Paulo Miranda e a longa marcha da comunicação popular
Por João Guató – Fonte: Pasquim Cuiabano João Guató
Na política, há quem faça carreira distribuindo discursos. Na comunicação comunitária, há quem passe a vida inteira distribuindo voz. São coisas bem diferentes.
As informações enviadas por Geremias dos Santos, presidente da Abraço Brasil, revelam a trajetória de Paulo Miranda como uma das figuras que ajudaram a desenhar a comunicação popular no país. Não se trata apenas de um jornalista. Trata-se de um militante da democratização da palavra.
Quando Brasília ainda aprendia a conviver com as rádios livres, nos anos 1980, Paulo Miranda já experimentava o que significava enfrentar o monopólio da informação. Da Rádio Fantasma à Rádio ParaNoAr, passando pela Gama Livre, Varjão e outras experiências comunitárias, havia uma convicção simples: comunicação não pode ser privilégio de poucos.
A caminhada continuou na década seguinte, com a criação do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), a atuação na Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e no Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal. Em cada etapa, o objetivo era o mesmo: fortalecer a liberdade de expressão e garantir espaço para quem nunca teve vez nos grandes meios.
Essa militância também ajudou a construir políticas públicas. Paulo Miranda participou das discussões que resultaram no Sistema Brasileiro de TV Digital, na criação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), na realização da CONFECOM e na aprovação da Lei do Serviço de Acesso Condicionado (SeAC). Também colaborou para reduzir a burocracia que durante anos dificultou a vida das rádios e televisões comunitárias.
Sua principal obra, talvez, seja a TV Comunitária de Brasília, que completa 29 anos. Um canal que não nasceu para disputar audiência com gigantes da televisão comercial, mas para cumprir uma missão mais difícil: abrir espaço para crianças, idosos, estudantes, lideranças comunitárias e movimentos sociais. Em tempos de algoritmos que decidem o que cada cidadão deve assistir, isso parece quase um ato de rebeldia democrática.
O programa Abraço Entrevista (link abaixo), promovido pela Abraço Brasil, aproveita esse aniversário para discutir não apenas a história da TV Comunitária, mas também o momento político da comunicação independente, comunitária, sindical e popular no atual governo. É um debate que permanece necessário num país onde a concentração dos meios de comunicação ainda desafia o pluralismo previsto na Constituição.
No fim das contas, a história de Paulo Miranda mostra que antenas, transmissores e câmeras são apenas ferramentas. O que realmente sustenta a comunicação popular é a persistência de quem acredita que democracia não se faz apenas nas urnas. Também se constrói quando o cidadão comum encontra um microfone aberto para contar a própria história. Afinal, quem tem medo da voz do povo quase sempre prefere o silêncio ao contraditório. E o silêncio, esse sim, nunca foi um bom aliado da democracia.
Confira a íntegra da entrevista de Paulo Miranda à ABRAÇO Brasil:
