Prefeitura de SP pode ter financiado traição ao Brasil via Dark Horse?
Leonardo Sakamoto • Colunista do UOL – 01/06/2026 15h14
Existe uma possibilidade que deveria tirar o sono de qualquer cidadão paulistano que paga imposto: dinheiro que saiu dos cofres da Prefeitura de São Paulo para garantir internet nas periferias pode ter ajudado a financiar as atividades de Eduardo
Bolsonaro nos Estados Unidos sob a justificativa de bancar o filme sobre a vida de seu pai. As mesmas atividades que incluíam pressionar o governo Donald Trump a impor tarifas punitivas contra o Brasil para forçar o país a soltar Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado.
Não é roteiro de filme B com estrela decadente de Hollywood, mas o que emerge dos documentos da Operação Wi-Fi, deflagrada hoje pela Polícia de São Paulo, junto com outras investigações da Polícia Federal.
O Estado de São Paulo, através de sua polícia, investiga se cascalho da Prefeitura foi desviado para custear o filme “Dark Horse”.
• A operação mira um contrato de R$ 108 milhões (R$ 157,1 milhões com aditivos) firmado com o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização presidida por Karina
Ferreira da Gama, que também é dona da Go UP Entertainment, produtora do longa.
Importante lembrar que a Polícia Federal já investigava se parte dos R$ 61 milhões enviados por Daniel Vorcaro, do Banco Master, a pedido do senador Flávio Bolsonaro, sob justificativa de também financiar o filme, haviam sido usados para bancar despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, para onde ele se mudou em 2025.
O ex-deputado federal é réu no STF acusado de coação por ter buscado sanções internacionais contra o Brasil e contra autoridades brasileiras para interterir no julgamento do pai. Ele convenceu Donald Trump a prejudicar economicamente o próprio país para livrar a cara do ex-presidente.
Trabalhadores demitidos, empresas fechadas e, consequentemente, famílias endividadas, como moeda de pressão para libertar um homem condenado por tentar destruir a democracia.
Se constatado que o recurso teria sido destinado para a produtora, a pergunta seguinte é se dinheiro público foi bancar ilegalmente o filme sobre Jair (o que já seria péssimo) ou se parte dele acabou usado nas atividades bolsonaristas nos EUA (o que seria um crime de lesa pátria).
O ICB foi contratado para instalar pontos de internet gratuita nas ruas, mas como não é uma empresa de tecnologia, subcontratou serviços com diversas empresas. Dentre elas, há algumas pertencentes a um mesmo casal associado à investigada Karina Ferreira da Gama. A suspeita é de que R$ 26 milhões foram pagos pela prefeitura à entidade sem efetiva prestação de serviço.
Para a Polícia Civil de São Paulo, há “consistentes suspeitas de confusão patrimonial” entre o instituto e a produtora. O delegado responsável pediu ao Coaf análise das movimentações financeiras da organização para apurar possível desvio de recursos para custear a produtora do filme Dark Horse.
Existe ainda o detalhe revelador sobre o próprio processo licitatório. Havia suspeitas de direcionamento na licitação, que teve apenas a participação do ICB. Segundo as investigações, a organização não tinha histórico de atuação, experiência anterior ou capacidade técnica no setor de telecomunicações, limitando seu histórico operacional a feiras de livros e eventos de natureza literária ou religiosa. O prefeito Ricardo Nunes tem muito a explicar sobre o certame.
O roteiro do “Dark Horse” é assinado pelo deputado Mário Frias (PL-SP), que destinou R$ 2
milhões em emendas ao ICB. O repasse é alvo de apuração do STF, em ação sob relatoria do ministro Flávio Dino, que investiga possíveis irregularidades em emendas parlamentares.
O filme tem, portanto, pelo menos três possíveis fontes de dinheiro que precisam ser investigadas: os R$ 157,1 milhões do contrato de Wi-Fi da Prefeitura de SP, R$ 61 milhões efetivamente enviados dos R$ 134 milhões pedidos por Flávio Bolsonaro ao seu “irmão” Vorcaro, e os R$ 2 milhões em emendas parlamentares de Frias.
Ou seja, ao contrário do que disse o senador e pré-candidato à Presidência, é muito dinheiro público envolvido. E sem os controles e amarras da Lei Rouanet.
A Prefeitura de São Paulo disse que repudia as alegações e que o contrato seguiu os princípios da legalidade. Mas a gestão Nunes foi notificada em março para apresentar documentos sobre o contrato e nunca respondeu no prazo. Silêncio não é transparência.
O contribuinte paulistano que paga IPTU, que pega ônibus lotado, que vive em moradia precária, em rua sem iluminação, merece saber se o seu dinheiro foi parar numa campanha para sabotar o próprio país. Porque se foi, não estamos falando só de corrupção. Estamos falando de traição.
