R.C. Ballerini transforma eleições de 2026 em ponto de partida para futuro distópico do Brasil
Em entrevista ao programa Letras e Livros, da TV Comunitária de Brasília, escritor apresentou “A Distopia”, obra que projeta o país até 2042 e discute democracia, crise ambiental, poder das corporações e participação política
O músico, escritor e radialista R.C. Ballerini apresentou, em entrevista à TV Comunitária de Brasília, seu livro A Distopia, ficção política que parte das eleições brasileiras de 2026 para imaginar os acontecimentos que conduziriam o país e o mundo até 2042. A conversa com o jornalista Pedro Cesar Batista foi exibida na quinta-feira (1º), no programa Letras e Livros.
A narrativa utiliza um recurso de ficção científica: o livro teria sido escrito em 2042 por um integrante da resistência e enviado ao passado por meio de um dispositivo capaz de transportar pequenos objetos. Dessa forma, o narrador procura advertir os brasileiros de 2026 sobre acontecimentos que ainda estariam por vir.
Ballerini explicou que a primeira versão foi escrita em 2021, durante a pandemia de Covid-19, inicialmente relacionada ao contexto das eleições de 2022. Como não conseguiu publicá-la naquele momento, decidiu reescrever a obra, modificar personagens e situações e adaptar a narrativa ao cenário de 2026.
Na ficção, crises políticas, ambientais e sociais levam à formação de um grande império, enquanto grupos de resistência se organizam em diferentes regiões do planeta. Chiapas, no México; Rojava, no Curdistão Sírio; China e Amazônia aparecem como territórios de resistência. O autor também incorpora à narrativa referências ao povo zulu.
Um dos conceitos explorados é o da democracia direta. Ballerini descreve estruturas formadas por conselhos organizados em diferentes níveis, começando pelas comunidades locais e avançando para instâncias mais amplas quando as decisões ultrapassam os limites dos bairros. Segundo o escritor, a construção literária recebeu influências de experiências políticas e sociais internacionais.
A questão ambiental ocupa espaço central. No futuro imaginado pelo autor, a maior parte do planeta sofre as consequências de um profundo colapso ambiental e social, enquanto os territórios da resistência procuram manter uma relação mais próxima com a natureza e preservar ecossistemas.
No campo literário, Ballerini reconheceu influências de Glauber Rocha, especialmente na concepção da arte política e na construção deliberadamente marcada por campos antagônicos. Durante a entrevista, também identificou aproximações de sua obra com Admirável Mundo Novo e A Ilha, de Aldous Huxley.
Apesar do cenário sombrio, o escritor afirma que a obra procura deixar uma perspectiva de esperança. O desfecho apresenta um confronto entre a resistência e o império e sugere ao leitor a possibilidade de transformação daquele futuro. Para Ballerini, a distopia funciona justamente como um alerta sobre escolhas feitas no presente.
O projeto prevê ampla circulação gratuita. Segundo o autor, foram produzidos 10 mil exemplares do livro, além de outros 10 mil exemplares de uma versão condensada, com cerca de 20 páginas e formato semelhante ao cordel. Parte da primeira tiragem foi distribuída durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Na parte final da entrevista, Ballerini também abordou a influência das grandes corporações digitais sobre as relações sociais. Para ele, a tecnologia deve continuar sendo utilizada, mas é necessário recuperar os espaços de convivência presencial, fortalecer organizações comunitárias e ampliar a participação das pessoas nas decisões coletivas.
Ao colocar 2042 diante dos olhos do leitor de 2026, A Distopia utiliza a ficção como instrumento de reflexão sobre democracia, meio ambiente, tecnologia, concentração de poder e participação social — e propõe uma pergunta que atravessa toda a obra: que decisões tomadas no presente poderão determinar o Brasil do futuro?
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
