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No Diálogos ADUnB, especialista vê Pix como instrumento de soberania econômica e aponta disputa geopolítica em torno do sistema brasileiro

No Diálogos ADUnB, especialista vê Pix como instrumento de soberania econômica e aponta disputa geopolítica em torno do sistema brasileiro

Professora da UnB afirma que modelo público e gratuito incomoda grandes empresas financeiras e pode reduzir dependência internacional do dólar

Brasília (DF) – Consolidado como o principal meio de pagamento utilizado pelos brasileiros, o Pix tornou-se mais do que uma ferramenta financeira de sucesso. Na avaliação da economista e professora titular da Universidade de Brasília (UnB), Maria de Lourdes Rollemberg Mollo, o sistema criado pelo Banco Central representa uma política pública estratégica e passou a ocupar um espaço relevante nas disputas econômicas e geopolíticas internacionais.

O tema foi debatido no programa Diálogos ADUnB, realizado em parceria entre a Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB) e a TV Comunitária de Brasília. Durante a entrevista, a pesquisadora destacou que o Pix se diferencia de outros meios de pagamento por ser público, gratuito e adaptado às necessidades da realidade brasileira.

“O Pix é um meio de pagamento como cheque, cartão de crédito ou débito, mas possui características que o tornam extremamente importante. Ele é público e gratuito, o que amplia a inclusão e elimina custos de intermediação financeira”, explicou.

Inclusão financeira e apoio aos pequenos prestadores de serviço

Segundo Maria de Lourdes, uma das principais virtudes do sistema é facilitar as transações de pequenos valores e beneficiar trabalhadores autônomos e prestadores de serviços, que podem receber pagamentos instantaneamente sem a cobrança de taxas bancárias.

“Qualquer pequeno prestador de serviço pode utilizar o Pix sem arcar com custos adicionais. Isso amplia a participação econômica e facilita a vida das pessoas”, afirmou.

A economista destacou ainda que, por ser administrado pelo Banco Central e operar em reais, o sistema oferece maior segurança e estabilidade em comparação com ativos digitais privados ou criptomoedas, sujeitas a oscilações especulativas.

Ferramenta pode fortalecer a política monetária

Pesquisadora das áreas de economia monetária e financeirização, Maria de Lourdes avalia que a expansão tecnológica do Pix pode fornecer informações valiosas para a formulação de políticas monetárias mais eficientes.

Integrante da corrente heterodoxa da economia, ela defende que instrumentos monetários podem ser utilizados para estimular produção, emprego e renda, contrariando a visão predominante do pensamento neoliberal, que associa a expansão monetária apenas ao risco inflacionário.

“O avanço tecnológico do Pix aumenta a sensibilidade da política monetária e pode contribuir para o desenvolvimento econômico”, observou.

Sistema brasileiro incomoda gigantes financeiras

Para a professora, o êxito do Pix afeta diretamente os interesses econômicos de empresas privadas que atuam no setor de pagamentos digitais, como Visa, Mastercard, Google Pay e Apple Pay.

“Essas empresas estão perdendo espaço para um sistema público e gratuito. Isso, por si só, já representa um problema para elas”, afirmou.

Maria de Lourdes considera, porém, que a controvérsia em torno do Pix vai além das disputas comerciais e envolve interesses geopolíticos mais amplos.

Segundo ela, o desenvolvimento de sistemas de pagamento digitais nacionais e sua integração entre países podem reduzir a dependência do dólar nas transações internacionais e, consequentemente, diminuir a influência monetária dos Estados Unidos.

Disputa geopolítica e perda de hegemonia dos EUA

Na avaliação da economista, as críticas e pressões exercidas pelo governo do presidente Donald Trump refletem preocupações relacionadas à perda de competitividade norte-americana e à crescente multipolaridade econômica.

Ela observa que, durante décadas, os Estados Unidos defenderam a liberalização dos mercados porque ocupavam posição dominante na economia global. No cenário atual, entretanto, o país enfrenta a concorrência crescente da China e de outras economias emergentes.

“O problema não é apenas o que o Pix já faz, mas aquilo que ele ainda poderá fazer no futuro, especialmente quando articulado com outros sistemas digitais”, avaliou.

A professora citou iniciativas de integração financeira entre países dos BRICS, capazes de permitir pagamentos internacionais sem a necessidade de intermediação pelo dólar ou pelo sistema financeiro tradicional dominado pelos Estados Unidos.

Financeirização e concentração de riqueza

Durante a entrevista, Maria de Lourdes criticou o processo de financeirização da economia, caracterizado pela predominância de operações especulativas em detrimento do investimento produtivo.

Segundo ela, a expansão das finanças desacompanhada do crescimento da produção amplia desigualdades e favorece crises econômicas.

“O crescimento exagerado da esfera financeira aumenta a concentração de riqueza, mas não gera emprego nem renda”, afirmou.

Nesse contexto, a economista argumenta que o Pix contribui para reduzir mecanismos especulativos ao fortalecer um sistema monetário controlado pelo Estado e baseado na moeda nacional.

Defesa da soberania digital e monetária

Ao comentar a disseminação de informações falsas sobre o sistema, especialmente durante debates políticos recentes, Maria de Lourdes classificou as críticas de setores da extrema direita como desprovidas de fundamento econômico.

Para ela, o Pix representa uma conquista tecnológica brasileira que deve ser preservada.

“Estamos falando de soberania digital e de soberania monetária. São criações brasileiras voltadas para os interesses da sociedade e que precisam ser defendidas”, ressaltou.

A pesquisadora acredita que a tendência é de ampliação das vantagens oferecidas pelo sistema e de aprofundamento da cooperação entre países interessados em desenvolver alternativas ao atual modelo financeiro internacional.

Ao final da entrevista, a economista fez um apelo para que o debate sobre o Pix seja tratado como uma questão de interesse nacional.

“Essas questões de soberania deveriam unir os brasileiros na defesa de tecnologias criadas para atender aos nossos interesses e fortalecer nossa autonomia

Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:

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