Ciência, ancestralidade e combate às desigualdades: trajetória de pesquisadora da Fiocruz inspira gerações de mulheres negras
Com mais de quatro décadas dedicadas à saúde pública, Denise Oliveira transformou a luta contra a fome e as desigualdades em missão de vida e defende uma ciência comprometida com a sociedade
Brasília (DF) – Filha de uma família operária da zona norte do Rio de Janeiro, apaixonada por livros desde a infância e movida pelo desejo de compreender as causas da fome e das desigualdades sociais, a pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Brasília), Denise Oliveira Silva, construiu uma trajetória que se confunde com a história recente das políticas públicas de alimentação e saúde no Brasil. Hoje, aos mais de 60 anos, ela considera que compartilhar sua experiência é também um gesto de “amorosidade” e de compromisso com outras mulheres negras brasileiras.
Pesquisadora da Fiocruz Brasília e vice-diretora da instituição, Denise foi a entrevistada do programa Quilombo de Wal, apresentado pela jornalista Waleska Barbosa na TV Comunitária de Brasília. Durante a conversa, relembrou sua infância marcada pela leitura e pelas dificuldades enfrentadas por uma família trabalhadora que via a educação como caminho para superar a pobreza.
“Como toda mulher negra brasileira, venho de uma história de lutas”, afirmou.
Dos livros à ciência
Criada em escolas públicas, Denise recorda que os livros eram seu refúgio. Ainda adolescente, percorria sozinha a cidade do Rio de Janeiro para frequentar bibliotecas, especialmente a Biblioteca Nacional, alimentando uma curiosidade que mais tarde se transformaria em vocação científica.
Apaixonada por idiomas, mitologia e culturas do mundo, chegou a sonhar em cursar Letras e estudar grego. No entanto, a realidade econômica da família exigia escolhas mais pragmáticas. Influenciada por uma madrinha, optou pela Nutrição e ingressou na Universidade Santa Úrsula, transferindo-se posteriormente para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde concluiu a graduação.
Desde os primeiros anos da formação, porém, o interesse da pesquisadora estava longe da abordagem tradicional da profissão.
“Eu queria entender a fome. Minha mãe viveu a fome e eu cresci ouvindo essas histórias”, contou.
Inspirada pelas obras do médico e geógrafo pernambucano Josué de Castro, Denise passou a dedicar seus estudos à nutrição social, campo ainda pouco desenvolvido no Brasil nos anos 1980.
Uma carreira construída na saúde pública
Ainda recém-formada, ingressou na Fiocruz por concurso público em julho de 1986. Desde então, sua trajetória esteve ligada à formulação de políticas públicas e à produção de conhecimento voltado para a redução das desigualdades sociais.
Ao longo da carreira, especializou-se em estudos sobre vigilância alimentar e nutricional, segurança alimentar e cultura alimentar. Realizou formação acadêmica na Bélgica e consolidou sua atuação na interface entre nutrição, sociologia e antropologia, tornando-se referência na chamada antropologia da alimentação.
“Eu sou uma mulher da ciência, mas a ciência não pode ficar apenas em artigos e teses. Ela precisa fazer bem ao próximo e contribuir para transformar a sociedade”, defendeu.
Brasília e a construção de políticas públicas
Há 30 anos em Brasília, Denise afirma que a mudança para a capital transformou sua visão de país. A partir daqui, participou da elaboração de programas nacionais e ocupou cargos estratégicos voltados à alimentação e nutrição da população brasileira.
Entre as contribuições de sua trajetória estão a participação na construção da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra e nas primeiras iniciativas que deram origem ao Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional.
“Foi em Brasília que eu pude conhecer verdadeiramente o Brasil, sua diversidade e suas desigualdades”, destacou.
Ancestralidade e populações tradicionais
Nos últimos anos, a pesquisadora ampliou suas investigações para os territórios quilombolas e para comunidades tradicionais de matriz africana. Há cerca de oito anos, passou a desenvolver pesquisas voltadas à segurança alimentar em terreiros de umbanda e candomblé, experiência que, segundo ela, aprofundou sua relação com a ancestralidade africana.
“Hoje me sinto a serviço da ancestralidade. Quando entro em um terreiro, percebo que tenho muito mais a aprender do que a ensinar”, afirmou.
Para Denise, compreender a diversidade cultural e religiosa do país é fundamental para enfrentar os efeitos do racismo estrutural e da intolerância religiosa.
“O racismo é criativo e perverso. Por isso, a ciência precisa estar comprometida com mudanças que melhorem a vida das pessoas”, ressaltou.
Uma história coletiva
Ao encerrar a entrevista, Denise destacou que sua trajetória não é individual, mas representa a experiência de milhares de mulheres negras brasileiras que enfrentam diariamente barreiras sociais e raciais.
“Essa não é apenas a minha história. É a história de uma mulher negra brasileira que vive os percalços da vida e que quer dizer às outras pessoas que é possível. Nós podemos”, concluiu.
Com quase 40 anos dedicados à saúde pública e à produção científica, Denise Oliveira segue defendendo que conhecimento, cultura e ancestralidade caminham juntos e que a ciência só cumpre plenamente sua função quando está a serviço da transformação social.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília
