Arte, ancestralidade e resistência: multiartista Bruna Paz transforma poesia em instrumento de afirmação da identidade negra
Historiadora, poeta, pesquisadora e educadora, artista brasiliense defende a valorização da cultura negra, critica o apagamento histórico e incentiva mulheres negras a ocuparem espaços de protagonismo
Brasília (DF) – A arte como ferramenta de transformação social, a valorização da história negra e o protagonismo feminino marcaram a entrevista da multiartista Bruna Paz ao programa Povo Negro, da TV Comunitária de Brasília, apresentado pela diretora artística Valéria Assunção. Historiadora formada pela Universidade de Brasília (UnB), poeta, pesquisadora, produtora cultural, mestre de cerimônias e arte-educadora, Bruna compartilhou sua trajetória e defendeu a expressão artística como caminho para fortalecer identidades, romper silenciamentos e ampliar espaços de representatividade.
Ao recordar o início de sua caminhada, a artista contou que, durante muito tempo, questionou se realmente poderia se reconhecer como artista. Segundo ela, foi a partir da escrita, da poesia e da pesquisa histórica que encontrou sua principal forma de expressão.
“Durante muito tempo me perguntava o que me fazia ser artista. Foi a palavra que me mostrou esse caminho. A escrita, a pesquisa e a arte sempre caminharam juntas na minha vida”, afirmou.
Da História à produção artística
Bruna iniciou sua atuação profissional como arte-educadora em instituições culturais de Brasília, entre elas o Museu Nacional da República e o Museu do Tribunal de Contas da União (TCU). A convivência com artistas e exposições despertou o desejo de produzir suas próprias obras.
Inspirada pela videoartista Aline Motta, desenvolveu o curta-metragem Rastros Ancestrais, trabalho de conclusão do curso de História na Universidade de Brasília, utilizando a poesia como linguagem central da narrativa.
Além da produção audiovisual, Bruna integra a organização do Sarau da Quarta, coletivo que promove encontros culturais voltados ao incentivo da leitura, da escrita e da formação de novos artistas.
Segundo ela, o espaço também ajuda participantes a reconhecerem sua própria identidade artística.
“Muitas pessoas esperam a validação do outro para se reconhecerem como artistas. O sarau provoca exatamente esse questionamento: quem é você enquanto artista?”, explicou.
A universidade e o reencontro com a história negra
Durante a entrevista, Bruna destacou que a graduação em História transformou profundamente sua compreensão sobre o Brasil. Inicialmente interessada por temas como a Segunda Guerra Mundial e a Era Vargas, ela afirma que foi na universidade que passou a estudar a história da população negra e da África, conteúdos pouco presentes na educação básica.
A artista atribui parte dessa transformação às aulas do professor Leandro Bulhões, especialista em História da África. “Na universidade descobri histórias que nunca haviam sido apresentadas na escola. Foi quando comecei a compreender o apagamento histórico da população negra”, afirmou.
Segundo Bruna, personagens históricos como Nzinga Mbande permanecem desconhecidos da maior parte dos estudantes brasileiros, evidenciando lacunas na formação escolar. Ela defende maior presença da história afro-brasileira e africana nos currículos escolares e também no cinema nacional. “Ainda existem inúmeras histórias de homens e mulheres negras que precisam ser contadas”, ressaltou.
A escrita como forma de resistência
Bruna conta que sua relação com a escrita começou ainda na infância, quando trocava cartas com familiares e registrava pensamentos em diários. Com o tempo, a prática evoluiu para a poesia, os textos críticos e a pesquisa acadêmica. “Escrever sempre foi uma forma de organizar meus pensamentos e compreender o mundo”, disse.
Hoje, suas oficinas combinam poesia, performance corporal, oralidade e expressão artística, incentivando jovens e adultos a utilizarem a palavra como instrumento de fortalecimento pessoal.
Sarau e slam: espaços de voz e pertencimento
Durante a conversa, Bruna também explicou a diferença entre os saraus e os slams de poesia, frequentemente confundidos pelo público. Segundo ela, o sarau reúne diversas manifestações artísticas, como música, pintura, dança e literatura, enquanto o slam é uma competição de poesia falada em que o artista utiliza apenas a voz, o corpo e o texto, sem figurinos ou recursos cênicos adicionais.
Para a historiadora, os saraus contemporâneos também representam uma ressignificação de espaços historicamente elitizados. “A poesia marginal ocupa hoje lugares que antes pertenciam apenas às elites e se transforma em instrumento de denúncia, acolhimento e expressão das periferias”, afirmou.
Inteligência artificial e perda da escuta
Outro tema debatido foi o impacto das tecnologias digitais sobre a produção cultural. Bruna demonstrou preocupação com o uso indiscriminado da inteligência artificial e acredita que a sociedade corre o risco de perder hábitos fundamentais, como a leitura, a escrita e a escuta.
“Estamos repetindo as mesmas falas e consumindo os mesmos conteúdos. Precisamos continuar escrevendo, lendo e nos escutando”, alertou. Na avaliação da artista, a produção autoral continuará sendo um diferencial importante em um contexto marcado pela automatização de conteúdos.
Desafios para viver da arte
Apesar dos avanços na carreira, Bruna reconhece que a sustentabilidade financeira permanece como um dos maiores desafios enfrentados pelos trabalhadores da cultura. Ela relata que editais públicos, apresentações como mestre de cerimônias e atividades de formação artística constituem atualmente suas principais fontes de renda.
“A maior dificuldade continua sendo o recurso financeiro. Muitas vezes investimos semanas de trabalho em projetos que acabam não sendo aprovados”, afirmou. Segundo a artista, a precarização das condições de trabalho também contribui para a competição entre profissionais da cultura.
Ela defende uma lógica baseada na cooperação, em vez da disputa entre artistas. “A criatividade cresce quando compartilhamos experiências, não quando competimos entre nós”, observou.
Mulheres negras e a construção da autoconfiança
Ao abordar sua trajetória pessoal, Bruna falou sobre o processo de superação da timidez e da necessidade constante de validação enfrentada por muitas mulheres negras. Ela afirmou que aprender a reconhecer seu próprio valor foi uma etapa decisiva de sua carreira artística.
“Durante muito tempo esperei que outras pessoas dissessem quem eu era. Hoje entendo que a primeira validação precisa vir de nós mesmas”, destacou. No encerramento da entrevista, a multiartista dirigiu uma mensagem especialmente às mulheres negras que desejam atuar no campo das artes.
“Não desistam daquilo que vocês acreditam. Falem, ocupem os espaços, usem suas vozes. Durante muitos anos disseram quem nós deveríamos ser. Agora chegou a hora de sermos aquilo que escolhemos ser”, concluiu.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
