Embaixada do Irã em Brasília realiza cerimônia em homenagem ao aiatolá Ali Khamenei e destaca princípios da política externa iraniana
Evento reuniu autoridades, lideranças sociais e membros da comunidade iraniana na capital federal; em discurso, embaixador apresentou a visão da República Islâmica sobre relações internacionais e agradeceu manifestações de solidariedade recebidas no Brasil
Por Paulo Miranda (texto e fotos) – presidente da TV Comunitária de Brasília
Brasília (DF) – A Embaixada da República Islâmica do Irã no Brasil promoveu, em Brasília, uma cerimônia em homenagem ao aiatolá Sejjed Ali Khamenei, por ocasião do encerramento das cerimônias fúnebres oficiais e do sepultamento realizado na cidade sagrada de Mashhad, no Irã. O evento reuniu representantes da comunidade iraniana residente no Brasil, lideranças sociais e convidados para um momento de homenagem, reflexão e confraternização.
Durante a solenidade, o embaixador da República Islâmica do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam Ghadiri, agradeceu as manifestações de solidariedade recebidas pela representação diplomática após a morte de Ali Khamenei. Em seu pronunciamento, o diplomata afirmou que a cerimônia tinha como objetivo não apenas prestar homenagem ao líder iraniano, mas também recordar suas ideias e sua influência na formulação da política da República Islâmica.
Segundo o embaixador, um dos principais legados atribuídos a Khamenei foi a formulação de três princípios considerados fundamentais para a política externa iraniana: dignidade, sabedoria e interesse.
De acordo com Ghadiri, a dignidade representa a defesa da independência nacional e a rejeição de qualquer forma de dependência ou imposição por potências estrangeiras. A sabedoria estaria relacionada à condução prudente da política internacional e à compreensão do cenário geopolítico, enquanto o interesse nacional orientaria a adoção de estratégias flexíveis sem abandonar os princípios considerados fundamentais pelo Estado iraniano.
O diplomata também destacou o conceito de rejeição à dominação e à submissão, apresentado como um dos pilares da política da República Islâmica. Segundo ele, essa visão sustenta que nenhum país deve exercer domínio sobre outro nem aceitar interferências externas em seus assuntos internos.
Outro ponto abordado foi a comunicação com a opinião pública internacional. O embaixador afirmou que Khamenei defendia o uso estratégico dos meios de comunicação para dialogar diretamente com diferentes sociedades, citando como exemplo as cartas dirigidas aos jovens do Ocidente e da Europa, nas quais buscava apresentar a visão iraniana sobre o Islã e contestar estereótipos difundidos internacionalmente.
Ao tratar das relações internacionais, Ghadiri apresentou a interpretação da República Islâmica sobre diferentes atores do cenário mundial. Segundo ele, Khamenei considerava que as divergências entre Irã e Estados Unidos decorriam de diferenças estruturais relacionadas ao modelo político e à independência defendida pela Revolução Islâmica. O embaixador também afirmou que, na visão do líder iraniano, a estratégia mais adequada diante dos Estados Unidos seria a chamada “resistência ativa”.
Em relação a Israel, o diplomata apresentou a posição oficial da República Islâmica do Irã, segundo a qual o Estado israelense é visto como um instrumento de dominação regional. No discurso, também foi exposta a defesa de um referendo envolvendo os habitantes originários da Palestina como proposta para solucionar o conflito israelo-palestino, posição atribuída ao pensamento de Khamenei.



Antes do jantar oferecido aos convidados, a Embaixada distribuiu exemplares do Alcorão em edição bilíngue, com textos em farsi e tradução para o português, além de realizar o sorteio de livros intitulados “Revolução Islâmica no Irã – Os Próximos 40 Anos”, obra que reúne análises e reflexões atribuídas ao aiatolá Ali Khamenei. E três poetas – Pedro Batista, Chico Nogueira e Karima – leram suas poesias em homenagem ao Grande Líder Mártir.
Entre as mensagens destacadas na publicação está a afirmação de que “o desânimo é um veneno e os desafios existem para serem superados, não para impedir a caminhada dos jovens”, frase apresentada como um incentivo às novas gerações para enfrentar adversidades e contribuir para o desenvolvimento da sociedade.
Ao encerrar a cerimônia, o embaixador renovou os agradecimentos aos participantes pela presença e pela solidariedade manifestada à representação diplomática iraniana no Brasil, ressaltando a importância do diálogo e da aproximação entre os povos.

