No momento, você está visualizando Grão-Mestre Barto celebra mais de seis décadas dedicadas à capoeira e preserva legado histórico no Distrito Federal

Grão-Mestre Barto celebra mais de seis décadas dedicadas à capoeira e preserva legado histórico no Distrito Federal

Grão-Mestre Barto celebra mais de seis décadas dedicadas à capoeira e preserva legado histórico no Distrito Federal

Aos 79 anos, mestre formado por Mestre Arraia relembra a construção da capoeira em Brasília, a formação de gerações de atletas e educadores e defende a transmissão da sabedoria como maior missão da arte

“Papoeirando” com o Mestre Barto foi ao ar pela TV Comunitária de Brasília na quarta, dia 22 de julho. Porém, para assistir a entrevista concedida a Israel Melo (Boquinha) basta clicar no link do youtube do canal ao final desta matéria.

Brasília (DF) – Poucos personagens testemunharam tão de perto a consolidação da capoeira no Distrito Federal quanto o Grão-Mestre Barto. Aos 79 anos de idade e com 61 anos de dedicação ininterrupta à arte afro-brasileira, ele permanece em atividade, ensinando novas gerações e preservando uma história que se confunde com a própria expansão da capoeira em Brasília. Em entrevista ao programa Papoeirando, o mestre compartilhou lembranças de sua trajetória, da convivência com o lendário Mestre Arraia e das transformações vividas pela capoeira ao longo de mais de seis décadas.

Discípulo de Mestre Arraia (Aldenor Benjamim), considerado um dos pioneiros da capoeira em Brasília, Grão-Mestre Barto ajudou a formar dezenas de mestres e centenas de praticantes, consolidando um trabalho reconhecido dentro e fora do país.

“A capoeira me proporcionou tudo. Conheci pessoas, viajei, formei famílias dentro da arte e continuo aprendendo todos os dias”, afirmou.

Um encontro que mudou sua vida

A trajetória de Barto ganhou novo rumo em 1970, quando, enquanto treinava sozinho nos fundos de um bloco residencial da Asa Sul, foi abordado por um homem que observava atentamente seus movimentos. Era Mestre Arraia, que imediatamente identificou imperfeições técnicas e o convidou para treinar sob sua orientação.

A partir daquele momento iniciou-se uma relação de intensa convivência. Os treinamentos aconteciam diariamente e, muitas vezes, começavam ainda durante a madrugada. “Ele batia à minha porta às três ou quatro horas da manhã dizendo: ‘Vamos treinar’. Nós atravessávamos Brasília inteira treinando em praças, gramados, na Universidade de Brasília e onde houvesse espaço”, recordou. Segundo Barto, foi essa dedicação quase integral que acelerou seu desenvolvimento técnico.

Formação marcada por disciplina extrema

Durante a entrevista, o mestre descreveu um dos momentos mais marcantes de sua formação. Antes de reconhecê-lo oficialmente como mestre, Mestre Arraia submeteu seu discípulo a uma longa avaliação envolvendo técnicas de capoeira angola, capoeira regional, karatê, kung fu, taekwondo, judô, jiu-jítsu e manejo de bastão.

O teste aconteceu em uma área gramada, sem cerimônia formal e diante apenas de alguns moradores. Segundo Barto, além da capacidade física, Arraia buscava avaliar o equilíbrio emocional de seu aluno.

Após sucessivas provas de combate, veio o desafio final. O mestre ordenou que ele fosse até outra academia para enfrentar um capoeirista rival. Quando percebeu que seu discípulo aceitaria a missão sem hesitação, interrompeu a ordem.

“Anos depois compreendi que aquele era um teste psicológico. Ele queria saber se eu tinha maturidade para exercer a responsabilidade de ser mestre”, contou. Ao final da avaliação, recebeu o reconhecimento que mudaria definitivamente sua trajetória.

Mais de meio século formando gerações

Mesmo antes de receber oficialmente o título de mestre, Barto já ministrava aulas em academias e escolas do Distrito Federal. Ao longo dos anos, ensinou capoeira em instituições públicas e privadas, passando por academias tradicionais, centros comunitários, unidades do Sesc, ACM e diversas escolas da rede pública.

Em determinado período, chegou a atender aproximadamente 500 alunos simultaneamente, conciliando o trabalho como servidor público com a atividade de professor de capoeira. Segundo ele, a capoeira sempre foi mais do que uma profissão. “Nunca enxerguei apenas como trabalho. Era uma missão de formar pessoas”, afirmou.

Escola transforma mestre em patrimônio

Após ingressar no serviço público do Distrito Federal em 1976, Barto passou a atuar em escolas da rede pública. Mesmo depois da aposentadoria, em 2010, permaneceu oferecendo aulas de capoeira.

Segundo ele, as sucessivas direções escolares mantiveram o projeto em funcionamento por reconhecerem sua importância para a comunidade. “Sempre dizem que não podem mexer porque esse trabalho já faz parte da história da escola”, relatou.

Mestres espalhados pelo Brasil

Ao longo de sua caminhada, Grão-Mestre Barto formou cerca de vinte mestres que hoje atuam em diferentes estados brasileiros. Entre eles estão Belo Horizonte, Cléber, Léo, Pezão, Ribau, Juninho Garibaldi, Sardinha, Shirley, Alexandre — seu filho — e diversos outros que mantêm vivo o legado aprendido em Brasília.

Segundo ele, ver antigos alunos formando novas gerações representa uma das maiores recompensas da carreira. “Eles sabem que estão no meu coração. Cada mestre formado representa a continuidade dessa história”, afirmou.

Capoeira levou o mestre ao exterior

O reconhecimento conquistado ao longo da carreira também abriu portas internacionais. Em 2002, Barto participou do 3º Encontro Internacional de Capoeira, realizado no Canadá, onde visitou Toronto, Montreal e Quebec. Durante a viagem recebeu convite para permanecer no país como professor.

Apesar da oportunidade, decidiu retornar ao Brasil. Segundo ele, preferiu concluir sua carreira no serviço público antes de assumir um novo desafio no exterior. “Não quis trocar o certo pelo duvidoso. Depois da aposentadoria, continuei vivendo a capoeira com tranquilidade”, explicou.

A capoeira além dos movimentos

Para Grão-Mestre Barto, a evolução dentro da capoeira não está apenas na capacidade física. Ele acredita que o verdadeiro aprendizado acontece quando o conhecimento técnico se transforma em sabedoria. Segundo o mestre, a idade modifica o corpo, mas amplia a compreensão da arte. “Conhecimento sozinho não basta. O importante é transformar conhecimento em sabedoria. Aí sim a capoeira cumpre seu verdadeiro papel”, destacou.

Legado construído com fé e perseverança

Ao encerrar a entrevista, o mestre deixou uma mensagem dirigida às novas gerações de capoeiristas. Defendeu a importância da persistência, da disciplina e da fé como pilares para qualquer trajetória de sucesso. “Nunca desistam dos seus objetivos. Todos nós caímos, levantamos, sacudimos a poeira e seguimos em frente. Deus é nosso alicerce e a capoeira nos ensina exatamente isso: continuar caminhando”, concluiu.

Mais do que um mestre da luta, Grão-Mestre Barto tornou-se um dos principais guardiões da memória da capoeira no Distrito Federal. Sua trajetória atravessa gerações e reafirma a capoeira como patrimônio cultural brasileiro, instrumento de educação, inclusão social e valorização da ancestralidade afro-brasileira.

Confira a íntegra da entrevista Papoeirando com o Mestre Barto:

Deixe um comentário