Ferrock celebra quatro décadas de resistência cultural com dois dias de música gratuita em Ceilândia
Um dos mais tradicionais festivais independentes do Distrito Federal volta a ocupar Ceilândia neste fim de semana. Nos dias 6 e 7 de setembro, o Ferrock realiza mais uma edição de sua histórica jornada de música, cultura e mobilização social, reunindo dez bandas, DJs, feira de economia solidária e ações de conscientização. A programação é gratuita e ocorre das 10h às 20h. Criado há quatro décadas em Ceilândia, o Ferrock ultrapassou há muito tempo os limites de um festival exclusivamente dedicado ao rock. Ao longo de sua trajetória, transformou o palco em espaço para manifestações da cultura popular, ações educativas, defesa da diversidade e debates sobre problemas sociais.
Os produtores Ari de Barros e Fernando Benício falaram sobre a edição deste ano durante entrevista ao programa Baú Musical, da TV Comunitária de Brasília. Segundo eles, a programação terá seis bandas no domingo e quatro na segunda-feira, feriado da Independência. O encerramento ficará por conta do Black Pantera, trio mineiro que conquistou projeção nacional e internacional com uma combinação de metal, hardcore e letras marcadas pelo enfrentamento ao racismo.
Saúde mental entra na pauta do festival
A edição de 2026 terá como uma das preocupações centrais a saúde mental, em sintonia com as mobilizações do Setembro Amarelo. Ari de Barros explicou que os organizadores decidiram incorporar o tema diante da necessidade de ampliar o debate sobre sofrimento emocional e intolerância. Segundo o produtor, a preocupação extrapola o universo do rock e está relacionada ao ambiente social mais amplo. A intenção é utilizar a capacidade de mobilização da música para estimular reflexão, convivência e respeito às diferenças.
Ferrock presta homenagem a Célio de Moraes
Outro momento especial será a homenagem ao músico e contrabaixista Célio de Moraes, que morreu em abril e deixou uma trajetória ligada à cena musical do Distrito Federal. Ari destacou a importância do músico para diferentes gerações do rock brasiliense e para a própria história do Ferrock. “Ele é uma pessoa muito importante para a cena do rock do Distrito Federal e para o Ferrock também”, afirmou o produtor.
A homenagem deverá reunir músicos que dividiram palcos e projetos com Célio. Integrantes e convidados de diferentes bandas participarão da apresentação, recuperando músicas que fizeram parte de sua trajetória. Fernando Benício lembrou que Célio passou por diversos grupos e construiu relações com grande parte dos músicos da cena local. A expectativa dos organizadores é transformar o encontro em uma celebração coletiva de sua contribuição à música do DF.
Rock dialoga com reggae, blues e cultura popular
A diversidade musical permanece como uma das características do Ferrock. Embora tenha nascido e se consolidado como festival de rock, o evento historicamente abre espaço para outras expressões. Blues, reggae e diferentes manifestações populares passaram a conviver com guitarras e baterias ao longo dos anos.
Nesta edição, a Nave Louca, de Olhos d’Água, representa o blues. A programação também inclui reggae e diferentes vertentes do rock, do underground ao gótico. Essa mistura não é novidade. Fernando Benício lembrou que o festival já recebeu dança de coco, repentistas, teatro de mamulengos, catira e manifestações como o boi-bumbá. Em uma das edições, segundo os produtores, o Sepultura se apresentou depois de Martinha do Coco. O encontro entre expressões aparentemente distantes acabou sintetizando uma característica que o Ferrock procura preservar: colocar manifestações culturais diferentes diante do mesmo público.
Trabalho continua dentro das escolas
O Ferrock também não se resume aos dois dias de shows. Durante o ano, o projeto desenvolve atividades em escolas públicas de Ceilândia, levando apresentações culturais, teatro de bonecos e manifestações tradicionais para estudantes. A proposta, segundo os produtores, é aproximar crianças e adolescentes tanto da música quanto de expressões da cultura popular que nem sempre encontram espaço nos grandes festivais. “O Ferrock acontece o festival uma vez por ano, mas durante o ano inteiro ele percorre as escolas de Ceilândia”, destacou Fernando. Essa atuação ajuda a explicar a longevidade do projeto. O festival procura manter vínculos com o território onde nasceu e combinar entretenimento com formação cultural.
