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Rebater as três mentiras do “Rachadinha”

Rebater as três mentiras do “Rachadinha”

No 2º turno, Lula precisará desmentir Flávio sobre endividamento das famílias/taxa de juros; segurança pública e STF

Foto: Ricardo Stuckert e Raul Spinassé/Divulgação

Júlio Miragaya (*)

Para além da migração de “voto útil” de “candidatos nanicos” para Flávio (cerca de 2 milhões ou 2%), alguma coisa impactou o eleitorado na reta final, fazendo com que o resultado tenha sido 47% a 45% para o candidato da extrema-direita. Terá sido impacto negativo da proibição das bets? (não detectado pelas pesquisas). Reação do eleitorado evangélico à polêmica sobre Nossa Senhora? A não ida ao debate da Globo?

Mas uma coisa é fato: Lula perdeu apoio do eleitorado comparativamente ao 1º turno de 2022, refluindo de 57,26 milhões para 53,88 milhões (3,38 milhões de votos a menos). Já Flávio teve 5,03 milhões a mais que seu pai em 2022 (51,07 milhões para 56,10 milhões). Para essa perda de votos, qual o peso da desaceleração da economia em 2026? E das restrições orçamentárias impostas pelo arcabouço fiscal?

Na Região Nordeste a queda da votação foi pequena (257 mil votos), mas somente a ampla vantagem obtida no Nordeste mais parte do Norte (Pará/Amazonas/Amapá) não é mais suficiente para garantir a reeleição. Ela permaneceu enorme (11,43 milhões de votos), mas diminuiu 2,23 milhões em relação à obtida em 2022 (13,66 milhões) pelo aumento da votação na direita.

O problema é que a vantagem da direita no Centro-Sul teve forte crescimento. Em São Paulo, dobrou de 1,75 milhão para 3,42 milhões de votos; no Paraná, saltou de 1,26 milhão para 1,89 milhão; no Rio Grande do Sul, triplicou de 440 mil para 1,28 milhão; e em Minas Gerais, de 560 mil votos a mais que Jair em 2022, Lula foi agora superado por Flávio por 590 mil votos.

Significa que tudo está perdido? De forma alguma. Haverá 13 programas no horário eleitoral gratuito; debates entre Lula e Flávio nos quais Lula deverá demonstrar que é efetivamente mais preparado para governar o País; e há a aguerrida militância do PT e dos partidos aliados. É verdade que Flávio sai com vantagem de 2,2 milhões de votos. E é provável que consiga se apropriar de metade dos eleitores dos “candidatos nanicos”, elevando seu potencial de largada para 60,6 milhões de eleitores. Lula deverá levar pelo menos 30% desses eleitores (20% deverão se abster), partindo de 56,6 milhões de votos.

Ou seja, Lula terá que buscar cerca de 4 milhões de votos. Onde? Partindo do pressuposto de que esses votos não venham principalmente da reversão de votos dados a Flávio no 1º turno (embora seja possível reverter muitos deles), Lula tem que mirar especialmente os 33,4 milhões de eleitores que se abstiveram no domingo (4), os 6 milhões que votaram nulo ou em branco e os 9,3 milhões de votos nos “nanicos”. São 48,7 milhões de votos de pessoas “cansadas” da política em disputa.

Penso que para tanto não basta alertar que Flávio seja um despreparado, fascista, corrupto irmãozão do Vorcaro; amigo dos milicianos e traidor da Pátria. É preciso desmentir os argumentos de Flávio para a resolução dos três problemas principais que ele vem apresentando na TV e repercutindo nas redes: endividamento das famílias/taxa de juros; segurança pública e STF.

Lula tem que dizer com todas as letras que o endividamento das famílias (e o crescimento da dívida pública) decorrem da elevada taxa de juros, mas que ela não é fixada pelo seu governo, mas pelo Banco Central. E, o que muitos desconhecem: o BC não segue as determinações do governo federal. Dizer que sua autonomia foi aprovada em 2018 pelos parlamentares da direita contra o voto do PT e da esquerda. E tem que dizer que Galípolo e a atual diretoria do BC atendem aos interesses do mercado financeiro, que apoia Flávio, e não aos interesses do País e do povo.

Em relação à segurança pública, Lula deve repetir exaustivamente o óbvio, mas que muitos desconhecem: ela é responsabilidade dos governos estaduais (que comandam as Polícias Civis PMs), como os de Tarcísio, Castro e Zema. Ademais, questionar por que Jair Bolsonaro, em seus 4 anos de desgoverno, não ter acabado com o PCC, o CV e as milícias, como promete Flávio.

Quanto ao STF, prolifera nas redes bolsonaristas uma suposta parceria e amizade entre Lula e Xandão, e até que Lula o teria indicado ao STF. Ora, Lula tem que rebater e repetir que Xandão foi indicado por Temer, aliado de Bolsonaro; que no Senado foi aprovado pelos senadores da direita com o voto contra do PT; e que Xandão foi um dos seis votos no STF que o levou à prisão e que ajudou a eleger Bolsonaro em 2018. Lula tem que largar de vez a mão do Xandão.

  Não se trata de balas de prata, mas de mostrar que o programa de Flávio Rachadinha é calcado em mentiras. Para além disso, continuar enfatizando as realizações dos governos do PT; o risco de Flávio acabar com os programas sociais; intensificar a mobilização nas ruas; consolidar alianças estratégicas; incidir sobre o eleitor evangélico mais receptivo e outras iniciativas que permitirão virar o jogo. Afinal, a prorrogação ainda vai ser jogada.


(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

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