“Câmara Legislativa virou puxadinho do Executivo”, afirma Bartô em entrevista à TV Comunitária
Pré-candidato a deputado distrital, jornalista Bartolomeu Rodrigues defende independência do Legislativo, fiscalização do governo e alerta para degradação do patrimônio de Brasília
Brasília (DF) – “Infelizmente, a Câmara se transformou, se deixou transformar num puxadinho do Executivo.”
A crítica é do jornalista e pré-candidato a deputado distrital Bartolomeu Rodrigues, o Bartô, ao analisar o papel da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF). Em entrevista ao programa Brasília Notícias, da TV Comunitária de Brasília, na terça-feira, 14 de julho, o ex-secretário de Cultura e Economia Criativa do DF defendeu uma mudança na relação entre o Legislativo e o governo local e cobrou maior fiscalização da administração pública.
Ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas e ex-chefe da Assessoria Institucional do Governo do Distrito Federal, Bartô afirmou que a Câmara Legislativa precisa recuperar a independência e a função fiscalizadora conquistadas no processo de construção da representação política de Brasília. “A fiscalização efetiva começa ali”, declarou.
Para Bartô, a Câmara não pode funcionar como uma extensão do Palácio do Buriti nem como espaço destinado a aprovar automaticamente projetos de interesse do Executivo ou de grupos politicamente influentes. Na avaliação do jornalista, o enfraquecimento da fiscalização parlamentar produz consequências diretas para a população.
“Não existe vácuo na política”
Pré-candidato pelo PSB, Bartô contou que resistiu à possibilidade de disputar um mandato eletivo. Apesar de sua longa atuação sindical e de ter ocupado cargos na administração pública, ele nunca concorreu a uma vaga no Legislativo do Distrito Federal. Um dos principais estímulos para a decisão veio do ex-governador e professor Cristovam Buarque. Segundo Bartô, Cristovam apresentou um argumento que teve peso decisivo na sua escolha: quando pessoas comprometidas se afastam dos espaços políticos, outras ocupam esses lugares. “Se a gente se afasta, os outros ocupam, porque não existe vácuo na política”, recordou. Bartô afirmou que a descrença da sociedade nos políticos não pode resultar no abandono da política por pessoas dispostas a trabalhar pelo interesse público. “A política pode estar cheia de maus políticos, e está mesmo. Agora, as pessoas de bem não podem se afastar da política”, disse. Para ele, participação política é uma condição essencial da própria democracia. “Democracia envolve participação”, ressaltou.
Bartô quer chegar à Câmara pela qual lutou
A eventual chegada de Bartô à Câmara Legislativa teria um significado histórico em sua trajetória pessoal e profissional.
No final dos anos 1980, o jornalista participou das mobilizações pela representação política do Distrito Federal. Naquele período, sindicatos, entidades da sociedade civil e movimentos organizados defendiam o direito da população de Brasília de eleger seus próprios representantes locais. Bartô lembrou que o Sindicato dos Jornalistas participou ativamente dessa mobilização. A relação do jornalista com o tema, no entanto, começou ainda antes. Em 1978, quando iniciava a carreira no antigo Jornal de Brasília, uma de suas primeiras pautas foi justamente sobre a representação política da capital federal.
Na época, Brasília ainda não possuía Câmara Legislativa. “Hoje estou pleiteando um lugar nessa Câmara para a qual eu lutei para que existisse”, afirmou. Décadas depois, Bartô demonstra preocupação com a imagem do Legislativo local perante a população. Segundo ele, durante as conversas nas ruas, é comum encontrar eleitores que demonstram interesse nas eleições para presidente e governador, mas afirmam não possuir candidato a deputado distrital.
Para o jornalista, essa rejeição deveria provocar uma reflexão dentro da própria Câmara Legislativa. Bartô criticou campanhas institucionais destinadas apenas a melhorar a imagem do Legislativo. “Nem precisava melhorar a imagem. É ela atuar bem”, afirmou.
Deputado distrital precisa fiscalizar e andar nas ruas
Na avaliação de Bartô, recuperar a confiança da população passa pelo exercício efetivo das atribuições parlamentares. O deputado distrital precisa fiscalizar o Executivo e manter contato permanente com a realidade das regiões administrativas. “Se cada deputado tivesse poder fiscalizador e agisse realmente caminhando nas ruas…”, argumentou.
Ex-repórter de cidades e de polícia, Bartô afirmou que sua experiência jornalística ensinou a importância de observar Brasília para além dos gabinetes e das estruturas administrativas. “É caminhando que a gente vê os problemas. As pessoas têm que andar na cidade, ver a cidade, sentir a cidade”, disse.
Para ele, Brasília passou por profundas transformações ao longo das últimas décadas. Em algumas áreas, houve avanços. Em outras, segundo Bartô, a cidade enfrenta um processo preocupante de degradação. Entre os problemas apontados estão insegurança, falta de iluminação e dificuldades de acessibilidade. “Brasília está escura, está insegura”, criticou.
