Aline Aguiar relata trajetória de superação do racismo e defesa dos direitos dos povos tradicionais no Quilombo de Wal
Jornalista formada pela UnB contou sua história de vida, os desafios enfrentados como mulher negra da periferia e sua atuação em políticas públicas para indígenas e quilombolas
Por Paulo Miranda (jornalista)
A jornalista Aline Aguiar foi a convidada do programa Quilombo de Wal, apresentado por Waleska Barbosa, na TV Comunitária de Brasília, nesta segunda-feira, 19 de outubro. A entrevista abordou sua trajetória pessoal e profissional, marcada pela valorização da educação pública, pelo enfrentamento ao racismo e pela defesa dos direitos dos povos e comunidades tradicionais.
Natural de Imperatriz, no Maranhão, Aline chegou a Brasília em 1972, quando tinha apenas três meses de idade. Sua família, como milhares de nordestinos, migrou para a capital federal em busca de melhores oportunidades de trabalho e condições de vida.
Criada em Taguatinga, numa época em que a cidade ainda enfrentava problemas de infraestrutura e saneamento básico, Aline encontrou nos livros um caminho para ampliar seus conhecimentos e construir novas perspectivas de futuro.
Desde criança, frequentava a biblioteca da escola pública onde estudava. Na adolescência, passou a viajar de Taguatinga até a Biblioteca Demonstrativa de Brasília, na Asa Sul, para buscar livros e se preparar para o vestibular.
Entre as obras que marcaram sua formação, destacou Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, que despertou seu interesse pela literatura latino-americana.
O ingresso na Universidade de Brasília (UnB) representou uma conquista importante. Após três tentativas de entrar no curso de Comunicação, Aline foi aprovada em Letras e, três semestres depois, conseguiu transferência para Jornalismo.
Durante a graduação, enfrentou dificuldades financeiras e precisou recorrer a bolsas de estudos, passe estudantil e trabalhos eventuais para permanecer na universidade.

A jornalista relatou que, na época, era a única estudante negra de sua turma no curso de Comunicação, predominantemente frequentado por jovens brancos de classe média.
Nesse ambiente, destacou a importância do acolhimento recebido de professores, especialmente da professora Dione Moura, que contribuiu para sua permanência e formação acadêmica.
Aline também recordou episódios de preconceito racial desde a infância. Segundo ela, sua própria mãe chegou a questionar a possibilidade de uma mulher negra exercer o jornalismo, numa época em que a apresentadora Glória Maria era uma das poucas referências negras de destaque na televisão brasileira.
Durante a entrevista, a jornalista afirmou que o racismo marcou sua trajetória profissional, restringindo oportunidades e contribuindo para situações de desvalorização e exploração no mercado de trabalho.
Depois de um período afastada da atividade profissional, Aline retornou ao trabalho após os 50 anos, passando a atuar com políticas públicas voltadas aos povos indígenas, quilombolas e demais comunidades tradicionais.
Segundo a entrevistada, trabalhar diretamente com a promoção dos direitos dessas populações representa uma realização pessoal e profissional, especialmente por sua identificação com as questões raciais e sociais.
O programa também abordou a maternidade, a importância da literatura e o interesse de Aline pela moda e pela costura, atividades que fazem parte de sua história.
Ao encerrar a conversa, Aline destacou a necessidade de ampliar as oportunidades para as novas gerações de mulheres negras.
“A gente vai abrindo os caminhos para outras mulheres virem com a gente”, afirmou.
A entrevista no Quilombo de Wal reforçou a importância da educação pública, da representatividade negra e da participação das mulheres na construção de uma sociedade mais igualitária.
O programa é exibido pela TV Comunitária de Brasília, canal 12 da Claro NET-DF, e pelas redes sociais e de streaming da emissora.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
