No momento, você está visualizando Projeto percorre escolas do DF para fortalecer o autorespeito e prevenir a violência contra mulheres e meninas

Projeto percorre escolas do DF para fortalecer o autorespeito e prevenir a violência contra mulheres e meninas

Projeto percorre escolas do DF para fortalecer o autorespeito e prevenir a violência contra mulheres e meninas

Idealizado pela advogada Lúcia Bessa, “Eu Me Respeito – A Mudança Começa em Mim” promove palestras em escolas, comunidades e instituições para incentivar o autoconhecimento, romper o ciclo da violência e ampliar a rede de proteção às mulheres

Por Paulo Miranda

Brasília (DF) – O enfrentamento à violência contra a mulher começa muito antes da denúncia ou da atuação das instituições de proteção. Essa é a principal mensagem do projeto “Eu Me Respeito – A Mudança Começa em Mim”, iniciativa desenvolvida pela advogada e especialista em políticas públicas para mulheres Lúcia Bessa, que vem percorrendo escolas públicas, centros comunitários, instituições de ensino e espaços de convivência em diversas regiões administrativas do Distrito Federal promovendo reflexões sobre autorespeito, autoestima e prevenção da violência de gênero.

O projeto foi tema de entrevista ao programa Brasília Notícias, da TV Comunitária de Brasília, apresentado pelo jornalista Paulo Miranda. Durante a conversa, Lúcia destacou que a proposta nasceu da experiência acumulada ao longo de anos de atuação na defesa dos direitos das mulheres e da constatação de que a violência muitas vezes está associada à ausência de autoconhecimento e valorização pessoal.

“Percebemos que muitas mulheres e meninas sofrem porque não aprenderam a se priorizar, a se respeitar e a reconhecer o próprio valor. Foi daí que nasceu esse projeto”, afirmou.

Educação como ferramenta de prevenção

Segundo Lúcia Bessa, o projeto já percorreu diversas escolas públicas do Distrito Federal e vem encontrando uma juventude interessada em discutir temas como violência, respeito, igualdade e cidadania. Ela afirmou que uma das maiores surpresas foi desconstruir preconceitos sobre os estudantes da rede pública. “Descobri uma juventude extremamente participativa, interessada e comprometida. Muitas vezes temos mais preconceitos sobre esses jovens do que conhecimento sobre quem eles realmente são”, destacou. Durante as atividades, estudantes compartilham experiências, relatam situações de violência, apresentam propostas de transformação e assumem o compromisso de multiplicar as discussões em suas escolas.

Assédio já faz parte da realidade de adolescentes

Na entrevista, Paulo Miranda chamou atenção para a experiência da TV Comunitária de Brasília com oficinas de comunicação realizadas em escolas públicas. Segundo o jornalista, meninas entre 10 e 12 anos produziram programas denunciando episódios de assédio sofridos nas redes sociais e nas ruas, demonstrando que a violência de gênero atinge mulheres cada vez mais cedo.

Para Lúcia Bessa, esse cenário reforça a necessidade de ações preventivas. “As meninas precisam entender desde cedo que não são responsáveis pela violência que sofrem. Elas precisam aprender que merecem respeito”, afirmou.

Projeto alcança todas as idades

Embora tenha forte atuação nas escolas, o projeto não se limita ao público jovem. As palestras também são realizadas em centros de convivência para idosos, associações comunitárias, instituições públicas e organizações da sociedade civil. Segundo Lúcia, o conceito de autorespeito acompanha toda a vida. Ela recordou o depoimento de uma idosa durante uma das atividades. “Ela disse que só passou a se respeitar quando percebeu que não dependia de ninguém para ser feliz. Aquilo resume exatamente o que buscamos despertar nas pessoas”, relatou.

Enfrentar a violência começa pela autonomia

A advogada destacou que muitas mulheres permanecem em relações abusivas por não reconhecerem sua própria capacidade de romper com o ciclo da violência. Segundo ela, o projeto busca fortalecer essa autonomia. “Nós dizemos às mulheres que ninguém virá salvá-las. O primeiro passo precisa partir delas mesmas. Elas podem sair do ciclo da violência”, afirmou. Além das palestras, a equipe realiza encaminhamentos para a rede de proteção sempre que identifica situações de violência relatadas durante os encontros.

Dados preocupam

Durante a entrevista, Lúcia Bessa lembrou que a violência contra a mulher permanece como um dos principais desafios sociais do país. Segundo ela, cinco mulheres são assassinadas por dia no Brasil, enquanto ocorrem, em média, 15 estupros coletivos de meninas diariamente. Também ressaltou que, a cada quatro segundos, uma mulher sofre algum tipo de violência no país.

Na avaliação da advogada, esses números demonstram que o enfrentamento da violência precisa envolver toda a sociedade. “Estamos em uma guerra que nós não escolhemos travar. Mas precisamos enfrentá-la todos os dias”, afirmou.

Pacto Nacional é visto como avanço

Lúcia avaliou positivamente a criação do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, coordenado pelo Governo Federal, classificando a iniciativa como um importante avanço institucional. Segundo ela, o pacto representa o reconhecimento da responsabilidade do Estado na proteção da vida das mulheres. Ao mesmo tempo, ressaltou que estados e municípios precisam ampliar a implementação das políticas públicas previstas na iniciativa. “Esperávamos há muito tempo que o Estado assumisse esse compromisso de forma efetiva”, declarou.

Rede de proteção do DF é referência, mas precisa avançar

A advogada lembrou sua participação na implantação de políticas públicas voltadas às mulheres no Distrito Federal, entre elas o embrião do atual Comitê de Enfrentamento ao Feminicídio e do programa Viva Flor. Embora reconheça que a rede distrital seja considerada uma das mais estruturadas do país, defende novos investimentos e maior integração entre os serviços. “Plantamos uma semente que continua florescendo. Mas ainda há muito a ser feito”, afirmou.

Juventude quer ser ouvida

Um dos principais aprendizados do projeto, segundo Lúcia, é perceber que adolescentes e jovens desejam participar das decisões que afetam suas vidas. Ela afirmou que os estudantes não buscam apenas assistência, mas oportunidades para expressar suas opiniões e desenvolver seus talentos. “Eles querem atenção, cuidado e oportunidade. Querem ser vistos”, resumiu.

A equipe prepara atualmente um minidocumentário reunindo depoimentos colhidos durante as atividades realizadas em escolas e comunidades do Distrito Federal, destacando manifestações artísticas produzidas por jovens como teatro, poesia, hip-hop e batalhas de rima.

Participação masculina é indispensável

Ao abordar o combate ao machismo, Lúcia Bessa defendeu que os homens também assumam protagonismo na transformação cultural necessária para reduzir a violência contra as mulheres. Segundo ela, homens têm papel fundamental no diálogo com outros homens sobre masculinidades e respeito. “Os homens fazem parte do problema e precisam fazer parte da solução”, afirmou.

“Não aceitem nenhuma forma de violência”

Encerrando a entrevista, a advogada dirigiu uma mensagem às mulheres brasileiras, reforçando que nenhuma forma de violência deve ser naturalizada. “Sejam completamente intolerantes a qualquer espécie de violência, desde a mais sutil até a mais explícita. Escolham a si mesmas primeiro. Amem-se, respeitem-se, porque a mudança começa em cada uma de nós”, concluiu.

Ao longo da entrevista, Lúcia Bessa defendeu que a prevenção da violência exige políticas públicas permanentes, fortalecimento das redes de proteção, participação da sociedade e, sobretudo, investimentos em educação, acolhimento e promoção do autorespeito desde a infância.

Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:

Deixe um comentário