Paulo Kliass defende ruptura com a austeridade fiscal e vê risco de retrocesso político nas eleições de 2026
Economista alerta para avanço da extrema direita, critica influência do neoliberalismo na equipe econômica e propõe fortalecimento do investimento público e da soberania nacional
Brasília (DF) – A menos poucos meses das eleições presidenciais, o economista e especialista em políticas públicas Paulo Kliass avalia que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisa abandonar uma postura defensiva e adotar medidas de impacto imediato para fortalecer a economia popular e enfrentar o avanço da extrema direita no país. A análise foi apresentada durante entrevista ao programa Brasil Nação, da TV Comunitária do Distrito Federal, conduzido pelos jornalistas Beto Almeida e César Fonseca.
Segundo Kliass, pesquisas recentes indicam um crescimento do senador Flávio Bolsonaro nas intenções de voto, cenário que, na avaliação do economista, exige mobilização política e mudanças na condução da política econômica.
“Estamos diante de um quadro de extrema gravidade. O governo precisa sair da defensiva e assumir uma postura mais ofensiva, com medidas concretas e imediatas”, afirmou.
Guerra no Oriente Médio e impacto sobre o petróleo
Ao comentar os efeitos do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, Paulo Kliass classificou a ofensiva militar como uma “guerra agressiva” em uma das regiões mais estratégicas do planeta para a produção e o escoamento do petróleo.
Segundo ele, a escalada das tensões provocou movimentos especulativos nos mercados internacionais, elevando as cotações do barril de petróleo tipo Brent.
“O mercado futuro do petróleo é altamente especulativo. Uma declaração do presidente Donald Trump faz o preço subir; outra declaração faz o preço cair”, observou.
Apesar das oscilações internacionais, o economista sustenta que o Brasil possui condições de reduzir os impactos sobre os consumidores graças à produção nacional de petróleo e à capacidade de refino da Petrobras.
Críticas às mudanças realizadas após 2016
Kliass atribuiu ao governo do ex-presidente Michel Temer e às gestões seguintes a adoção de uma política de preços que vinculou os combustíveis brasileiros às flutuações do mercado internacional.
Segundo ele, a política implementada durante a administração Temer, sob influência do então ministro da Fazenda Henrique Meirelles e do ex-presidente da Petrobras Pedro Parente, comprometeu a soberania energética do país. Texto colado.txt
“O Brasil não precisa reajustar os combustíveis em função das oscilações internacionais. O preço deve refletir os custos internos de produção”, argumentou. Texto colado.txt
O economista também defendeu a recompra da antiga BR Distribuidora e a reincorporação à Petrobras das refinarias privatizadas nos últimos anos.
Governo precisa abandonar a austeridade, diz economista
Uma das principais críticas feitas por Paulo Kliass foi à manutenção de políticas de austeridade fiscal dentro da equipe econômica.
Na avaliação do economista, setores do governo continuam influenciados por concepções neoliberais que restringem investimentos públicos e limitam a capacidade do Estado de estimular o crescimento econômico.
“O governo precisa romper com as amarras da austeridade. O aumento dos gastos sociais não é um problema, é parte da solução”, afirmou.
Ele criticou declarações de integrantes da equipe econômica favoráveis a cortes de despesas e a uma nova reforma da Previdência, classificando essas propostas como incompatíveis com o cenário social do país.
Juros elevados concentram recursos
Kliass destacou que o pagamento de juros da dívida pública representa atualmente a maior despesa individual do orçamento brasileiro, ultrapassando a marca de R$ 1 trilhão por ano.
Segundo ele, enquanto os gastos financeiros permanecem sem restrições, áreas como saúde, educação, previdência e investimentos públicos são frequentemente submetidas a cortes.
“A austeridade é boa para os outros. O céu é o limite para os juros, enquanto se fala em reduzir despesas sociais”, criticou.
Precarização do trabalho preocupa
Embora reconheça a redução dos índices de desemprego, o economista alertou para o crescimento da precarização das relações de trabalho após as reformas implementadas nos últimos anos.
Segundo ele, o aumento da informalidade e dos empregos de baixa remuneração impede que os ganhos econômicos se traduzam em melhoria efetiva das condições de vida da população.
“As pessoas podem estar ocupadas, mas muitas vezes trabalhando em condições precárias e recebendo menos que um salário mínimo”, observou.
Estado forte em setores estratégicos
O economista também criticou os processos de privatização em áreas consideradas estratégicas, como petróleo, energia elétrica, saneamento e transporte.
Na avaliação de Kliass, setores monopolistas ou de infraestrutura essencial não podem ser tratados como mercados convencionais.
“Não existe concorrência em serviços como água, energia ou metrô. Nessas áreas é fundamental a presença forte do Estado, seja na oferta ou na regulação”, afirmou.
Ele citou preocupações em relação à privatização da Sabesp, ao processo de desestatização da Eletrobras e às pressões sobre empresas estaduais de saneamento.
Mudança urgente na política econômica
Ao final da entrevista, Paulo Kliass afirmou que o governo Lula ainda dispõe de tempo para reverter o cenário político, mas ressaltou que isso depende de mudanças profundas na condução econômica.
Para ele, é necessário ampliar investimentos públicos, fortalecer políticas sociais e recuperar a capacidade de planejamento do Estado.
“Lula é um animal político extremamente sensível aos anseios da população. Por isso me surpreende que ainda não tenha percebido a urgência dessa mudança. É preciso fazer essa inflexão agora”, concluiu.
Na avaliação do economista, a disputa eleitoral de 2026 será definida não apenas pela memória do bolsonarismo, mas pela capacidade do governo de apresentar respostas concretas às demandas sociais e econômicas da população brasileira.
