UnB lança curso inédito sobre Sumak Kawsay Bem Viver para valorizar saberes indígenas, afrodescendentes e latino-americanos
Coordenado pela professora Marta Lobo, projeto de pesquisa e extensão reúne 36 docentes do Brasil e do exterior e propõe uma nova abordagem sobre cultura, educação, ancestralidade e direitos dos povos tradicionais
Brasília (DF) – A Universidade de Brasília (UnB) está promovendo um dos mais abrangentes projetos acadêmicos voltados ao estudo dos saberes ancestrais e das culturas originárias da América Latina. Intitulado “Sumak Kawsay – Bem Viver: Culturas Insubordinadas e Invisibilizadas da América Latina em suas Vozes pela Cultura de Paz”, o curso de pesquisa e extensão busca aproximar a universidade dos conhecimentos produzidos por povos indígenas, quilombolas, afrodescendentes e comunidades tradicionais, propondo uma reflexão sobre novos modelos de convivência, educação e desenvolvimento.
O tema foi apresentado pela professora e pesquisadora Marta Lobo, do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM/UnB) e pesquisadora sênior do CNPq, durante entrevista ao programa Brasília Notícias, da TV Comunitária de Brasília, apresentado pelo jornalista Paulo Miranda.
Segundo Marta Lobo, o conceito de Sumak Kawsay, expressão da língua quéchua, ultrapassa a tradução literal de “Bem Viver”. “Não existe apenas um bem viver. Existem vários bem-viveres, construídos por diferentes povos, culturas e formas de compreender o mundo”, explicou.
Filosofia ancestral desafia modelo de desenvolvimento
Durante a entrevista, a pesquisadora destacou que o curso parte da compreensão de que os conhecimentos produzidos pelos povos originários e afrodescendentes foram historicamente invisibilizados pelo processo de colonização.
Ela afirmou que práticas como o epistemicídio (destruição dos conhecimentos), o memoricídio (apagamento da memória coletiva) e o etnocídio (destruição das culturas) ainda produzem efeitos na sociedade latino-americana.
“O Bem Viver nasce da resistência desses povos. São culturas que sobreviveram e continuam produzindo conhecimento apesar de séculos de exclusão”, afirmou. Para Marta Lobo, compreender essas diferentes cosmovisões torna-se fundamental diante das crises sociais, ambientais e culturais vividas atualmente.
Curso reúne indígenas, quilombolas e pesquisadores internacionais
A iniciativa reúne 36 docentes de diferentes universidades brasileiras e estrangeiras, além de lideranças indígenas, quilombolas, pesquisadores africanos e especialistas da América Latina.
Entre os participantes estão representantes de nove etnias indígenas, professores do Peru, Equador, Guiné-Bissau e pesquisadores brasileiros ligados aos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEABs).
Segundo a coordenadora pedagógica, um dos princípios do curso é permitir que cada povo conte sua própria história. “Ninguém fala por ninguém. São os próprios indígenas, quilombolas e representantes das comunidades tradicionais que apresentam seus conhecimentos, suas cosmologias e suas formas de viver”, ressaltou.
Formação amplia debate sobre relações étnico-raciais
O curso também busca fortalecer a aplicação das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, que determinam o ensino da história e das culturas afro-brasileiras, africanas e indígenas em todos os níveis da educação.
Segundo Marta Lobo, apesar da existência da legislação há mais de duas décadas, sua implementação ainda enfrenta desafios. “Temos uma enorme produção intelectual de autores indígenas e negros, mas esse conhecimento ainda aparece pouco nas escolas e universidades”, observou.
Ela defendeu uma revisão das referências bibliográficas tradicionalmente utilizadas na formação acadêmica, ampliando a presença de intelectuais indígenas, negros e latino-americanos.
Interesse supera expectativas
Embora concebido inicialmente como um curso de extensão, o projeto registrou procura muito superior ao esperado. Segundo Marta Lobo, mais de 1.600 pessoas se inscreveram na primeira edição, aberta a graduandos, pós-graduandos, professores da educação básica e profissionais de diferentes áreas, como arquitetura, psicologia, saúde, educação e ciências humanas.
A diversidade do público reforçou o caráter multidisciplinar da proposta. “O curso mostrou que esse debate interessa a profissionais de todas as áreas do conhecimento”, afirmou.
A segunda edição já está prevista para 2027, e a expectativa da coordenação é transformar futuramente a iniciativa em um curso de especialização, com possibilidade de evolução para programas de pós-graduação stricto sensu.
Vivências aproximam universidade dos territórios
Além das atividades teóricas, o projeto inclui imersões em territórios indígenas e quilombolas. Os estudantes participam de vivências em comunidades tradicionais, como o Quilombo Kalunga, em Goiás, e o Santuário dos Pajés, em Brasília, dialogando diretamente com lideranças locais.
Segundo Marta Lobo, toda a metodologia é inspirada no pensamento de Paulo Freire, priorizando o diálogo, a escuta e a construção coletiva do conhecimento. “As atividades não são impostas pela universidade. Elas são construídas juntamente com as lideranças das comunidades”, explicou.
Documentários e publicações ampliarão alcance do projeto
Os resultados do curso não ficarão restritos às salas de aula.
A coordenação prepara o lançamento de dois documentários produzidos durante as vivências, além de revistas científicas, livros, artigos acadêmicos e uma plataforma digital que reunirá centenas de referências bibliográficas sobre povos originários, culturas afrodescendentes e pensamento latino-americano.
O portal também disponibilizará conteúdos produzidos pelos estudantes e pelos docentes participantes.
Comunicação comunitária como parceira
Durante a entrevista, Paulo Miranda defendeu a criação de espaços permanentes na televisão para a produção audiovisual indígena e afro-brasileira, lembrando experiências internacionais de comunicação comunitária.
Marta Lobo destacou a importância da TV Comunitária de Brasília como instrumento de democratização da comunicação e valorização das culturas invisibilizadas. “A TV Comunitária fala do que acontece nos territórios e nas comunidades. Esse espaço é fundamental para dar visibilidade aos povos indígenas, negros e às diversas expressões culturais do Distrito Federal”, afirmou.
Ao final da entrevista, a pesquisadora reforçou que o principal objetivo do curso é contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e plural. Para ela, conhecer a história, os saberes e as cosmovisões dos povos originários e afrodescendentes é um passo essencial para combater o racismo, promover o respeito às diferenças e fortalecer uma verdadeira cultura de paz.
“As pessoas só conseguem respeitar aquilo que conhecem. Precisamos aprender a ouvir o outro, reconhecer nossas ancestralidades e compreender que há muitas formas de produzir conhecimento e viver em comunidade”, concluiu.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
