Alberto Salgado transforma raízes brasileiras em música autoral e defende valorização dos artistas independentes
Premiado compositor fala sobre criatividade, capoeira, desafios da cena musical em Brasília e relata como uma de suas canções ajudou a impedir um suicídio

Brasília (DF) – A música como instrumento de transformação humana, resistência cultural e construção de identidades marcou a participação do músico, cantor e compositor Alberto Salgado no programa Balaio da Renata – De Ori para Ori, da TV Comunitária de Brasília. Em uma conversa conduzida pela educadora e ativista dos direitos humanos Renata, o artista percorreu sua trajetória desde os primeiros contatos com a capoeira até o reconhecimento internacional de sua obra, refletindo sobre os desafios enfrentados pelos artistas independentes e o poder da arte de salvar vidas.
Premiado com o 28º Prêmio da Música Brasileira, em 2017, pelo álbum Cabaça D’Água, Alberto Salgado consolidou uma linguagem musical própria, marcada pela fusão entre capoeira, violão clássico, ritmos nordestinos e música contemporânea. Ao longo da carreira, lançou os álbuns Além do Quintal (2014), Cabaça D’Água (2017) e Tutorial de Ebó (2024), além de realizar turnês na América do Norte e Europa e estabelecer parcerias com nomes como Arnaldo Antunes, Chico César e Sérgio Britto.
Da capoeira nasceu a música
Durante a entrevista, Alberto contou que sua história musical começou ainda na juventude, dentro das rodas de capoeira. Foi ali que aprendeu a tocar pandeiro, atabaque e berimbau, além de dar os primeiros passos como compositor. Um acidente, no entanto, acabou mudando o rumo de sua carreira. Após quebrar a perna durante uma roda de capoeira, permaneceu vários meses imobilizado. O período de recuperação transformou-se em oportunidade para estudar cavaquinho e, posteriormente, violão.
“Foi justamente nesse tempo que comecei a me desenvolver como músico, compondo e experimentando novas formas de tocar”, relatou. Autodidata durante boa parte da formação, Alberto afirmou que a disciplina foi fundamental para construir uma identidade artística própria. Segundo ele, o estudo técnico abre caminho para que cada músico desenvolva posteriormente sua própria linguagem.
Técnica autoral conquista reconhecimento internacional
Um dos momentos da entrevista foi dedicado à explicação de uma técnica de violão criada pelo próprio artista. A inovação aparece na música “Oi”, composição originalmente gravada pela cantora Andréia dos Santos e posteriormente reinterpretada por Alberto em versão instrumental e vocal.
Segundo o compositor, a técnica combina elementos do coco, baião e xaxado, explorando recursos pouco convencionais no violão brasileiro. A originalidade chamou a atenção de estudantes da Berklee College of Music, nos Estados Unidos, considerada uma das principais instituições de ensino musical do mundo, onde a composição passou a ser estudada. Para Alberto, esse reconhecimento demonstra que a pesquisa artística realizada de forma independente pode ultrapassar fronteiras.
Brasília impõe desafios aos músicos autorais
Questionado sobre a realidade da produção cultural no Distrito Federal, Alberto Salgado avaliou que viver exclusivamente da música continua sendo um dos maiores desafios para os artistas locais. Segundo ele, o mercado brasiliense obriga músicos independentes a exercer diversas atividades simultaneamente.
Além de compor e realizar shows, muitos profissionais precisam atuar como professores, arranjadores, produtores musicais, intérpretes e até musicoterapeutas para garantir sustentabilidade financeira. “Para viver de música em Brasília é preciso trabalhar em várias frentes ao mesmo tempo”, afirmou.
Na avaliação do artista, a dimensão relativamente pequena do mercado cultural local também dificulta a consolidação de apresentações autorais. Ele observa que a frequência de apresentações em bares pode reduzir o público dos shows próprios, realidade diferente daquela encontrada em grandes centros como São Paulo.
Música que salvou uma vida
Entre todos os relatos apresentados durante a entrevista, um deles emocionou a apresentadora e sintetizou o impacto social da arte.Alberto contou que recebeu, por meio das redes sociais, uma mensagem de uma pessoa que afirmava estar decidida a tirar a própria vida.
Segundo o relato, uma de suas músicas integrou a última playlist que o rapaz pretendia ouvir antes de cometer suicídio. Ao escutar a canção, entretanto, decidiu desistir. “O que ele escreveu foi que aquela música havia salvado pelo menos aquele dia da vida dele. Isso, para mim, vale muito mais do que fama ou dinheiro”, afirmou emocionado. Para o compositor, esse episódio representa o verdadeiro significado do sucesso artístico.
Influências e novos talentos
Ao falar sobre sua formação musical, Alberto destacou influências de artistas como Toquinho, Paulinho Nogueira, Chico César, Chico Buarque e Carlos Careca, nomes que contribuíram para sua construção estética. Ao mesmo tempo, afirmou que hoje também procura incentivar novos músicos.
Segundo ele, identificar talentos e criar oportunidades faz parte da responsabilidade de quem já percorreu um caminho consolidado na música. O artista contou que acompanha o desenvolvimento de antigos alunos, alguns deles atualmente realizando turnês internacionais. “Quando percebo que alguém tem um talento especial, procuro incentivar, incluir em projetos e abrir espaços para que possa crescer”, explicou.

Samba feminista amplia diálogo com direitos humanos
A entrevista também apresentou uma composição inédita desenvolvida em parceria com a cantora e compositora Lidiana Fausto. O samba aborda temas ligados ao enfrentamento do machismo, do racismo e da violência contra as mulheres. Com o refrão “Não para machista, não. Não para racista”, a canção propõe uma reflexão sobre igualdade de gênero e respeito à diversidade.
Renata destacou o potencial educativo da obra e defendeu que iniciativas semelhantes possam chegar às escolas como instrumento de formação cidadã. “A cultura e a educação caminham juntas. A música ajuda a construir um novo pacto civilizatório baseado no respeito e na inclusão”, afirmou durante o programa.
Novos projetos
Ao final da entrevista, Alberto anunciou que prepara um novo álbum composto exclusivamente por músicas inéditas desenvolvidas em parceria com o compositor Leonardo Lichote. O trabalho será gravado em formato voz e violão, proposta que, segundo ele, representa um dos maiores desafios de sua carreira.
O artista também confirmou que pretende ampliar as apresentações ao lado de Lidiana Fausto e desenvolver novos projetos musicais voltados à valorização da canção autoral brasileira. Antes da despedida, a apresentadora ressaltou que futuras edições do programa deverão aprofundar temas como musicoterapia e os impactos da música na saúde física e emocional.
Enquanto isso, Alberto Salgado segue construindo uma trajetória em que técnica, pesquisa, sensibilidade e compromisso social caminham lado a lado. Uma carreira que nasceu na capoeira, atravessou palcos nacionais e internacionais e encontrou, na música autoral, não apenas uma profissão, mas uma forma de transformar vidas.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:

