Maria Lúcia Fattorelli defende auditoria da dívida pública e mudança na política econômica do quarto governo Lula
Em entrevista ao programa Brasil Nação, da TV Comunitária de Brasília, a coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida critica os juros elevados, questiona a política de superávit primário e propõe medidas para ampliar os investimentos públicos. Paulo Kliass, Beto Almeida e César Fonseca também participaram do debate.
A auditora fiscal aposentada e coordenadora nacional da Auditoria Cidadã da Dívida, Maria Lúcia Fattorelli, defendeu a realização de uma auditoria da dívida pública brasileira como medida fundamental para transformar a política econômica do país, reduzir a influência do sistema financeiro sobre o orçamento público e garantir mais recursos para saúde, educação, infraestrutura, desenvolvimento industrial e programas sociais.
A declaração foi feita na quarta-feira, 28 de outubro de 2026, durante o programa Brasil Nação, da TV Comunitária de Brasília, em debate sobre o tema “O 4º Governo Lula e o Superávit Fiscal”, conduzido pelo jornalista Beto Almeida, com a participação do economista Paulo Kliass e do jornalista e analista de economia política César Fonseca.
No centro das discussões esteve o desafio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de conciliar as expectativas populares por melhores condições de vida com as pressões do mercado financeiro pela manutenção das metas fiscais e das políticas de contenção dos gastos públicos.
Para Maria Lúcia Fattorelli, o novo mandato presidencial representa uma oportunidade histórica de romper com mecanismos econômicos que, segundo sua avaliação, privilegiam a remuneração do capital financeiro em detrimento dos investimentos necessários ao desenvolvimento nacional.
Superávit primário não impediu crescimento da dívida, afirma Fattorelli
Ao analisar a política de superávit primário, Fattorelli apresentou dados históricos para questionar a eficácia das medidas de austeridade fiscal como instrumento de controle do endividamento público. Segundo a auditora, entre 1995 e 2015, o Brasil acumulou aproximadamente R$ 1 trilhão em superávits primários, enquanto a dívida interna teria passado de R$ 86 bilhões para cerca de R$ 4 trilhões.
Na avaliação da coordenadora da Auditoria Cidadã, esses números demonstram que a contenção das despesas primárias não é suficiente para impedir o crescimento do endividamento, especialmente quando os encargos financeiros permanecem elevados.
Fattorelli argumentou que a busca permanente pelo superávit primário compromete a capacidade do Estado de realizar investimentos estruturantes e ampliar a oferta de serviços públicos. A auditora também defendeu uma mudança de orientação econômica que priorize o desenvolvimento socioeconômico e ambiental, em lugar da redução indiscriminada de despesas públicas.
Auditoria da dívida como instrumento de transparência
Uma das principais propostas apresentadas por Maria Lúcia foi a realização de uma auditoria da dívida pública, prevista nas disposições transitórias da Constituição Federal de 1988.
A coordenadora lembrou que o dispositivo constitucional estabelece a necessidade de examinar o endividamento externo brasileiro e afirmou que, apesar das iniciativas parlamentares e das mobilizações sociais, o país ainda não realizou a auditoria nos moldes defendidos pela entidade. Para Fattorelli, a medida permitiria investigar a origem das obrigações financeiras, identificar eventuais irregularidades, esclarecer os mecanismos de crescimento da dívida e ampliar a transparência na utilização dos recursos públicos.
A auditora questionou especialmente o funcionamento das operações compromissadas e dos depósitos voluntários remunerados pelo Banco Central, mecanismos utilizados na gestão da liquidez do sistema financeiro. Segundo ela, a remuneração de recursos mantidos pelas instituições bancárias junto à autoridade monetária representa um custo elevado para o setor público. Fattorelli afirmou que esses mecanismos teriam consumido aproximadamente R$ 250 bilhões no ano anterior ao debate, valor que, em sua avaliação, evidencia a necessidade de rever as prioridades da política monetária.
Juros elevados e necessidade de regulamentação
Outro ponto central da entrevista foi a defesa de limites legais para as taxas de juros praticadas no Brasil. Maria Lúcia criticou o custo do crédito bancário, especialmente nas operações de cartão de crédito, e comparou as taxas praticadas no país com as de outras economias.
A auditora defendeu a tramitação de uma proposta legislativa construída com a participação da Auditoria Cidadã da Dívida, de especialistas e de entidades da sociedade civil, destinada a estabelecer mecanismos de limitação dos juros.
Ela pediu ao presidente Lula que utilize sua capacidade de articulação política para impulsionar o debate no Congresso Nacional. Na avaliação de Fattorelli, a redução do custo do crédito poderia estimular o consumo, favorecer micro e pequenas empresas, fortalecer a indústria nacional e contribuir para a geração de empregos.
A coordenadora também questionou a política de juros elevados como instrumento predominante de combate à inflação, argumentando que seus efeitos atingem diretamente o setor produtivo e a população que depende de financiamento.
Paulo Kliass critica prioridade concedida às despesas financeiras
O economista Paulo Kliass acompanhou as críticas apresentadas por Fattorelli e destacou o peso das despesas financeiras no orçamento público. Segundo Kliass, o debate econômico brasileiro costuma concentrar as cobranças por equilíbrio fiscal nas despesas com previdência, saúde, educação, assistência social e investimentos, enquanto os gastos com juros recebem tratamento distinto.