Íntegra do discurso do Embaixador da República Islâmica do Irã no Brasil Abdollah Nekounam Ghadiri:
Em nome da Embaixada da República Islâmica do Irã no Brasil, Eu e meus colegas, expressamos nossa profunda gratidão pela solidariedade manifestada pelo povo brasileiro diante do assassinato do Líder da República Islâmica do Irã pelos regimes dos Estados Unidos da América e de Israel.
Nossa presença nesta cerimônia, nesta noite, não se limita a prestar homenagem e reverenciar um grande líder religioso e político, mas também a recordar e valorizar sua visão e seu pensamento em diferentes áreas da política, especialmente em suas dimensões estratégicas.
Uma das características mais marcantes do Aiatolá Khamenei foi sua capacidade de formular conceitos inovadores em todos os campos da formulação de políticas públicas.
Nesse contexto, apresentou três conceitos fundamentais para a política externa da República Islâmica do Irã: “dignidade”, “sabedoria” e “interesse”, que passaram a constitui o discurso central e orientador da política externa iraniana
Esses princípios derivam de sua compreensão autêntica dos fundamentos religiosos e de uma visão política baseada na independência, na defesa da liberdade e na busca da justiça no cenário internacional.
Dignidade significa rejeitar qualquer forma de dependência, manter-se firme nos princípios e não aceitar imposições ou coerção por parte das grandes potências mundiais.
Sabedoria refere-se à atuação prudente, à rejeição da precipitação e a correta compreensão da realidade internacional.
Interesse significa considerar os interesses nacionais e adotar flexibilidade tática dentro dos limites dos princípios, a fim de evitar prejuízos ou alcançar benefícios.
Outro conceito, igualmente inspirado nos ensinamentos do Islã, é o da rejeição da dominação e da submissão. Sob essa perspectiva, não se deve permitir que qualquer potência estrangeira exerça influência ou domínio sobre o país, tampouco buscar exercer domínio sobre outras nações.
O Líder Mártir sempre enfatizou a importância do diálogo com a opinião pública mundial e dedicou especial atenção ao uso inteligente dos novos meios de comunicação para esse propósito.
Suas cartas dirigidas diretamente aos jovens do Ocidente e da Europa constituíram um exemplo dessa estratégia de comunicação com a opinião pública, utilizando ferramentas modernas para romper estereótipos difundidos pela mídia e apresentar uma visão direta do Islã e do Irã.
Na visão política do Líder Mártir, compreender a natureza da outra parte constitui o principal critério para o estabelecimento das relações internacionais, Com base nessa perspectiva, os países eram analisados segundo uma classificação clara.
Em sua avaliação, os Estados Unidos da América representam o “Grande Sata” e simbolizam o sistema de dominação internacional, cuja natureza arrogante, enganosa e intervencionista é considerada incompatível, em sua essência, com a Revolução Islâmica.
Ele afirmava repetidamente que o problema com os Estados Unidos não era apenas de natureza política ou nuclear, mas decorria do fato de que a República Islâmica do Irã não aceitava submeter-se à ordem liderada pelos Estados Unidos e, por essa razão, entendia que “a hostilidade dos Estados Unidos contra o próprio sistema e a identidade revolucionária do Irã é permanente”
Também considerava totalmente desprovidas de credibilidade as promessas dos Estados Unidos, recorrendo a experiências históricas, entre elas o acordo nuclear (JCPOA), ao afirmar: “Os Estados Unidos violaram seus compromissos, e a Europa os acompanhou.”
Em sua visão, a estratégia adequada diante dos Estados Unidos era a “resistência ativa”. Quanto ao regime sionista, entendia que não se tratava de um país, mas de uma base militar e de um instrumento da dominação ocidental na região, cuja natureza estaria fundamentada na ocupação, na agressão e no apartheid.
Segundo a visão do Ayatola Khamenei, qualquer reconhecimento, normalização de relações ou negociação com o regime sionista constitui um ato proibido é um grave pecado.
Em relação à questão palestina, defendia que a solução não consistia na conciliação nem na fórmula de dois Estados, mas na realização de um referendo com a participação de todos os habitantes originários da Palestina, incluindo muçulmanos, cristãos e judeus. Além disso, considerava o apoio integral à resistência palestina um dever religioso e uma prioridade estratégica.
Ao concluir minhas palavras, renovo meus sinceros agradecimentos a todos os presentes por aceitarem nosso convite e por sua participação nesta cerimônia.
