Rosi Costa leva pauta das mães à disputa pela Câmara Legislativa do Distrito Federal
Professora, doutora em Literatura e liderança do Movimento Autônomo de Mães, candidata defende creches públicas, educação integral, política de cuidado, saúde, transporte e participação popular nas decisões do DF
Por Nayá Tawane (jornalista)
Brasília (DF) – Mulher negra, mãe, professora e militante da maternidade, Rosi Costa decidiu transformar uma trajetória construída nos movimentos sociais em candidatura à Câmara Legislativa do Distrito Federal. Em entrevista ao programa Brasília Notícias, da TV Comunitária de Brasília, apresentado pela jornalista Nayá Tawane, ela afirmou que sua entrada na disputa eleitoral nasceu da percepção de que as mães precisam deixar de ser apenas aquelas que apresentam demandas ao poder público e passar também a ocupar os espaços onde as decisões são tomadas.
Professora e doutora em Literatura, Rosi integra a liderança do Movimento Autônomo de Mães (Mama DF) e construiu sua atuação principalmente em torno do direito ao cuidado, à educação infantil, à saúde, à autonomia das mulheres e à valorização da maternidade como questão política e social. “Precisamos ser mais do que quem leva a demanda. Nós precisamos também ser a pessoa que segura a caneta e toma a decisão”, afirmou.
Movimento nasceu durante a pandemia
O Mama surgiu em 2021, ainda durante a pandemia de Covid-19. Segundo Rosi, a mobilização teve origem em uma articulação de mães lactantes que buscavam prioridade na vacinação para proteger também os bebês por meio da amamentação. O movimento começou com um grupo organizado inicialmente na Bahia e rapidamente alcançou dimensão nacional. De acordo com Rosi, a mobilização contribuiu para a aprovação de mais de uma centena de leis e para o reconhecimento das lactantes como grupo prioritário na vacinação.
Em 8 de agosto de 2021, foi fundado oficialmente o Movimento Autônomo de Mães. A partir daí, a atuação se ampliou para outras demandas relacionadas à maternidade. No Distrito Federal, uma das principais frentes passou a ser a luta por creches públicas. Rosi afirma que, a partir de 2023, o Mama se tornou uma das principais articulações da sociedade civil organizada em torno do tema, além de atuar pelo direito das crianças ao brincar e pela garantia de condições adequadas para mulheres que amamentam.
“A dor deixa de ser individual e vira demanda coletiva”
Para a candidata, uma das principais lições aprendidas no movimento social foi perceber que dificuldades enfrentadas individualmente por milhares de mulheres podem se transformar em reivindicações políticas quando organizadas coletivamente. “Quando a gente vai para o movimento social, a gente deixa de ser uma e nós passamos a ser mil, passamos a ser duas mil”, disse.
Segundo ela, problemas cotidianos vividos pelas mães — como falta de vaga em creche, ausência de atendimento de saúde ou dificuldade no transporte — não podem ser tratados apenas como dramas privados. “Quando essa dor é comunitária, quando essa dor é social, ela vira demanda de todo mundo”, afirmou.
Creche é direito da criança e instrumento de autonomia das mulheres
Um dos temas centrais da entrevista foi a ampliação das vagas em creches. Rosi contestou a ideia de que a creche seja apenas uma forma de “ajudar a mãe”. Para ela, trata-se de um direito educacional da própria criança e, ao mesmo tempo, de uma política essencial para garantir a autonomia das famílias, especialmente das mulheres. “Creche é direito subjetivo da criança. Creche é educação, creche é etapa de ensino”, afirmou.
A candidata observou que muitas mulheres abandonam estudos e carreiras profissionais para assumir sozinhas ou majoritariamente as responsabilidades do cuidado. Nesse sentido, a oferta de creches também permite que as mães permaneçam no mercado de trabalho, estudem e mantenham maior independência econômica. “A creche é direito da mulher para que ela possa manter a sua autonomia”, resumiu.
Educação integral, saúde e transporte estão entre as demandas
Para Rosi, a falta de creches é apenas uma das dificuldades enfrentadas pelas famílias no Distrito Federal. Ela defendeu a ampliação da educação em tempo integral, argumentando que crianças pequenas continuam necessitando de proteção e acompanhamento mesmo depois de ingressarem na pré-escola.
A candidata também apontou problemas no acesso à saúde, inclusive para as próprias mães, e destacou a necessidade de políticas específicas para mães atípicas e famílias de pessoas com deficiência ou neurodivergentes. Outro problema citado foi o transporte coletivo. Segundo Rosi, muitas mães chegam a gastar entre duas e três horas por dia em deslocamentos, tempo que poderia ser dedicado aos filhos e à convivência familiar.
“A escola boa é aquela em que eu matricularia meu filho”
Na educação, Rosi defende que o padrão de qualidade das escolas públicas seja semelhante em todas as regiões administrativas do Distrito Federal. “A escola boa é uma escola que eu matricularia meu filho”, afirmou. Para ela, uma escola pública de qualidade precisa ter professores e demais profissionais em número suficiente, quadras esportivas, bibliotecas, alimentação adequada e turmas menores.
Rosi criticou situações em que crianças de quatro ou cinco anos estão em salas com cerca de 30 alunos sob responsabilidade de apenas um professor. Mais do que infraestrutura, afirmou, a escola precisa oferecer aos jovens uma perspectiva concreta de futuro. “A escola que eu sonho é essa escola que traz principalmente para os adolescentes e jovens uma perspectiva de futuro”, disse.
Pauta das mães ultrapassa a maternidade
Durante a entrevista, Rosi também respondeu ao argumento de que sua candidatura estaria limitada às questões maternas. Segundo ela, a maternidade orienta sua atuação, mas não restringe sua agenda política.
Ao defender educação, saúde e assistência social para as mães e crianças, argumenta, uma parlamentar também precisa necessariamente olhar para profissionais dessas áreas, para os idosos, para a juventude, para geração de empregos e para as demais estruturas que sustentam as famílias. “A maternidade define a minha pauta, mas ela não me limita”, declarou.
Candidata propõe “Gabinete das Mães”
Caso eleita, Rosi pretende criar um Gabinete das Mães, proposta que, segundo ela, vai além de colocar mães na equipe parlamentar. A ideia é criar um espaço adaptado para receber famílias e crianças e, ao mesmo tempo, desenvolver um modelo itinerante, capaz de percorrer os territórios onde vivem as pessoas que serão atendidas pelo mandato.
“Esse gabinete das mães precisa também estar onde as mães estão”, explicou. A candidata defende ainda que movimentos sociais participem não apenas da apresentação das demandas, mas também da construção das decisões do mandato. “Quem traz a demanda também toma essa decisão”, afirmou.
Política do cuidado é principal proposta
Entre as propostas apresentadas, Rosi colocou como prioridade a criação de uma política integrada de cuidado no Distrito Federal. A ideia é aproximar diferentes serviços públicos para que saúde, educação e assistência social compartilhem informações e desenvolvam um atendimento articulado às famílias. Ela também defendeu a criação de cuidotecas, espaços de apoio para pais e mães que trabalham em horários em que creches e escolas convencionais não funcionam.
Outra proposta é ampliar os chamados centros-dia para pessoas idosas, pessoas com deficiência e neurodivergentes, garantindo espaços de convivência e permitindo que familiares e cuidadores possam estudar ou trabalhar. “O meu sonho para o DF é esse lugar do cuidado”, afirmou. Para ela, isso exige fortalecer simultaneamente educação, saúde, assistência social e demais serviços públicos.
Participação política e poder do voto
Rosi também abordou a descrença de parte da população na política institucional. Para a candidata, não participar das decisões não significa ficar fora da política, porque outras pessoas continuarão decidindo. “Se eu não decido, alguém vai decidir por mim”, afirmou.
Segundo ela, o voto permite modificar a composição dos espaços de poder e escolher representantes que tenham relação direta com as experiências vividas pela população. Rosi contou que iniciou sua militância política aos 13 anos, motivada por problemas enfrentados no bairro onde morava, e passou posteriormente pelas militâncias estudantil, religiosa e sindical.
“Foi a pauta que construiu a candidata”
A candidata afirmou que sua entrada na política eleitoral não surgiu da escolha de um tema para construir uma candidatura, mas de um processo inverso. “A diferença é que eu não construí uma pauta para virar candidata. Foi a pauta que construiu a candidata”, declarou.
Segundo ela, a experiência acumulada na militância e, principalmente, no movimento de mães revelou uma lacuna na representação política. O objetivo agora, afirmou, é fazer com que “a rua” e os movimentos sociais ocupem também os espaços institucionais de tomada de decisões.
Ao final da entrevista, Rosi Costa fez um chamado especialmente às mulheres para que participem da política e da construção de políticas públicas. Ela reconheceu a sobrecarga cotidiana enfrentada pelas mães, mas afirmou que é justamente por causa das dificuldades vividas pelas famílias que a participação política se torna necessária. “É por mim e pelo meu filho, é por nós e pelos nossos filhos que a gente precisa neste momento se envolver na luta política”, afirmou.
Da luta por vacinação durante a pandemia à mobilização por vagas em creches, a trajetória apresentada por Rosi Costa coloca a economia do cuidado no centro de uma candidatura que busca transformar experiências cotidianas das mães em políticas públicas. Em sua concepção, garantir cuidado significa articular educação, saúde, assistência, transporte, trabalho e proteção social — e fazer com que quem conhece essas dificuldades também participe diretamente das decisões sobre o futuro do Distrito Federal.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
