Flash mob leva literatura às ruas de Ceilândia e transforma clássicos em espetáculo popular
Grupo formado por cerca de 30 artistas prepara intervenção na Feira da Ceilândia durante a 12ª Mostra de Literatura e Artes Integradas, reunindo Shakespeare, Patativa do Assaré e autores contemporâneos em homenagem à identidade nordestina
Brasília — Literatura fora das estantes, poesia no meio da feira e personagens que surgem inesperadamente entre comerciantes, trabalhadores e consumidores. É com essa proposta que um grupo de cerca de 30 artistas prepara um flash mob literário para ocupar a Feira da Ceilândia e aproximar clássicos da literatura, autores contemporâneos e cultura popular do cotidiano da população.
A intervenção integra a programação da 12ª Mostra de Literatura e Artes Integradas e será realizada no sábado, 29 de agosto, a partir das 11 horas, na Feira da Ceilândia. A proposta foi apresentada no programa Letras & Livros, da TV Comunitária de Brasília, conduzido pelo escritor Pedro Batista, que recebeu Kell Maya, Hanna Máira e Karline Rocha, integrantes do grupo responsável pela performance.
A ação pretende utilizar teatro, leitura dramática, literatura, expressão corporal e elementos da cultura nordestina para provocar uma experiência diferente no público. Em vez de esperar que as pessoas procurem um teatro ou uma biblioteca, os artistas levarão a literatura para onde a população já está. A ideia é surpreender quem estiver circulando pela feira e transformar, por alguns minutos, um dos espaços mais populares de Ceilândia em palco.
Cerca de 30 artistas ocupam a feira
Segundo Kell Maya, responsável pela direção do trabalho, a proposta surgiu a partir de um convite para participar do encerramento da Mostra de Literatura. Em aproximadamente três semanas, ela reuniu artistas com diferentes experiências para construir a intervenção. “Somos 30”, contou durante a entrevista.
O ponto de partida da criação foi a história do nordestino que chega à cidade grande. A performance procura recuperar esse deslocamento, a formação de Ceilândia e a presença de diferentes identidades culturais na cidade.
Vamos fazer uma chegada do nordestino na cidade grande”, explicou Kell ao descrever a concepção inicial do espetáculo. A proposta, segundo ela, trabalha o olhar de quem deixa o Nordeste, chega a Brasília e traz consigo sotaques, gestos, memórias e referências culturais.
A diretora afirma que a intenção é fazer com que o próprio morador se reconheça na apresentação. “A gente vai mostrar para Ceilândia […] as representatividades, a força e a identidade de um povo forte e cheio de fé”, afirmou.
De Shakespeare a Patativa do Assaré
A seleção dos textos busca romper a ideia de que literatura clássica pertence apenas aos ambientes acadêmicos ou a determinados segmentos sociais. Entre as referências utilizadas está William Shakespeare. Para Kell, a obra do dramaturgo inglês pode dialogar com qualquer território porque aborda conflitos, sentimentos e questões universais da experiência humana.
“Shakespeare fala de humanidades”, resumiu. A proposta é justamente colocar o texto clássico em contato com a identidade cultural encontrada nas ruas de Ceilândia, inclusive com formas de falar associadas às diferentes regiões do Nordeste. Ao lado dos clássicos aparecem autores populares e contemporâneos. Um dos nomes destacados durante a entrevista foi Patativa do Assaré, poeta cearense cuja produção está profundamente ligada à cultura sertaneja e à linguagem popular.
“Está na hora da gente trazer à tona aquilo que está esquecido”, afirmou Kell ao defender a recuperação de referências literárias e culturais que, segundo ela, precisam chegar às novas gerações. Autores menos conhecidos também terão espaço. A ideia é permitir que diferentes vozes convivam dentro da mesma intervenção, colocando lado a lado literatura consagrada, produção contemporânea e manifestações populares.
Cada participante mergulhou em um texto
Hanna Máira explicou que os integrantes receberam diferentes textos e passaram por um processo de identificação com as obras antes da definição das apresentações. Cada artista ficou responsável por trabalhar um poema ou fragmento literário, aprofundando leitura, interpretação e construção cênica. “Temos estudado muito essa questão da leitura, da atenção com as informações, com a escrita”, relatou.
