Rosilene Corrêa: Uma sucessora para Erika Kokay na Câmara Federal
Ex-diretora do Sinpro quer substituir a deputada que representa o DF há 16 anos no Congresso Nacional

Rosilene: “Não dá para transferir para o presidente Lula a responsabilidade por problemas no BRB”. Foto: BSB Capital
Orlando Pontes e Tácido Rodrigues
Ex-diretora do Sinpro-DF e dirigente licenciada da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), a professora Rosilene Corrêa (PT) foi candidata ao Senado em 2022, quando conquistou 356.198 votos. Agora, ela é pré-candidata à Câmara dos Deputados. Seu objetivo é que o partido, no mínimo, mantenha a cadeira que há quatro legislaturas é ocupada pela deputada Erika Kokay. Rosilene acredita que a educação permeia todas as atividades da sociedade, mas diversificará os temas de sua campanha. Ao comentar a crise envolvendo o BRB e o Banco Master, disse que “não dá para transferir para o presidente Lula a responsabilidade pelos problemas criados pela gestão Ibaneis e Celina”. Também falou sobre a taxação dos super-ricos e classificou a pejotização como “exploração da classe trabalhadora”.
Em 2022, você recebeu mais de 350 mil votos na disputa pelo Senado. Agora entra na corrida para deputada federal. Como pretende enfrentar a rejeição ao PT no DF? – Existe uma narrativa construída contra o PT que, muitas vezes, desconsidera os feitos concretos dos governos do partido aqui no DF. Quando a gente conversa com as pessoas e relembra o que foi realizado nos governos Cristovam Buarque e Agnelo Queiroz, a percepção muda. Tivemos avanços importantes em políticas públicas, valorização do servidor, investimentos em áreas essenciais e diálogo com os trabalhadores, como a greve dos professores no governo Agnelo. Foram 52 dias de paralisação. Algumas pessoas questionam como isso aconteceu em um governo do próprio campo progressista. Justamente porque havia espaço para diálogo e negociação. Em governos que não valorizam o servidor, muitas vezes você luta apenas para não perder direitos. O nosso desafio é mostrar à população as diferenças entre projetos políticos e debater o que está acontecendo atualmente no DF.
O PT tenta manter na Câmara a cadeira hoje ocupada pela deputada Erika Kokay, que deve disputar o Senado. Isto será possível? – A Erika representa muito mais do que um mandato individual. Ela representa um projeto político, bandeiras históricas do campo progressista e uma defesa permanente da classe trabalhadora e dos direitos humanos. Existe um reconhecimento muito grande do trabalho dela, inclusive entre pessoas que não são do PT. O que nós não podemos permitir é perder esse espaço. Queremos ver a Erika no Senado e também defender a reeleição da Leila do Vôlei (PDT), porque o grande objetivo da extrema direita hoje é dominar o Senado Federal. O DF não pode contribuir para esse projeto. Precisamos manter vozes comprometidas com a democracia e com as pautas populares.
O que muda com a possível substituição de uma sindicalista bancária (Kokay) por uma sindicalista da educação? – Somos mulheres sindicalistas, defensoras da classe trabalhadora, dos direitos humanos e das políticas públicas. A questão central não é a diferença entre categorias, mas o que o povo perde quando deixa de ter representantes comprometidos com essas pautas. Basta observar como vota parte da bancada do DF no Congresso. A Bia Kicis (PL), por exemplo, votou contra programas sociais importantes, contra direitos trabalhistas, contra o Gás do Povo e outras propostas que beneficiariam diretamente a população mais pobre. O eleitor precisa pesquisar e entender quem está defendendo quais interesses.
Em relação à disputa para senador, o governador Ibaneis Rocha pode ajudar ou atrapalhar a esquerda? – Eu quero que até lá o Ibaneis esteja na cadeia. É muito doloroso olhar para Brasília, capital do país, e ver que ainda exista quem considere normal tudo o que aconteceu e continua acontecendo. São denúncias gravíssimas, escândalos envolvendo dinheiro público e de um governo que esteve no centro de episódios extremamente delicados para a democracia brasileira. É impressionante como algumas coisas parecem não avançar. Mas, independentemente do que a Justiça ou a polícia consigam fazer, existe o julgamento da população. As pessoas precisam se indignar e rejeitar esse modelo de política. O DF precisa virar essa página.
O campo progressista falha ao não fazer um enfrentamento mais duro contra nomes envolvidos em escândalos de corrupção, a exemplo do ex-governador José Roberto Arruda? – Acho que falta reação, não apenas do PT, mas de todo o campo progressista. Muitas vezes, determinados casos acabam sendo relativizados porque aparece alguém considerado pior depois. Isso é muito perigoso. Não existe hierarquia para a corrupção. O fato de surgir um escândalo maior não transforma os anteriores em algo aceitável. A esquerda precisa apresentar uma alternativa real e fazer esse debate com a população. Não dá para normalizar determinados comportamentos políticos.
