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Bets ampliam vulnerabilidade financeira de famílias de baixa renda

Bets ampliam vulnerabilidade financeira de famílias de baixa renda

Estudo mostra que apostas retiraram R$ 62,5 bilhões das famílias em 2025; bloqueio de beneficiários de programas sociais coincidiu com queda nas transferências às plataformas

Publicado: 18 Setembro, 2026 – 16h58 | Última modificação: 18 Setembro, 2026 – 17h09

Escrito por: Redação CUT BRASIL

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As apostas on-line retiraram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras em 2025, segundo o 3º Update do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros. O estudo foi elaborado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (Cicef).

O valor representa recursos que deixaram de circular no orçamento doméstico e poderiam ter sido destinados ao consumo, ao pagamento de dívidas ou a despesas essenciais. O levantamento utiliza dados do Banco Central, das Estatísticas de Pagamentos por Atividade Econômica (Epae) e análises próprias.

Bilhões saem do orçamento das famílias

O estudo considera como saída líquida a diferença entre o dinheiro depositado pelos apostadores e o valor devolvido pelas plataformas em prêmios. Entre outubro de 2024 e março de 2026, essa perda foi estimada em R$ 4,7 bilhões por mês, em média.

Em 2025, os R$ 62,5 bilhões retirados das famílias corresponderam a cerca de 0,68% da renda disponível no país. Segundo o boletim, esse dinheiro poderia ter sido usado na compra de bens e serviços ou no pagamento de compromissos financeiros.

O impacto tende a ser maior entre famílias com menor margem financeira. Quando grande parte da renda já está comprometida com alimentação, moradia, transporte e outras despesas básicas, perdas sucessivas em apostas reduzem ainda mais o dinheiro disponível.

Bloqueio de beneficiários reduz transferências

O governo federal adotou uma medida específica para impedir que recursos de programas sociais fossem utilizados em apostas. O Ministério da Fazenda bloqueou 2,8 milhões de beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) que mantinham cadastro em bets.

O número corresponde a 10,4% dos 27 milhões de beneficiários dos dois programas e a 11,2% dos 25 milhões de brasileiros que apostaram pelo menos uma vez em 2025.

Todos os beneficiários do Bolsa Família e do BPC passaram a ser impedidos de se cadastrar nas plataformas autorizadas. As empresas também precisam realizar verificações periódicas para identificar usuários que passaram a receber os benefícios.

Após a adoção da restrição, o volume mensal de transferências para as bets caiu de aproximadamente R$ 38,5 bilhões para R$ 29,5 bilhões em maio de 2026. A redução foi de cerca de R$ 9 bilhões, ou 23,4%.

O relatório aponta que a desaceleração das transações coincide com a restrição e indica a participação relevante das famílias de menor renda no mercado de apostas. O estudo, porém, não permite atribuir toda a redução exclusivamente ao bloqueio dos beneficiários.

Perdas podem virar novas dívidas

O impacto das apostas sobre o orçamento pode se agravar quando o dinheiro perdido é compensado por empréstimos ou outras formas de crédito. Uma família que já utiliza quase toda a renda para despesas essenciais tem pouca margem para absorver novas perdas.

Quando o crédito é usado para recompor o dinheiro perdido, a dívida passa a comprometer parte da renda dos meses seguintes. Assim, as apostas podem contribuir para um ciclo de perdas, crédito e endividamento, com efeitos que atingem todo o orçamento doméstico.

Casos de dívidas elevadas foram relatados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante participação no Podcast Desce a Letra. Na entrevista, Lula afirmou ser, pessoalmente, contrário às bets e relatou situações de pessoas que acumularam valores expressivos em dívidas relacionadas às apostas.

Entre os casos citados pelo presidente estão uma pessoa com R$ 2,2 milhões em dívidas e uma mulher de 27 anos que, segundo o relato, acumulou R$ 730 mil. Lula também afirmou que sua disposição pessoal seria acabar com as bets, mas ponderou que precisa considerar a posição da sociedade sobre o tema.

Governo discute novas restrições

A discussão sobre os efeitos das apostas ocorre enquanto o governo federal avalia novas medidas para restringir modalidades de jogos on-line, incluindo os chamados cassinos virtuais.

A proposta de uma Medida Provisória (MP) ainda depende da conclusão das discussões no governo e de eventual envio ao Congresso Nacional. Por isso, eventuais prazos para novas restrições devem ser tratados como possibilidades até que a medida seja formalmente apresentada.

Para a classe trabalhadora, o debate sobre as bets envolve mais do que o comportamento individual dos apostadores. Os dados colocam em discussão os efeitos das apostas sobre a renda, o endividamento e a proteção social. Em famílias com orçamento restrito, preservar recursos para alimentação, moradia, transporte e outras necessidades básicas também depende de políticas públicas capazes de reduzir a vulnerabilidade financeira e proteger a renda

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