Os ensaios também funcionam como processo de formação. A preparação envolve leitura dramática, expressão corporal, voz, interpretação, figurino e estudo das características culturais representadas.Para Kell, a leitura dramática não depende somente da voz. Ela mobiliza “corpo, alma e mente” do artista. Essa preocupação aparece inclusive na caracterização dos participantes. Figurinos, acessórios, gestos e formas de falar são trabalhados para reforçar as referências culturais presentes na proposta.
Arte para despertar o interesse pela leitura
Um dos objetivos do projeto é estimular uma aproximação maior entre público e literatura, especialmente em um período marcado pelo consumo acelerado de conteúdos digitais. Karline Rocha contou que a experiência do grupo já começou a produzir esse efeito entre os próprios integrantes. Segundo ela, participantes passaram a procurar obras e autores depois do início dos ensaios.
“Começaram a ler e a buscar Shakespeare, a buscar Machado de Assis”, relatou. O grupo reúne crianças, jovens, adultos e idosos, característica que amplia o intercâmbio de experiências. Karline destacou que mães que acompanham os filhos também começaram a participar das leituras e discussões.
Para ela, o processo recupera práticas culturais que perderam espaço no cotidiano de muitas famílias, como cantigas e brincadeiras de roda, além de demonstrar que a literatura clássica também pode pertencer aos espaços populares. A imagem de crianças declamando Shakespeare no meio da Feira da Ceilândia sintetiza essa intenção. “Isso é possível, sim. Isso é para mim, sim”, afirmou Karline ao explicar a mensagem que espera despertar no público.
Espaço público vira palco
Outra característica do flash mob é a ausência da separação tradicional entre artista e espectador. Não haverá plateia previamente organizada. O público será formado por quem estiver comprando, vendendo, trabalhando ou simplesmente passando pela Feira da Ceilândia no momento da intervenção. “Quem vai assistir? Quem quiser. Quem está ali para nos assistir? Quem quiser”, explicou Kell.
Para a diretora, ocupar um ambiente aberto amplia a possibilidade de democratização da arte porque elimina algumas das barreiras existentes nos espaços culturais tradicionais. A intenção é fazer com que moradores se reconheçam nas histórias representadas. “Eu saí lá do Nordeste e estou chegando aqui. Eu estou me vendo nesse espetáculo”, exemplificou Kell ao descrever a reação que espera provocar. Para ela, a palavra central da experiência é reconhecimento.
Ceilândia como território de identidade
A escolha da Feira da Ceilândia não é apenas cenário para a apresentação. O espaço dialoga diretamente com o conteúdo da intervenção. A presença nordestina faz parte da formação histórica e cultural de Ceilândia e está expressa na culinária, no comércio, na música, nas festas, nas formas de falar e nas histórias familiares de milhares de moradores. É justamente essa memória que o grupo pretende mobilizar ao misturar referências universais da literatura com a experiência de quem migrou e ajudou a construir a cidade.Nesse sentido, o flash mob transforma a literatura em instrumento de reconhecimento da própria história.
Projeto deve chegar a outros espaços de Brasília
A apresentação na Feira da Ceilândia será a segunda experiência do grupo. A primeira intervenção foi inspirada na obra de Michael Jackson e acabou aproximando novos integrantes do projeto. Agora, os artistas pretendem ampliar as performances para diferentes regiões e espaços públicos do Distrito Federal. Kell revelou durante a entrevista que existem propostas para apresentações em shoppings, restaurantes, parques, praças e outras feiras, incluindo a Feira do Guará. “Só está começando”, afirmou a diretora.
Literatura no meio do povo
A apresentação do dia 29 pretende demonstrar que um poema não precisa ficar restrito às páginas de um livro e que Shakespeare, Patativa do Assaré e escritores contemporâneos podem dividir o mesmo palco — inclusive quando esse palco é uma feira popular. Para os integrantes do projeto, levar literatura para a rua significa também devolver à palavra sua capacidade de provocar encontros. Ao ocupar a Feira da Ceilândia, o flash mob pretende interromper momentaneamente a rotina e convidar quem estiver passando a ouvir, observar e se reconhecer nas histórias apresentadas.
Entre barracas, corredores, vendedores e consumidores, a literatura deixa de esperar pelo leitor. Desta vez, ela vai ao encontro dele.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