O economista lembrou que o resultado primário exclui os juros da dívida pública e argumentou que essa metodologia contribui para deslocar a atenção dos custos financeiros do Estado. Kliass também defendeu uma revisão das metas de inflação e das diretrizes fiscais, de modo a ampliar o espaço para políticas de desenvolvimento.
Na avaliação do economista, a orientação do quarto governo Lula dependerá não apenas da escolha dos responsáveis pela equipe econômica, mas principalmente das diretrizes que o presidente estabelecer para a condução da política fiscal e monetária. Ele alertou para o risco de uma eventual continuidade das políticas de austeridade frustrar as expectativas sociais manifestadas nas urnas.
César Fonseca defende revisão do modelo econômico
O jornalista e analista de economia política César Fonseca ampliou o debate ao questionar a permanência dos fundamentos da política econômica associados ao modelo neoliberal. Fonseca defendeu uma revisão das metas fiscais e inflacionárias e levantou a necessidade de discutir mudanças no Conselho Monetário Nacional.
Para o jornalista, o resultado eleitoral representou uma manifestação popular favorável à ampliação dos investimentos e à superação de políticas de ajuste que restringem a capacidade de atuação do Estado. Durante o programa, César Fonseca perguntou a Fattorelli e Kliass quais medidas poderiam ser adotadas imediatamente para alterar os rumos da economia brasileira.
Em resposta, Maria Lúcia voltou a defender a revisão dos mecanismos de remuneração do sistema bancário, a redução dos juros e a utilização responsável dos instrumentos de financiamento disponíveis ao Estado. A auditora também destacou a importância de investimentos em universidades, institutos federais, pesquisa científica, infraestrutura ferroviária e desenvolvimento industrial.
Beto Almeida destaca participação popular e compromisso constitucional
Responsável pela condução do programa, o jornalista Beto Almeida relacionou o debate econômico às expectativas criadas pela reeleição do presidente Lula. Almeida destacou a importância da participação popular na definição das prioridades do novo governo e lembrou que a Constituição Federal estabelece compromissos com o desenvolvimento nacional e a garantia dos direitos sociais.
O apresentador também defendeu que a auditoria da dívida pública seja incorporada à agenda política do próximo mandato presidencial. Ao longo da entrevista, Beto Almeida ressaltou a necessidade de fortalecer os mecanismos de comunicação pública e comunitária para ampliar o debate sobre as decisões econômicas e seus impactos na vida da população. O jornalista sugeriu ainda a realização de mobilizações e atividades educativas para discutir a política de superávit primário e apresentar alternativas de desenvolvimento econômico.
Dívida pública, privatizações e desenvolvimento nacional
Na parte final do programa, Maria Lúcia Fattorelli relacionou o endividamento público às políticas de privatização, às reformas previdenciárias e às restrições orçamentárias adotadas ao longo das últimas décadas. A coordenadora da Auditoria Cidadã argumentou que a necessidade de atender aos compromissos financeiros da dívida tem sido utilizada como justificativa recorrente para a venda de patrimônio público e a redução de investimentos estatais.
Fattorelli mencionou um levantamento do Tribunal de Contas da União sobre as fontes de financiamento de investimentos públicos entre 2000 e 2017. Segundo a interpretação apresentada pela auditora, o estudo reforça a necessidade de investigar a destinação dos recursos provenientes da emissão de títulos públicos. Para ela, uma política econômica voltada ao desenvolvimento precisa articular redução dos juros, fortalecimento da indústria, ampliação dos serviços públicos e preservação ambiental.
A auditora afirmou que o Brasil reúne condições materiais e econômicas para oferecer melhores oportunidades à população, mas necessita rever mecanismos que, em sua avaliação, limitam o aproveitamento dessas potencialidades.
Quarto governo Lula diante de uma escolha histórica
Ao encerrar sua participação, Maria Lúcia Fattorelli manifestou a expectativa de que o quarto mandato de Lula represente uma mudança efetiva na condução da política econômica. Ela defendeu que o governo enfrente os mecanismos de crescimento da dívida, amplie os investimentos produtivos e assegure condições para que a riqueza nacional seja convertida em melhoria da qualidade de vida da população.
A coordenadora da Auditoria Cidadã ressaltou que desenvolvimento econômico, justiça social e sustentabilidade ambiental devem caminhar juntos. O debate reuniu diferentes análises críticas à austeridade fiscal, com convergência entre Maria Lúcia Fattorelli, Paulo Kliass, César Fonseca e Beto Almeida quanto à necessidade de ampliar a participação popular e discutir alternativas para o financiamento das políticas públicas.
Ao final do programa, Beto Almeida anunciou a intenção de propor à TV Comunitária de Brasília uma campanha educativa sobre o superávit primário e seus impactos sobre o desenvolvimento nacional.
O programa Brasil Nação é transmitido pela TV Comunitária de Brasília, canal 12 da Claro NET-DF, e pelas redes sociais, promovendo debates sobre economia, política, soberania nacional e os desafios da democracia brasileira.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
