Entre o futebol e a política: professor avalia chances do Brasil na Copa e critica mercantilização do esporte
Filósofo e pesquisador Marconi Scarinci aponta favoritismo de seleções europeias, lamenta a influência política sobre o Mundial e destaca crescimento do futebol feminino no Brasil
Brasília (DF) – Às vésperas do início da Copa do Mundo, a paixão pelo futebol volta a mobilizar torcedores brasileiros. Mas, para o professor de Filosofia e estudioso do esporte Marconi Scarinci, o maior espetáculo do planeta chega cercado por incertezas dentro de campo e por controvérsias políticas e econômicas fora dele. Em entrevista à TV Comunitária de Brasília, o pesquisador avaliou o momento da seleção brasileira, criticou a crescente mercantilização do futebol e afirmou que o Mundial realizado nos Estados Unidos já nasce marcado por tensões geopolíticas.
Segundo Marconi, o futebol brasileiro ainda tenta se recuperar da crise iniciada após a derrota por 7 a 1 para a Alemanha, na Copa de 2014. Embora reconheça a tradição da seleção pentacampeã e a abundância de talentos, ele considera que o país ainda não conseguiu formar uma equipe comparável às gerações históricas de 1970 e 2002.
“Hoje o Brasil continua entre os candidatos por sua tradição e pela qualidade dos jogadores, mas não possui supercraques como em outras épocas”, avaliou.
Na opinião do professor, seleções como França, Argentina, Espanha, Inglaterra e Alemanha aparecem entre as principais favoritas ao título. Ainda assim, ele acredita que o Brasil pode avançar às fases decisivas do torneio.
O país que transformou o futebol em arte
Ao analisar a identidade do futebol brasileiro, Marconi recorreu a referências históricas e culturais para sustentar que o Brasil foi responsável por elevar o esporte à condição de manifestação artística.
Inspirado em análises do historiador Eric Hobsbawm e nas crônicas de Nelson Rodrigues, o professor destacou que as seleções de 1958, 1962 e 1970 construíram uma forma única de jogar, marcada pela criatividade e pela beleza estética.
“Foi o Brasil que levou o futebol à condição de arte. Pelé e Garrincha eram artistas da bola”, afirmou.
Marconi lembrou ainda que o nome de Pelé permanece como uma das marcas mais reconhecidas do planeta, símbolo da influência cultural exercida pelo futebol brasileiro ao longo do século XX.
Copa nos Estados Unidos e críticas à FIFA
O professor também criticou a realização do Mundial nos Estados Unidos, apontando episódios recentes envolvendo restrições migratórias e denúncias de discriminação contra delegações e profissionais ligados à competição.
Segundo ele, atitudes associadas às políticas do presidente norte-americano Donald Trump acabam por comprometer o espírito de integração que historicamente caracteriza as Copas do Mundo.
Na avaliação do professor, a Federação Internacional de Futebol (FIFA) abandonou progressivamente sua função esportiva e transformou o futebol em um grande negócio global.
“A FIFA se tornou uma instituição voltada ao mercado e aos interesses econômicos. O futebol virou um big business”, afirmou.
Marconi recordou ainda episódios históricos em que o futebol esteve diretamente associado a disputas políticas, como as Copas de 1934, realizada durante o regime fascista de Benito Mussolini, e de 1978, na Argentina governada pela ditadura militar.
Interesse menor do público
Para o professor, a combinação entre comercialização excessiva, disputas políticas e transformações culturais ajuda a explicar a redução do entusiasmo dos brasileiros em relação ao Mundial.
Ele observou que o clima festivo característico de outras edições parece menos presente nas cidades e no comércio.
“Quando a bola rolar, todo mundo vai torcer. Mas existe hoje um distanciamento maior em relação à Copa do Mundo”, afirmou.
Copa do Mundo Feminina no Brasil é vista como avanço
Apesar das críticas ao cenário atual do futebol masculino, ele demonstrou entusiasmo com a realização da Copa do Mundo Feminina no Brasil e destacou o crescimento da modalidade no país.
Segundo ele, gerações lideradas por jogadoras como Marta, Cristiane e Formiga contribuíram para ampliar a visibilidade do esporte entre as mulheres e conquistar novos públicos.
“O futebol feminino ainda é movido muito mais pelo amor à camisa do que pelo mercado. As jogadoras brasileiras têm tanto talento quanto os homens”, destacou.
Na avaliação do professor, a realização do torneio em território brasileiro poderá impulsionar investimentos, ampliar oportunidades para atletas e representar um importante enfrentamento ao machismo ainda presente no esporte.
Brasília como celeiro de talentos
Durante a entrevista, Mrconi lembrou que o Distrito Federal revelou jogadores que chegaram à seleção brasileira e ao futebol internacional. Entre eles, citou o zagueiro Lúcio, natural de Sobradinho, além de atletas formados na região como Ranier, Endrick e Igor Thiago.
Ao final, o professor reforçou a confiança na tradição do futebol nacional.
“Continuamos sendo o país do futebol. Precisamos deixar de lado o complexo de vira-lata e acreditar na nossa capacidade”, concluiu.
Embora reconheça as mudanças que transformaram o futebol em um dos maiores negócios do planeta, Marconi acredita que a paixão do torcedor brasileiro permanece viva e que, quando a bola começar a rolar, a esperança por mais um título voltará a mobilizar milhões de pessoas.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília
