Joe Valle retorna à disputa pela Câmara Legislativa com agenda voltada à sustentabilidade, alimentação saudável e inovação
Ex-deputado distrital e ex-presidente da Câmara Legislativa defende fortalecimento da agricultura orgânica, políticas de segurança alimentar, ciência e tecnologia, energias renováveis e enfrentamento às mudanças climáticas
Brasília (DF) – Depois de um período afastado da política eleitoral, o engenheiro florestal e produtor orgânico Joe Valle voltou à disputa por uma cadeira na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Candidato a deputado distrital nas eleições de 2026, ele defende uma agenda baseada em sustentabilidade, alimentação saudável, agricultura familiar, ciência e tecnologia, segurança alimentar e enfrentamento às mudanças climáticas.
Em entrevista ao programa Brasília Notícias, da TV Comunitária de Brasília, no dia 20 de agosto, Valle conversou com o jornalista Paulo Miranda sobre sua trajetória, as realizações dos dois mandatos como deputado distrital, sua experiência no Executivo e as propostas que pretende levar à CLDF. Joe Valle foi deputado distrital por dois mandatos e presidiu a Câmara Legislativa entre 2017 e 2018.
Retorno à política
Joe Valle explicou que decidiu se afastar da política para dedicar mais tempo à família e à Fazenda Malunga, referência na produção de alimentos orgânicos no Distrito Federal. Segundo ele, a reorganização familiar, incluindo a participação das filhas na administração da propriedade, criou as condições para que voltasse à atividade política.
“Pai, agora pode ir que a gente toma conta aqui”, contou Valle, ao reproduzir o incentivo recebido das filhas. Para o candidato, a política, quando exercida como vocação, exige dedicação integral. A decisão de retornar, segundo ele, também está relacionada à preocupação com os rumos do Distrito Federal e à intenção de retomar projetos iniciados durante seus mandatos.
Produção orgânica como política de saúde
Produtor orgânico, Valle dedicou parte significativa da entrevista à relação entre agricultura, alimentação e saúde. Ele defendeu que as políticas públicas avancem da lógica centrada no tratamento de doenças para a promoção da saúde, começando pela qualidade dos alimentos e do ambiente.
Atualmente licenciado em razão da campanha, Valle afirmou presidir uma câmara temática de agricultura orgânica vinculada ao governo federal. Segundo ele, um dos desafios é estabelecer normas de segurança para a produção sem criar uma regulamentação excessiva que exclua agricultores familiares.
Na avaliação do candidato, agricultura e medicina estão cada vez mais próximas diante dos avanços científicos sobre a importância do solo, dos micronutrientes e dos microbiomas para a saúde das plantas e dos seres humanos. “Eu digo que a medicina e a agronomia estão andando juntas e se cruzando na mesa”, afirmou.
PAA distrital para fortalecer agricultura familiar
Entre as propostas apresentadas está a criação de um Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) distrital, destinado a facilitar a compra, pelo poder público, da produção dos agricultores do Distrito Federal. Valle argumenta que a política poderia criar mercado para pequenos produtores e, simultaneamente, ampliar a oferta de alimentos de qualidade nas escolas e em outros equipamentos públicos. Segundo ele, Brasília consolidou um ambiente importante de produção orgânica, com agricultores certificados e participação expressiva da agricultura familiar. A criação de um programa distrital, afirmou, poderia fortalecer essa cadeia produtiva.
Alimentação saudável nas escolas
Valle também destacou a legislação sobre alimentação saudável nas escolas, aprovada durante sua passagem pela CLDF. Ele recordou que, quando a proposta foi elaborada, era comum que as cantinas escolares oferecessem principalmente frituras, refrigerantes e outras bebidas açucaradas. Segundo Valle, a mudança deveria ser compreendida não apenas como uma proibição, mas como parte de um processo de educação alimentar.
O trabalho incluiu, segundo ele, a elaboração de uma cartilha com receitas saudáveis que poderiam ser comercializadas pelas cantinas. “É um processo educativo, e a educação é de longo prazo”, afirmou. Agora, o candidato defende ampliar essa concepção. Uma das ideias apresentadas durante a entrevista foi avançar da “alimentação escolar” para a “alimentação do escolar”, pensando na segurança alimentar de crianças e adolescentes também fora dos dias letivos.
Para Valle, alimentação saudável deve ser tratada como instrumento de prevenção de doenças e redução futura dos custos do sistema de saúde.
Resíduos sólidos e Banco de Alimentos
Ao avaliar sua produção legislativa, Joe Valle destacou leis relacionadas ao tratamento de resíduos e à segurança alimentar. Uma delas é a legislação dos grandes geradores de resíduos. O princípio, explicou, é responsabilizar de maneira diferenciada estabelecimentos que produzem grandes volumes de lixo, em vez de transferir integralmente esse custo para o poder público.