Palco para quem historicamente ficou sem palco
Outro princípio defendido pelos organizadores é abrir espaço para artistas que encontram dificuldades para acessar os grandes circuitos culturais.Fernando citou artistas populares que muitas vezes sobrevivem de apresentações em espaços públicos, como rodoviárias, feiras e ruas, sem acesso regular a cachês, estrutura profissional ou grandes plateias. Para ele, esses trabalhadores também precisam ser reconhecidos como profissionais da cultura.“Aquele sanfoneiro que está na rodoviária é um artista. Ele precisa desse fomento para poder sobreviver”, afirmou.
A lógica do Ferrock, segundo os produtores, é justamente criar encontros: colocar o público do rock diante da cultura popular e permitir que artistas de diferentes linguagens compartilhem estrutura, recursos e visibilidade.
Neurodiversidade ganha espaço
A inclusão de pessoas com deficiência e neurodivergentes também aparece na programação. Entre as atrações está a banda Amados Mortos, de Goiânia. De acordo com Fernando Benício, cerca de 40% dos integrantes do grupo são pessoas autistas ou neurodivergentes.
O produtor destacou o potencial da música como instrumento de expressão e inclusão e afirmou que a presença do grupo também envia uma mensagem às pessoas com deficiência que estarão na plateia. Em edições anteriores, o Ferrock promoveu a participação de pessoas com deficiência visual em outras atividades realizadas durante o evento. “Essas pessoas não podem ficar à margem da cultura”, defendeu Fernando.
Black Pantera encerra festival com mensagem antirracista
A segunda-feira terá como principal atração o Black Pantera, de Minas Gerais. O grupo tornou-se conhecido por utilizar o peso do rock para abordar racismo, desigualdade e resistência negra. Para os organizadores, a escolha dialoga diretamente com o perfil histórico do Ferrock de utilizar a cultura como instrumento de debate social.
Fernando também relacionou a programação ao enfrentamento da violência contra as mulheres e do feminicídio. Segundo ele, o festival procura transformar esses temas em debates que ultrapassem os discursos do palco e cheguem às escolas, professores, estudantes e comunidades. “A política pública é alcançada por meio da cultura e por meio do Ferrock”, afirmou.
Mulheres empreendedoras terão feira própria
Além dos shows, o público encontrará uma feira de economia solidária e economia criativa formada por mulheres empreendedoras de Ceilândia. Segundo os produtores, o espaço é coordenado por Brisa e busca fortalecer a autonomia econômica e dar visibilidade à produção das mulheres da região. A feira amplia o caráter comunitário do festival ao fazer circular renda no próprio território e aproximar cultura e economia solidária.
Consciência ambiental
A preocupação ambiental também estará presente. Durante a entrevista, Ari de Barros chamou atenção para o período de seca no Distrito Federal e fez um apelo para que a população evite queimadas de lixo e entulho e não descarte pontas de cigarro em áreas de vegetação. Com temperaturas elevadas e baixa umidade, pequenas fagulhas podem provocar incêndios de grandes proporções. A questão ambiental já faz parte da atuação do projeto. O próprio Ferrock realizou edições e atividades voltadas à ecologia e utiliza sua programação cultural para estimular debates sobre preservação.
Uma história construída em Ceilândia
Quatro décadas depois de seu nascimento, o Ferrock permanece profundamente ligado a Ceilândia. A longevidade não se explica apenas pelos nomes que já passaram por seus palcos, mas pela capacidade de manter uma identidade própria: rock independente, cultura popular, trabalho comunitário, educação, diversidade e compromisso social. A presença de DJs tocando vinil nesta edição será também uma referência simbólica às origens do festival e às primeiras gerações que construíram sua história. Agora, novas gerações dividem o espaço com músicos veteranos e ajudam a manter o projeto em movimento.
Nos dias 6 e 7 de setembro, das 10h às 20h, Ceilândia volta a ser ponto de encontro de diferentes gerações e estilos. Com entrada gratuita, dez bandas, DJs, economia solidária, homenagem, inclusão e mobilização social, o Ferrock reafirma uma característica construída ao longo de sua história: mais do que colocar bandas no palco, o festival utiliza a música para dar palco a pessoas, culturas e causas que nem sempre encontram espaço no circuito tradicional.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
