organizar campeonatos e ampliar o reconhecimento institucional da modalidade.
Segundo ele, o objetivo é consolidar políticas públicas voltadas ao esporte, ampliar o apoio governamental e fortalecer eventos como a Copa Brasília de Capoeira. Na avaliação do mestre, o apoio recente de instituições públicas tem permitido a realização de campeonatos cada vez mais estruturados. “Precisamos aproveitar esse momento para fortalecer ainda mais a capoeira e criar oportunidades para todas as gerações”, afirmou.
Valorização dos mestres
Ao final da entrevista, Mestre Kall fez um apelo para que os praticantes valorizem aqueles que ajudaram a construir a história da capoeira brasileira. Segundo ele, muitos mestres deixam de ser convidados para eventos simplesmente porque já não possuem o mesmo vigor físico de décadas atrás. Para o capoeirista, a experiência e a memória desses profissionais são patrimônios da cultura brasileira. “O mestre talvez não jogue mais como antes, mas ele toca o berimbau, canta, conta histórias e transmite ensinamentos que livro nenhum consegue ensinar”, declarou.
Um legado construído pelo respeito
Depois de quase cinco décadas dedicadas à capoeira, Mestre Kall afirma que sua maior conquista não está nas viagens internacionais nem nos títulos conquistados, mas na transformação da modalidade em instrumento de educação e cidadania.
Ao encerrar a conversa, deixou uma mensagem às novas gerações de capoeiristas. “Valorizem seus mestres, respeitem a tradição, estudem e permaneçam unidos. Unidos somos mais fortes. É assim que a capoeira continuará crescendo”, concluiu.
Reconhecido como uma das lideranças mais influentes da capoeira do Distrito Federal, Mestre Kall simboliza uma geração que viveu os momentos mais intensos da modalidade e ajudou a transformá-la em uma poderosa ferramenta de formação humana, preservação da cultura afro-brasileira e promoção da cidadania.
Veja a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
