Professores denunciam falta de estrutura e cobram investimentos na educação inclusiva do DF
Debate na TV Sinpro aponta carência de profissionais de apoio, tecnologias assistivas, acessibilidade e servidores efetivos nas escolas públicas
Por Paulo Miranda (jornalista) – Brasília — A falta de profissionais de apoio, tecnologias assistivas, acessibilidade e servidores efetivos está comprometendo a educação especial e inclusiva na rede pública do Distrito Federal. A avaliação foi apresentada por professores durante debate promovido pela TV Sinpro, que discutiu as condições das escolas e os impactos da falta de investimentos no atendimento a estudantes e trabalhadores com deficiência.
O programa foi conduzido por Carlos Maciel, diretor do Sinpro-DF e professor da rede pública, com a participação das professoras Érica Curado, pesquisadora e mestranda da Universidade de Brasília (UnB), e Clara Nogueira Marinho, professora de Português da rede pública. A discussão teve como ponto de partida os resultados do Ideb e as condições enfrentadas nas unidades escolares.
Segundo Maciel, problemas como falta de contratação de pessoal, carência de materiais, insuficiência de suporte e necessidade de maior investimento na formação dos profissionais ajudam a explicar as dificuldades enfrentadas pela educação pública. Para os participantes, esse cenário atinge de forma ainda mais intensa a educação especial e inclusiva.
Professora relata falta de acessibilidade
Durante o programa, Clara relatou sua experiência como professora com deficiência e afirmou que, ao retornar à escola pública como profissional, não encontrou o suporte necessário para exercer plenamente suas atividades.
A professora citou a falta de equipamentos e de apoio em sala de aula como algumas das dificuldades enfrentadas. O depoimento ampliou a discussão sobre inclusão ao chamar atenção para a necessidade de garantir acessibilidade não apenas aos estudantes, mas também aos trabalhadores com deficiência.
Érica Curado reforçou a preocupação e afirmou que a precarização afeta estudantes e servidores. Entre os problemas, destacou a falta de educadores sociais e monitores para acompanhar alunos que necessitam de apoio.
“Acessibilidade é necessária tanto para os estudantes quanto para os professores com deficiência”, defendeu.
Educação inclusiva exige investimento
Os participantes defenderam que a qualidade da inclusão depende diretamente do financiamento da educação. Além de prédios acessíveis, as escolas precisam de profissionais capacitados, equipamentos, tecnologias assistivas e formação continuada.
Pesquisadora de tecnologias assistivas, Érica afirmou que a educação especial precisa ocupar espaço efetivo no planejamento orçamentário do Governo do Distrito Federal.
“Tudo demanda recursos na educação inclusiva”, destacou. Segundo ela, são necessários investimentos em recursos materiais, físicos e humanos para garantir condições adequadas de ensino e aprendizagem.
O debate também abordou o Fundo Constitucional do Distrito Federal. Os participantes defenderam mais recursos para a educação e maior atenção às necessidades específicas da política de inclusão.
Capacitismo e barreiras de comunicação
Além das dificuldades materiais, Érica apontou o capacitismo — preconceito contra pessoas com deficiência — como uma barreira que precisa ser enfrentada dentro das escolas e das próprias políticas públicas.
A pesquisadora também chamou atenção para as barreiras de comunicação e defendeu a ampliação da linguagem simples, da Libras e das tecnologias assistivas.
Para ela, a inclusão precisa partir da eliminação das barreiras que impedem ou dificultam a participação plena das pessoas com deficiência no ambiente educacional.
Falta de profissionais sobrecarrega escolas
Outro problema apontado foi a carência de trabalhadores. Carlos Maciel criticou a elevada presença de professores temporários e defendeu concursos públicos e ampliação do quadro efetivo.
O dirigente sindical também relacionou salas lotadas à sobrecarga e ao adoecimento dos professores e defendeu a contratação de profissionais de apoio para estudantes e trabalhadores com deficiência.
Clara relatou que, durante sua experiência profissional, enfrentou elevada carga de trabalho e falta de suporte. Segundo ela, monitores destinados ao acompanhamento de estudantes com deficiência chegaram depois do início das aulas e em quantidade insuficiente.
Rotatividade prejudica vínculos
Com dez anos de experiência na Secretaria de Educação, incluindo atuação no Atendimento Educacional Especializado, Érica afirmou que a permanência de professores e profissionais de apoio nas escolas é importante para a criação de vínculos com os estudantes.
A rotatividade decorrente dos vínculos temporários, segundo ela, pode interromper projetos e dificultar a continuidade do acompanhamento pedagógico, particularmente no caso de estudantes que necessitam de apoio especializado.
“O estudante com deficiência não é ele que tem que se adaptar à escola, a escola tem que se adaptar a ele”, afirmou.
Por isso, os participantes defenderam a realização de concursos públicos e a formação permanente dos profissionais de apoio como medidas necessárias para fortalecer a política de inclusão.
“Não vamos regredir”
No encerramento, os professores defenderam uma escola pública capaz de acolher as diferenças e assegurar condições adequadas de aprendizagem e trabalho.
“A escola pública hoje acolhe toda a diversidade. Então, quando nós defendemos a educação inclusiva, nós estamos defendendo a diversidade na escola pública”, afirmou Érica.
A pesquisadora reforçou que a presença das pessoas com deficiência na escola é uma conquista que precisa ser preservada e ampliada.
“As pessoas com deficiência estão na escola pública e nós não vamos regredir”, concluiu.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
