Japão celebra 37 anos no rap e defende educação como caminho de transformação da população negra e periférica
Em entrevista ao programa Povo Negro, da TV Comunitária de Brasília, artista do Viela 17 relembra as origens do hip-hop no Distrito Federal, fala sobre Ceilândia, racismo, formação das novas gerações e afirma: “Estudar nunca é tarde”. Ele anunciou uma apresentação especial no Sesc de Ceilândia, marcada para o dia 29 de agosto, em comemoração aos seus 37 anos no rap nacional.
Brasília (DF) – Uma trajetória que atravessa quase quatro décadas da história do hip-hop brasileiro, das primeiras rodas de break em Ceilândia aos grandes palcos, passando pela época das fitas cassete, discos de vinil e divulgação de músicas de mão em mão. O rapper Japão, do Viela 17, completou 37 anos de carreira em 2026 e transformou sua experiência artística em uma reflexão sobre cultura, educação, desigualdade social e os desafios enfrentados pela população negra e periférica brasileira.
O artista foi entrevistado pela empreendedora criativa e diretora artística Valéria Assunção, no programa Povo Negro, da TV Comunitária de Brasília. Durante a conversa, Japão recuperou parte da memória da construção do hip-hop no Distrito Federal e defendeu a preservação dessa história como referência para as novas gerações.
Do break ao rap
Embora contabilize sua carreira no rap a partir de 1989, a relação de Japão com a cultura hip-hop começou ainda antes. Em 1982, ele já dançava break em apresentações realizadas na escola.
Sem internet, redes sociais ou plataformas digitais, o acesso às novidades musicais dependia de discos, programas de televisão e da troca de informações entre jovens. Japão contou que assistia a videoclipes, memorizava os passos dos dançarinos e passava a semana ensaiando.
O incentivo familiar também foi decisivo. Segundo ele, sua mãe comprava discos de artistas e coletâneas que permitiam o contato com a música internacional. A rua completou essa formação. Ainda jovem, Japão vendia chocolates na Rodoviária do Plano Piloto e utilizava os espaços públicos para ensaiar e interagir com outras pessoas.
“Eu comecei no hip-hop, eu comecei em 1982 dançando break”, recordou.
Ceilândia como território cultural
Criado em Ceilândia Norte, Japão guarda lembranças de uma cidade em processo de expansão, quando diversos setores hoje consolidados ainda não existiam. Na memória do rapper, a Ceilândia de sua infância era marcada pelas ruas de lazer, pelas turmas culturais e pelos encontros comunitários. Ainda criança, chegou a ser escolhido como mascote de uma dessas turmas.
Filho de uma baiana de Santa Maria da Vitória e de um pernambucano que veio para Brasília trabalhar, Japão cresceu em uma família marcada pela diversidade cultural. A mãe trabalhava como diarista e o pai como cozinheiro. Entre os irmãos, lembra, conviviam diferentes referências musicais, do samba ao rock.
Essa pluralidade, segundo ele, ajudou a formar sua identidade artística e sua percepção sobre o papel da cultura na construção das comunidades periféricas do Distrito Federal.
Quando fazer rap era uma operação quase artesanal
Japão começou profissionalmente no rap em 1989. Em 1992, conheceu GOG, com quem trabalhou até 2000.
O período retratado pelo artista revela uma realidade muito diferente da atual. Sem internet e com pouco espaço nas rádios comerciais, fazer uma música circular por outros estados dependia de uma verdadeira rede de colaboração.
Fitas cassete e discos eram levados pessoalmente às emissoras. Para contratar um show, artistas e produtores recorriam a caixas postais, telefonemas e contratos enviados fisicamente, muitas vezes registrados em cartório. “Foi feito um trabalho mesmo de guerrilheiros e guerrilheiras”, definiu Japão ao recordar a mobilização necessária para levar o rap brasiliense a outros estados.
A dificuldade também estava dentro dos estúdios. Japão recordou a importância do produtor DJ Rafa Santoro, que ajudou artistas do rap do Distrito Federal a terem acesso à produção musical profissional. Muitas gravações eram realizadas durante a madrugada. Sem transporte disponível ao final das sessões, os artistas esperavam o amanhecer para retornar às cidades onde moravam.
Setor Comercial Sul ajudou a conectar o rap do DF
Um dos aspectos históricos destacados na entrevista foi o papel do Setor Comercial Sul na formação das redes do hip-hop brasiliense. Japão contou que diferentes artistas trabalhavam na região e se encontravam durante o horário de almoço. GOG, Marcão, Barão, integrantes de grupos e jovens que exerciam funções como office boy acabavam reunidos em espaços como fliperamas.
Ali circulavam informações sobre bailes, músicas, grupos e apresentações.
As equipes de som e os camelôs também tiveram, segundo Japão, participação fundamental na divulgação do rap, sobretudo porque as rádios comerciais ofereciam pouco espaço ao gênero. Quando uma música finalmente tocava no rádio, contou, havia motivo para comemoração.