Segundo Valle, a medida também ajudou a estruturar um modelo econômico relacionado à coleta e às cooperativas de catadores. O candidato citou ainda iniciativas sobre logística reversa de medicamentos e o Banco de Alimentos, destinado a aproveitar alimentos que anteriormente seriam desperdiçados e encaminhá-los a instituições e pessoas em situação de vulnerabilidade.
Ciência, tecnologia e Campus Party
Outro eixo defendido pelo candidato é o investimento público em ciência, tecnologia e inovação. “Uma cidade que não investe em ciência, tecnologia e inovação é uma cidade que não tem nenhum futuro”, afirmou. Valle destacou a presença da Universidade de Brasília, de centros de pesquisa da Embrapa e de outras instituições científicas como ativos estratégicos que deveriam estar mais integrados ao desenvolvimento econômico e social do Distrito Federal.
Ele também relembrou sua participação nas articulações para trazer a Campus Party para Brasília. Para Valle, eventos científicos e tecnológicos podem despertar vocações entre estudantes e aproximar jovens das universidades, da pesquisa e da inovação. O candidato relacionou essa experiência ao trabalho que desenvolveu anteriormente com a Olimpíada Brasileira de Matemática e a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia.
Escola como “epicentro da mudança”
Na educação, Valle defendeu que a escola seja utilizada como espaço articulador de diferentes políticas públicas. Entre as experiências citadas está o projeto “Uma horta em cada escola e uma escola em cada horta”, que utiliza a produção de alimentos como ferramenta pedagógica e de educação ambiental.
Valle afirmou que continua desenvolvendo a iniciativa por meio da Fazenda Malunga em cerca de dez escolas. Também relatou experiências envolvendo captação de água da chuva e participação da comunidade escolar. “A escola precisa ser esse grande epicentro da mudança”, afirmou.
Experiência na área social e políticas para mulheres
A entrevista também recuperou a passagem de Joe Valle pelo Executivo distrital, quando comandou uma ampla secretaria responsável por áreas como trabalho, desenvolvimento social, políticas para mulheres, igualdade racial e direitos humanos.
Valle destacou especialmente sua experiência com as políticas de assistência social e afirmou ter compreendido, durante o período, a importância de estruturas como os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) e os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS). Na área das mulheres, recordou a estruturação de ações de gestão e enfrentamento à violência. Segundo ele, a concepção adotada era utilizar a estrutura administrativa como “uma ferramenta de melhoria da qualidade de vida das pessoas”.
Mudanças climáticas e transição energética
A crise climática ocupa posição central nas propostas apresentadas pelo candidato. Valle lembrou sua atuação na construção da Política de Mudança Climática do Distrito Federal e criticou a falta de continuidade de medidas concretas após a aprovação da legislação. Entre as propostas que pretende retomar estão a expansão da energia solar e o estímulo aos biocombustíveis.
Valle defendeu a transformação da matriz energética do DF e mencionou a possibilidade de incentivar etanol e biodiesel, reduzindo a dependência dos combustíveis fósseis.
Como produtor rural, ele também chamou atenção para os efeitos das temperaturas elevadas sobre a agricultura. Na sua avaliação, o impacto das mudanças climáticas sobre a produção de alimentos deve ocupar lugar central no debate político. “As mudanças climáticas podem ser o nosso grande Armagedom. Não é porque vai pegar fogo tudo, é porque vai parar de produzir”, alertou.
Gestão e construção coletiva das leis
Joe Valle também apresentou como marca de seus antigos mandatos a adoção de mecanismos de planejamento e avaliação do trabalho parlamentar. Segundo ele, projetos legislativos eram construídos por meio de audiências públicas, workshops, grupos de trabalho e participação de especialistas antes da tramitação formal nas comissões da Câmara. Valle afirmou que, quando presidiu a CLDF, buscou adotar indicadores de gestão, modernizar procedimentos administrativos e realizar concurso público. Para ele, concursos precisam ocorrer periodicamente para evitar grandes intervalos entre gerações de servidores.
“Política orgânica”
Na reta final da entrevista, Joe Valle sintetizou sua candidatura por meio da expressão “Naturalmente Joe Valle”, relacionando sua trajetória na produção orgânica à defesa de uma política baseada em sustentabilidade, ética, diálogo e cooperação. O candidato afirmou acreditar na construção de uma sociedade “colaborativa em rede” e defendeu que pessoas com experiência e disposição para o serviço público voltem a ocupar os espaços políticos.
A tentativa de retornar à Câmara Legislativa, portanto, recupera bandeiras que marcaram os mandatos anteriores de Valle, mas procura atualizá-las diante de desafios que ganharam ainda mais peso nos últimos anos. Mudanças climáticas, transição energética, segurança alimentar, agricultura orgânica, ciência, inovação e prevenção em saúde aparecem interligadas em sua proposta de desenvolvimento para o Distrito Federal.
Na definição utilizada pelo próprio candidato ao final do programa, o objetivo é fazer uma “política orgânica” — expressão que transporta para a atividade pública os princípios de sustentabilidade que marcaram sua trajetória como produtor rural.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
