Altaci Kokama leva ancestralidade, educação e defesa do Cerrado à disputa pela Câmara Legislativa do DF
Primeira professora indígena da Universidade de Brasília, candidata a deputada distrital pelo PT defende políticas públicas para educação, saúde, meio ambiente e direitos humanos e afirma que presença indígena nos espaços de decisão pode representar mudança histórica no Distrito Federal
Por Paulo Miranda – Brasília (DF) – A ancestralidade indígena, a experiência acadêmica e uma trajetória de atuação em defesa da educação, dos territórios e dos direitos dos povos tradicionais são os principais elementos que Altaci Kokama, primeira professora indígena da Universidade de Brasília (UnB), apresenta em sua candidatura a deputada distrital pelo PT. Em entrevista ao programa Brasília Notícias, da TV Comunitária de Brasília, na terça-feira (11), a professora defendeu maior presença indígena nos espaços institucionais e colocou a proteção do Cerrado entre as prioridades de sua plataforma política.
Entrevistada pelo jornalista Paulo Miranda, Altaci apresentou sua história pessoal, acadêmica e de militância e falou sobre propostas para educação, saúde, transporte público, meio ambiente e direitos humanos. A professora também defendeu uma concepção participativa de mandato, com diálogo permanente com as comunidades do Distrito Federal.
Do Alto Solimões à Universidade de Brasília
Originária de Santo Antônio do Içá, no Alto Solimões, Amazonas, Altaci pertence ao povo Kokama, presente na região da tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia.
Ao falar sobre sua chegada a Brasília, a professora relacionou sua própria trajetória aos processos históricos de deslocamento dos povos indígenas. Hoje, como primeira professora indígena da UnB, interpreta sua presença na capital como uma espécie de retorno às origens e de reconquista simbólica de espaços.
“Eu estou aqui hoje reconquistando o nosso território como uma primeira professora indígena da Universidade de Brasília”, afirmou.
A candidata disse que sua formação acadêmica nunca esteve dissociada da atuação social. Aos 19 anos, deixou seu território e mudou-se para Manaus, onde participou de lutas por moradia, saúde e educação.
Segundo Altaci, essa experiência a levou à universidade e ajudou a definir o sentido que daria ao conhecimento acadêmico.
“Tudo que eu aprendi, me fez criar, fundar a Gerência de Educação Escolar Indígena de Manaus”, contou. A professora afirmou ter sido a primeira mulher indígena a ocupar a gerência na capital amazonense e também destacou sua participação em projetos de pós-graduação e trabalhos com povos e comunidades tradicionais.
Conhecimento acadêmico a serviço das comunidades
Durante a entrevista, Altaci afirmou que procura colocar sua formação a serviço das lutas coletivas.
“Nenhum conhecimento que eu aprendi na universidade foi para uso pessoal, e sim sempre colocando à disposição da luta”, declarou.
Em Brasília, a professora diz manter projetos em regiões administrativas, escolas e assentamentos. A experiência acumulada nessas atividades também está entre as razões apresentadas por ela para ingressar na disputa eleitoral.
Para Altaci, determinadas iniciativas sociais não podem depender apenas da disposição individual ou de recursos particulares. É necessário transformá-las em políticas públicas financiadas e executadas pelo Estado.
A candidata afirma que pretende levar essa perspectiva à Câmara Legislativa, buscando políticas que alcancem escolas, professores, comunidades e territórios “com dignidade”.
Representatividade indígena nos espaços de poder
A candidatura também coloca em discussão a presença dos povos originários nas instituições políticas do Distrito Federal.
Altaci afirmou que sua caminhada busca demonstrar que indígenas possuem formação e capacidade para ocupar diferentes espaços da sociedade.
“Os povos indígenas têm competência e podem ocupar todos os lugares. E é por isso que nós estamos nesta caminhada”, declarou.
A identidade cultural aparece de maneira explícita na campanha. Durante a entrevista, a professora explicou a importância de seus grafismos, vestimentas, maracá e do Lori Louri, adereço que recebeu de presente de um pajé durante uma edição do Acampamento Terra Livre (ATL).