A expansão veio rapidamente. Após o primeiro disco com GOG, em 1994, o trabalho começou a circular por vários estados. Em 1996, o grupo mudou-se para São Paulo e gravou “Prepare-se”, alcançando posteriormente espaço na MTV e concorrendo em premiações de videoclipe.
“Precisamos emendar essa corrente”
Ao analisar a atual geração do hip-hop, Japão evita a ideia de que os novos artistas tenham encontrado um caminho fácil. Pelo contrário, reconhece o esforço dos jovens que atualmente constroem suas carreiras.
Sua preocupação está na preservação da memória. Para ele, houve uma ruptura na transmissão da história entre as gerações do movimento, principalmente a partir do final dos anos 2000. O desafio agora seria aproximar os pioneiros dos novos artistas. “Nós precisamos emendar para que essa juventude conheça essa origem”, afirmou.
Segundo Japão, responsabilizar os jovens pelo desconhecimento do passado seria simplificar o problema. O ritmo acelerado da sociedade e a pressão por resultados imediatos também dificultam o contato das novas gerações com a memória cultural de quem abriu caminhos anteriormente.
Educação como instrumento de emancipação
Um dos momentos centrais da entrevista ocorreu quando o rapper falou sobre sua relação com os estudos. Japão contou que abandonou a escola ainda no ensino fundamental quando iniciou a carreira musical. Depois de aproximadamente 15 anos trabalhando com rap, decidiu retornar à sala de aula.
Concluiu o ensino fundamental e médio, cursou Gestão Jurídica e atualmente estuda Direito. A experiência mudou sua percepção sobre a relação entre cultura e conhecimento. “
Eu acho que a educação é a única saída para o povo preto, pobre e periférico. Não tenho dúvida alguma”, afirmou.
Japão deverá concluir a graduação próximo dos 60 anos. Para ele, a idade não deve ser utilizada como obstáculo para quem deseja estudar. “Estudar nunca é tarde”, declarou.
O rapper também criticou discursos difundidos nas redes sociais que desvalorizam a formação universitária. Na sua avaliação, o acesso ao conhecimento possui significado ainda mais profundo para populações historicamente afastadas das universidades. “Para a pessoa periférica que veio lá de baixo, a faculdade é tudo. E ela é o começo de um começo que às vezes foi muito tempo negado para a gente”, afirmou durante a conversa.
Cultura também é construção de futuro
Aos 37 anos de carreira, Japão afirma estar preocupado não apenas com a própria permanência nos palcos, mas também com quem ocupará esses espaços no futuro. A reflexão aparece em uma pergunta que o artista diz fazer à própria geração: quem estará preparado para o fechamento das cortinas?
Para ele, artistas que conquistaram espaços precisam contribuir para que outras pessoas possam ocupá-los. Essa transmissão é fundamental para impedir que a história construída pelo movimento seja interrompida. Quando o rap começou a ganhar força, recordou, havia quem previsse que o movimento desapareceria rapidamente. Outros gêneros e tendências surgiram e se transformaram ao longo das décadas, enquanto o rap permaneceu.
Para Japão, essa longevidade está relacionada à consistência política e cultural construída pelo movimento e à sua capacidade de dialogar com a realidade das periferias.
Aos jovens, Japão pede sonho, consciência e estudo
No encerramento do programa, Valéria Assunção pediu ao rapper uma mensagem para os jovens que pretendem ingressar na música e na cultura hip-hop. Japão respondeu com uma defesa do sonho acompanhado de preparação e consciência.
“Pode sonhar. Sonhar não paga nada, mas sonhe sempre com o pé no chão”, disse. E voltou a colocar a educação no centro de sua mensagem. “Acredite, principalmente, na educação. Acredite que, se está bom, pode melhorar. O ponto de partida é sempre o hoje”, afirmou.
Para o rapper, jovens negros e periféricos não carregam apenas seus projetos individuais, mas também podem abrir oportunidades para suas famílias e comunidades. “Você também é responsável pelo futuro do nosso povo”, declarou.
37 anos de rap celebrados em Ceilândia
Além de revisitar sua trajetória, Japão anunciou durante a entrevista uma apresentação especial no Sesc de Ceilândia, marcada para o dia 29, em comemoração aos seus 37 anos no rap nacional. Segundo o artista, o evento reunirá diferentes nomes da música e terá participação de homens e mulheres no palco, em uma celebração da cultura produzida nas periferias.
Japão também revelou estar ampliando sua atuação para o cinema. Ele contou ter participado do longa-metragem “Batalha”, interpretando um ex-presidiário que busca reconstruir a vida por meio do empreendedorismo, e de outra produção brasiliense, “Rima”, na qual interpreta um cobrador de ônibus que escreve rap, mas não tem coragem de apresentar suas composições.
Depois de 37 anos de estrada, Japão continua fazendo do hip-hop um instrumento de expressão e memória. Sua trajetória, iniciada entre as ruas de Ceilândia, bailes, rodas de break, discos e fitas cassete, atravessa gerações e chega agora também às salas de aula e ao cinema. A mensagem que deixa aos mais jovens sintetiza boa parte desse percurso: sonhar é necessário, mas conhecimento, memória e educação são instrumentos fundamentais para transformar o sonho em futuro.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