Como o PT pretende recuperar espaço na disputa pelo GDF diante da movimentação de Celina Leão e Arruda, que hoje aparecem à frente nas pesquisas? – O Leandro Grass é o nosso pré-candidato e já melhorou bastante nas pesquisas. Ele está nas ruas dialogando com a população. É importante lembrar que ele quase foi ao segundo turno em 2022. Talvez não tenha ido até por uma confusão do eleitorado com o número do partido naquele momento, quando ele ainda era do PV. Existem figuras conhecidas da política local, como o Arruda, que, para mim, é uma referência extremamente negativa, mas é um nome que a população conhece. Já a Celina tenta construir uma imagem de novidade, como se não tivesse participado do governo Ibaneis, o que não corresponde à realidade. Ela foi vice-governadora, assumiu o governo diversas vezes e precisa responder também pelos problemas da atual gestão. Além disso, existe um trabalho importante a ser feito, que é mostrar para a população o quanto o governo federal tem investido no DF. Muitas obras e políticas acabam aparecendo apenas como ações do GDF, quando, na verdade, há forte participação do governo Lula.
Recentemente, o Fundo Constitucional do DF voltou ao centro do debate, e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, colocou em xeque a sua manutenção. O que pensa sobre isso? – É um erro muito grande tratar o Fundo Constitucional como privilégio. Brasília não é uma capital qualquer. Aqui estão instaladas as estruturas centrais do governo federal, e isso gera demandas e responsabilidades diferentes das demais unidades da Federação. O FCDF existe justamente porque o DF possui características específicas. Segurança pública, saúde e educação exigem investimentos compatíveis com a realidade da capital do país. Um ministro da Fazenda precisa compreender isso com clareza.
O governo federal deve socorrer o BRB diante da crise envolvendo o Banco Master? – Não dá para transferir para o presidente Lula a responsabilidade por problemas criados pela gestão Ibaneis e Celina. O BRB é patrimônio do povo do DF, e a primeira coisa que precisamos é transparência total. É necessário investigar o que vinha acontecendo no banco antes mesmo dos negócios envolvendo o Master. Quem causou prejuízo precisa responder. O patrimônio público não pode ser tratado dessa forma. Eu sou cliente do BRB desde que entrei na Secretaria de Educação. Existe um sentimento da população de pertencimento em relação ao banco. Por isso, defender o BRB é defender um patrimônio do DF.
Como você vê a possível divisão da esquerda com as candidaturas de Leandro Grass e Ricardo Cappelli (PSB)? – Nós defendemos a unidade. O cenário político exige responsabilidade e maturidade. O principal objetivo do campo progressista hoje é garantir a reeleição do presidente Lula. Precisamos construir um palanque forte no DF, capaz de enfrentar a extrema direita e defender a democracia. É natural que existam debates internos, mas acredito que ainda há tempo para construir convergência.
Além da educação, que é sua área de atuação, quais pautas a população pode esperar da deputada Rosilene Corrêa? – Não quero ser uma deputada com uma única pauta, mas é preciso entender que a educação está em tudo. Quando falamos de creche, estamos falando de educação. Quando falamos de saúde, meio ambiente, juventude, emprego ou direitos das mulheres, estamos falando também de educação. Mas eu também considero central o debate sobre justiça tributária. Não existe justiça social sem enfrentar a desigualdade na cobrança de impostos no Brasil. Precisamos taxar os super-ricos deste país. Não estamos falando do trabalhador comum, mas de grandes fortunas que não pagam impostos proporcionais à riqueza que possuem. Esse é um debate que precisa chegar à população de forma clara. Imposto não pode ser visto apenas como algo negativo. É a arrecadação que garante políticas públicas, saúde, educação e programas sociais.
Como conscientizar os jovens trabalhadores sobre os riscos da pejotização e da romantização do empreendedorismo? – Existe hoje uma narrativa muito forte vendendo a ideia de que ter carteira assinada é algo ultrapassado ou “coisa de pobre”. Isso é uma grande enganação. Claro que existem pessoas que conseguem empreender e prosperar. Mas essa não é a realidade da maioria da classe trabalhadora. Muitos jovens estão sendo contratados como PJ (Pessoa Jurídica), mas continuam submetidos às mesmas regras de um trabalhador formal: cumprem horário, recebem ordens e têm obrigações iguais às de um empregado com carteira assinada, só que sem direitos trabalhistas. Isso é exploração. Precisamos fazer esse debate com a juventude, fortalecer os sindicatos e mostrar que direitos trabalhistas não são privilégios. São conquistas históricas da classe trabalhadora.