Para ela, esses elementos expressam uma ancestralidade que não está presente apenas no discurso, mas também nos símbolos e nas práticas culturais que acompanham sua atuação pública.
Defesa do Cerrado é prioridade
A proteção ambiental ocupou parte central da entrevista. Altaci defendeu políticas voltadas à preservação do Cerrado e das nascentes existentes no Distrito Federal.
A professora afirmou que percorre diferentes territórios e conhece iniciativas comunitárias de proteção dos chamados “olhos d’água”, nascentes que alimentam cursos hídricos e desempenham papel importante nos ecossistemas do Cerrado.
Para a candidata, a concepção indígena de território permite compreender que a preservação ambiental não beneficia somente os povos originários ou as comunidades diretamente localizadas em determinada área.
“Quando se cuida da natureza, não é somente para nós, povos indígenas”, afirmou.
Altaci relacionou a proteção das nascentes do Cerrado à segurança hídrica e sustentou que decisões políticas tomadas no Distrito Federal possuem consequências ambientais que ultrapassam os limites da capital.
A candidata defendeu ainda o reconhecimento dos direitos da natureza e de todas as formas de vida, relacionando a proteção ambiental à própria sobrevivência humana.
“Defender o meio ambiente é defender a nossa própria vida, é defender a Mãe Terra”, declarou.
Campanha percorre diferentes regiões do DF
Apesar de sua forte ligação com a Universidade de Brasília, Altaci afirmou que sua campanha não ficará restrita ao ambiente acadêmico.
A professora diz estar percorrendo diferentes regiões do Distrito Federal, inclusive por meio da realização de saraus, rodas de conversa e encontros com comunidades.
Ela também relatou manter diálogo com comunidades indígenas que vivem no DF e destacou que sua trajetória profissional na universidade antecede a candidatura.
“Eu não estou aqui porque estou começando agora. Eu já tenho um trabalho dentro da Universidade de Brasília”, afirmou, citando seu compromisso com educação, meio ambiente e direitos das mulheres.
Transporte, saúde e educação entram na pauta
Na parte final da entrevista, Altaci ampliou o debate para problemas cotidianos enfrentados pela população brasiliense.
A candidata citou as dificuldades do transporte coletivo, especialmente para moradores que precisam realizar grandes deslocamentos entre as regiões administrativas. Também mencionou filas para atendimento e exames na rede pública de saúde e problemas enfrentados pelas escolas.
“Pegar ônibus não é fácil”, afirmou. “Estamos vendo a ineficiência do transporte público.”
Na educação, apontou falta de professores, escolas e materiais. Na saúde, destacou a carência de médicos e a espera por atendimento.
Para a professora, essas questões precisam ser consideradas pelo eleitor no momento de avaliar a atuação dos representantes políticos.
Proposta de mandato participativo
Altaci defendeu ainda que, caso eleita, pretende construir um mandato com participação social.
“Meu mandato, se for, é participativo junto com vocês, no transporte, na saúde, no meio ambiente, na educação e em todas as pautas necessárias”, afirmou.
A candidata definiu a defesa dos direitos humanos e do direito à vida como princípios que pretende levar à Câmara Legislativa.
Ao encerrar sua participação no Brasília Notícias, Altaci Kokama apresentou a candidatura como continuidade de uma trajetória que começou nas lutas por direitos no Amazonas, passou pela universidade e chegou à atuação com comunidades do Distrito Federal.
Sua presença na disputa eleitoral acrescenta uma dimensão histórica ao debate sobre representação política na capital do país. Mais do que ocupar um espaço institucional, a professora propõe levar para dentro da Câmara Legislativa uma perspectiva construída a partir da ancestralidade indígena, da educação, da defesa dos direitos humanos e da compreensão de que proteger o Cerrado e suas águas significa também proteger a vida das atuais e futuras gerações.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília

