Celina Leão vira sócia de empresário de ônibus que tem contrato com o governo do DF
Daniela Lima – Colunista do UOL
FONTE UOL – 13/07/2026 05h30
A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP-DF), é sócia do dono de uma das empresas de transporte público que operam em Brasília, na compra de um embrião de gado Nelore, num negócio avaliado em cerca de R$ 500 mil.
O trato foi celebrado publicamente, em setembro do ano passado, num leilão transmitido nas redes e batizado com o nome do antecessor de Celina no governo, Ibaneis Rocha, de quem ela era vice na ocasião.
O sócio de Celina na compra do embrião de gado é Edmundo Pinheiro, dono da Urbi, uma das cinco concessionárias de transporte público do DF, detentora do terceiro maior contrato de pagamento de tarifas.
Na prática, a governadora firmou parceria com um empresário cuja ampliação ou não dos rendimentos em contratos públicos depende da assinatura dela.
Os contratos de transporte público do DF estão há anos sob análise do Ministério Público pela explosão dos valores pagos pelo governo para manter o preço da passagem congelado.
De 2019 até maio deste ano, o valor da tarifa técnica foi revisada 63 vezes, segundo levantamento do próprio governo. Ao assumir o GDF, Celina trocou o comando da Secretaria de Transporte e Mobilidade Urbana e, no ato mais rumoroso até agora, a pasta decidiu congelar qualquer revisão tarifária alegando necessidade de fazer uma auditoria para definir padrões técnicos para os repasses.
Até aqui, em vez de repassar os aumentos, o GDF criou um instrumento chamado “tarifa técnica”, onde paga às empresas a diferença entre o que deveria ser o preço da passagem e o que efetivamente é cobrado do público. Hoje, a Urbi recebe R$ 9,78 por passagem como “reembolso” do governo.
Paralelamente às investigações, há uma guerra entre as empresas, já que peritos apontaram pagamentos indevidos, inflados, além de falha na avaliação de reajustes.
A trava nos questionamentos ocorreu em meio a processo que prevê a devolução de valores pagos indevidamente às empresas —enquanto as firmas alegam que teriam ainda mais verbas a receber. Entre as envolvidas no imbróglio, por óbvio, está a Urbi.
A sociedade de Celina com um dos empresários envolvidos na contenda tende a inflar os questionamentos à condução dos contratos, hoje estimados num desembolso de R$ 200 milhões por mês para as concessionárias de ônibus.
Procurada, a governadora confirmou o negócio com Edmundo Pinheiro. “A então vice-governadora Celina Leão e seu marido fizeram a parceria com o empresário Edmundo Pinheiro para a compra, em 30 parcelas, da metade de um embrião de nelore num leilão público realizado pelo governador Ibaneis Rocha, em 1º de setembro de 2025”, informou a assessoria de Celina.
“A Secretaria de Transporte e Mobilidade baixou, em 14 de maio de 2026, a portaria Nº 149, suspendendo a tramitação de todos os processos de revisão de tarifa técnica, em curso ou que venham ser instaurados no âmbito da SEMOB-DF, até a conclusão de estudos a serem contratados para a padronização da metodologia de cálculo de revisão tarifária. Tais medidas não interferem, de maneira alguma, nos processos em andamento no âmbito judicial. Inclusive aqueles que determinam a revisão de valores, que implica em que algumas empresas podem ter valores e devolver, enquanto outras a receber.”
Questionada se não considerava problemático manter relação societária com um empresário cujos rendimentos estão diretamente ligados a decisões da própria governadora, a assessoria não comentou.
Essa não é a primeira vez que a elite da política de Brasília mergulha num escândalo por compra de “prenhez de gado”. Joaquim Roriz, um dos governadores mais importantes da capital federal, se elegeu senador e foi cassado por suspeita de lavagem de dinheiro e corrupção por meio da compra de embriões de gado.
Celina Leão conhece bem essa história. Na época, era assessora da filha de Roriz na Câmara Legislativa do DF. Um figura quase da família. Elas romperam. Portanto, hoje, o retrato é outro, mas a moldura, a mesma.
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