Professor da UnB aponta “nova onda autoritária” na América Latina e vê disputa por recursos e soberania por trás das tensões com os Estados Unidos
Em entrevista ao programa Latitude Brasil, Jacques Novion analisa historicamente a política dos Estados Unidos para a América Latina e afirma que pressões sobre o Brasil devem ser compreendidas no contexto da disputa geopolítica, da aproximação com China e Rússia e do controle de recursos estratégicos
Brasília (DF) — As atuais tensões entre Brasil e Estados Unidos não seriam um episódio isolado, mas parte de uma longa trajetória de disputas pela influência política, econômica e estratégica sobre a América Latina e o Caribe. A avaliação é do professor Jacques Novion, do Departamento de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Brasília (UnB), entrevistado pelo jornalista Carlos Alberto Almeida no programa Latitude Brasil, produzido para exibição na TeleSur.
Durante a entrevista, Novion apresentou uma leitura histórica das relações entre Washington e os países latino-americanos. Para ele, diferentes estratégias adotadas pelos Estados Unidos desde o final do século XIX tiveram como característica comum a tentativa de manutenção de uma posição hegemônica no continente.
O professor sustenta que as atuais divergências precisam ser observadas dentro desse processo histórico e considera que o momento representa uma tentativa de retomada do controle político sobre a América Latina e o Caribe.
Do “Big Stick” às novas formas de pressão
Ao recuperar mais de um século de relações interamericanas, Novion identificou diferentes etapas da política norte-americana para a região. A primeira delas estaria relacionada ao pan-americanismo do final do século XIX, acompanhado pela política do Big Stick e pela chamada diplomacia do dólar.
Na interpretação do professor, a relação construída naquele período era assimétrica: países que aceitassem as condições impostas recebiam investimentos e aproximação econômica; aqueles que resistissem poderiam enfrentar diferentes formas de pressão.
Novion relaciona essa lógica inclusive à questão histórica da dívida externa dos países latino-americanos. Para ele, instrumentos econômicos funcionaram, em diferentes momentos, como mecanismos de condicionamento das decisões nacionais. Em seguida, segundo sua análise, vieram outras etapas, como a Política da Boa Vizinhança e o período marcado pelo anticomunismo e pela Aliança para o Progresso.
O professor também relacionou esse processo ao apoio dos Estados Unidos a governos autoritários e às ditaduras civis-militares instaladas na América Latina durante o século XX. Ao abordar a Operação Condor, classificou a articulação repressiva entre as ditaduras sul-americanas como uma espécie de “integração da morte”, responsável pela perseguição a diferentes projetos políticos e sociais existentes na região.
Brasil estaria diante de tentativa de desestabilização, avalia professor
Questionado sobre as atuais relações entre Brasília e Washington, Novion afirmou que, em sua avaliação, a situação teria ultrapassado os mecanismos tradicionais de pressão econômica. Para o professor, haveria atualmente uma tentativa de interferência sobre o ambiente político brasileiro às vésperas das eleições.
“Entendo este momento como já francamente uma tentativa de desestabilização”, declarou, associando o cenário ao processo eleitoral brasileiro. A afirmação representa a análise política do entrevistado e, no material fornecido, não é acompanhada de evidências independentes que permitam estabelecer como fato a existência de uma operação de interferência eleitoral.
A disputa internacional em torno do Brasil também foi relacionada, durante a entrevista, à aproximação do país com outras potências. O apresentador mencionou as relações brasileiras com a China e a Rússia e o papel do país nos BRICS. Novion considerou a questão um elemento central para compreender o atual cenário geopolítico e argumentou que a disputa internacional envolve interesses econômicos e estratégicos muito mais amplos.
Professor identifica três fases do neoliberalismo
Um dos principais eixos conceituais apresentados por Novion foi sua interpretação sobre as transformações do neoliberalismo na América Latina. Segundo o professor, seria possível identificar pelo menos três momentos distintos.
O primeiro teria ocorrido principalmente durante a década de 1990, quando políticas de redução do Estado, privatizações e reformas econômicas foram implantadas por governos que chegaram ao poder por processos eleitorais após o ciclo das ditaduras militares.
Novion chamou essa fase, de maneira conceitual e entre aspas, de “neoliberalismo democrático”. Em sua avaliação, aquele modelo teve efeitos profundos sobre serviços públicos, relações de trabalho, sindicatos e estrutura econômica dos países latino-americanos.
A reação social às políticas neoliberais teria contribuído, segundo sua análise, para a ascensão de governos populares e progressistas a partir do final dos anos 1990 e início dos anos 2000.
O professor citou a eleição de Hugo Chávez na Venezuela, a crise argentina de 2001, a mobilização contra a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e os processos de integração regional como manifestações desse novo período.
Políticas sociais e ascensão dos governos populares
Para Novion, esses governos não romperam completamente com a estrutura econômica internacional, mas introduziram uma mudança fundamental: a expansão das políticas sociais. Na avaliação do professor, essas experiências demonstraram a setores populares que políticas públicas poderiam alterar concretamente suas condições de vida.
“O grande ganho que esses governos deram para os nossos povos e as nossas realidades”, afirmou Novion ao tratar das políticas sociais implementadas no período. É nesse contexto que ele identifica o surgimento de uma terceira fase, definida como “neoliberalismo autoritário”.
Novion relaciona esse fenômeno à ascensão de forças políticas que combinariam políticas econômicas neoliberais com discursos autoritários, polarização social e ataques às experiências políticas progressistas da região.
“Terceira onda autoritária”
O professor utiliza ainda o conceito de “terceira onda autoritária” para interpretar o atual cenário latino-americano. Em sua leitura, a primeira onda esteve associada aos governos autoritários da primeira metade do século XX; a segunda, às ditaduras civis-militares do período da Guerra Fria; e a terceira estaria ocorrendo no presente, com novas formas de disputa institucional, econômica e política.
Ao analisar esse processo, Novion citou episódios envolvendo Venezuela, Cuba, Nicarágua, Haiti, Honduras, Paraguai, Bolívia, Argentina e Brasil. A interpretação é apresentada pelo professor como uma chave analítica para compreender diferentes processos nacionais. Algumas das caracterizações feitas durante a entrevista são avaliações políticas do entrevistado e não devem ser confundidas com conclusões consensuais da literatura acadêmica ou com fatos comprovados apenas pela transcrição.
Recursos naturais estão no centro da disputa, diz Novion
Para Jacques Novion, entretanto, reduzir o atual conflito latino-americano a uma disputa convencional entre esquerda e direita impede a compreensão de interesses mais profundos. Segundo ele, o centro da questão continua sendo o controle de recursos naturais, riquezas, biodiversidade, conhecimentos tradicionais e força de trabalho.
“O que se quer é o de sempre: recursos, riquezas, conhecimentos tradicionais, biodiversidade e a força de trabalho”, afirmou. A dimensão ambiental ganha peso especial nessa interpretação. Novion argumenta que o esgotamento de recursos naturais e os limites ambientais do atual modelo de produção tendem a tornar regiões como a Amazônia ainda mais estratégicas na disputa internacional.
Nesse cenário, o Brasil ocupa posição particularmente relevante não apenas por sua dimensão territorial e econômica, mas por sua biodiversidade, reservas de água, recursos minerais, produção de alimentos, capacidade energética e importância geopolítica na América do Sul.
Resistência social como contraponto
Apesar do diagnóstico crítico, Novion encerrou a entrevista afirmando enxergar sinais de reação social às tendências autoritárias que identifica na região. O professor citou mobilizações de jovens no Chile e manifestações populares na Argentina como exemplos de resistência e argumentou que os movimentos sociais latino-americanos possuem uma longa tradição de organização diante de projetos políticos considerados excludentes.
“A reação já começou”, afirmou.
Para Novion, preservar a pluralidade política e a capacidade de organização social será decisivo diante das disputas que se desenham para o continente. O desafio, segundo ele, é impedir que diferenças de pensamento sejam novamente tratadas como ameaças a serem eliminadas, como ocorreu nos períodos autoritários da história latino-americana.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