“Uma cidade que ainda clama por calçadas”
A situação das pessoas com deficiência foi citada pelo pré-candidato como exemplo dos problemas cotidianos que precisam receber maior atenção do poder público. Bartô criticou as condições das calçadas e os obstáculos existentes nos espaços urbanos. “A pessoa que tem algum tipo de deficiência, para andar nessa cidade, é um horror. Você tropeça”, afirmou. Para o jornalista, é inaceitável que a capital federal ainda enfrente problemas básicos de infraestrutura urbana. “Uma cidade que ainda clama por calçadas 66 anos depois. Não é possível”, declarou. A crítica reforça uma das ideias defendidas por Bartô ao longo da entrevista: representantes políticos precisam conhecer a cidade por meio da experiência concreta de quem utiliza seus espaços públicos.
Patrimônio de Brasília pode estar ameaçado
Entre todas as preocupações apresentadas, Bartô dedicou especial atenção à preservação do patrimônio cultural e arquitetônico de Brasília. Ex-secretário de Cultura e Economia Criativa, ele fez um alerta sobre a conservação dos monumentos e equipamentos públicos da capital. “Se nós não abrirmos os olhos, Brasília vai perder essa condição”, afirmou, ao falar sobre o reconhecimento da cidade como Patrimônio Cultural da Humanidade.
Bartô sustentou que a degradação dos bens públicos precisa ser enfrentada com urgência. “O patrimônio está caindo aos pedaços”, declarou. O jornalista citou o Teatro Nacional Claudio Santoro como exemplo das dificuldades enfrentadas na preservação dos equipamentos culturais. Durante sua passagem pela Secretaria de Cultura, Bartô participou dos esforços para viabilizar as obras no prédio.
Segundo ele, os problemas encontrados eram graves. “O Teatro Nacional estava afundando no chão. Ele podia ruir”, relatou. Bartô afirmou que a situação exigiu uma longa batalha administrativa para garantir a realização das intervenções. O ex-secretário também chamou atenção para as condições de trabalho dos servidores responsáveis pela preservação do patrimônio. Segundo ele, durante sua gestão, alguns equipamentos enfrentavam dificuldades até mesmo para manter estruturas básicas de segurança.
Fundo permanente para salvar o patrimônio
Diante do cenário, Bartô apresentou uma proposta para garantir recursos permanentes destinados à preservação do patrimônio de Brasília. O jornalista defende a discussão sobre a vinculação de uma pequena parcela de recursos públicos relacionados ao Distrito Federal para financiar a conservação dos monumentos, equipamentos culturais e conjuntos arquitetônicos da capital.
“Se você destinar 0,5%, ou o que for, para a preservação do patrimônio, está salvo. Você consegue reorganizar o patrimônio de Brasília”, afirmou. Para Bartô, a União também precisa participar dessa responsabilidade. Brasília, argumenta o pré-candidato, é sede da Presidência da República, do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal, de embaixadas e de diferentes organismos nacionais e internacionais. Por isso, sua preservação não pode ser considerada responsabilidade exclusiva da população do Distrito Federal. “Aqui é a capital do país e eles desfrutam da capital do país”, disse. Bartô considera que a preservação de Brasília também representa a proteção da imagem do Brasil no exterior.
“Minha plataforma se chama Brasília”
Apesar da forte relação com o setor cultural, Bartô afirmou que não pretende construir sua pré-candidatura em torno de uma única pauta.
“Minha plataforma se chama Brasília”, definiu.
Ao utilizar o nome da capital, o jornalista ressaltou que se refere ao conjunto do Distrito Federal, incluindo regiões administrativas e áreas rurais. Bartô afirmou que cultura e educação terão destaque em sua atuação, mas defendeu uma visão ampla dos problemas da população. “Eu estou preocupado e quero o bem-estar de toda a população de Brasília”, declarou. Saúde, segurança, acessibilidade, infraestrutura, preservação do patrimônio e qualidade de vida aparecem entre as preocupações citadas pelo pré-candidato.
Ruptura política sem transformar divergência em inimizade
Durante a entrevista, Bartô também falou sobre o afastamento político do governador Ibaneis Rocha, com quem trabalhou antes e durante o início do governo. O jornalista foi secretário de Cultura e ocupou a chefia da Assessoria Institucional do GDF. Bartô reconheceu a oportunidade de ter integrado o governo e afirmou que, durante sua passagem pela Secretaria de Cultura, teve autonomia para exercer o trabalho.
“Eu tive a honra de ter sido secretário de Cultura. Ele não interferiu no meu trabalho”, afirmou. O ex-secretário, no entanto, disse ter seguido um caminho político diferente. “Infelizmente, ele tomou um caminho que não é o meu”, declarou. Bartô afirmou que não pretende transformar a divergência política em uma relação de inimizade. “A minha vida estou levando por outro caminho, que não é o dele. Cada um segue o seu caminho”, disse. O jornalista também manifestou tristeza com o atual cenário político e administrativo do Distrito Federal e seus impactos sobre a cidade.
TV Comunitária é uma instituição de Brasília
No início da entrevista, Paulo Miranda agradeceu publicamente o apoio dado por Bartô à TV Comunitária de Brasília durante sua passagem pela Secretaria de Cultura. Bartô respondeu afirmando que ajudar a emissora significou, na sua visão, apoiar a própria população. “O que eu fiz pela TV Comunitária, eu estou fazendo pela população de Brasília”, declarou. Para o jornalista, a TV Comunitária deve ser reconhecida como uma instituição da cidade. Ele defendeu que o fortalecimento da emissora não seja responsabilidade apenas do Estado ou dos agentes políticos. “A sociedade civil também precisa abraçar a TV Comunitária”, afirmou.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
