Márcia Abrahão leva experiência da UnB para a política e anuncia pré-candidatura à Câmara Federal
Ex-reitora da Universidade de Brasília, uma carioca do Cruzeiro, defende educação pública, ciência, valorização dos servidores, direitos das mulheres e preservação ambiental como prioridades de sua atuação política
Por Paulo Miranda – Brasília (DF) – Depois de dois mandatos à frente da Universidade de Brasília (UnB), marcados pela expansão da instituição, fortalecimento das políticas de inclusão e defesa da universidade pública durante um período de restrições orçamentárias, a professora e geóloga Márcia Abrahão Moura inicia um novo capítulo em sua trajetória. Agora pré-candidata a deputada federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT), ela afirma que decidiu ingressar na disputa eleitoral para ampliar a defesa da educação, da ciência e da democracia no Congresso Nacional.
A declaração foi feita durante entrevista ao programa Brasília Notícias, da TV Comunitária de Brasília, conduzido pelo jornalista Paulo Miranda.
“Recebi vários convites e entendi que este é um momento em que não dá para ficar fora da política. Precisamos defender a democracia, a educação, a ciência e a tecnologia”, afirmou.
Uma trajetória construída em Brasília
Embora tenha nascido no Rio de Janeiro, Márcia Abrahão faz questão de destacar que sua história está profundamente ligada à capital federal.
Filha de pioneiros que chegaram a Brasília em 1962, ela cresceu na cidade, formou-se em Geologia pela Universidade de Brasília em 1986 e construiu toda a carreira acadêmica na instituição.
Após atuar na Petrobras e no Banco Central, retornou à UnB para cursar mestrado e doutorado, tornando-se professora e, posteriormente, ocupando cargos administrativos até ser eleita, em 2016, a primeira mulher reitora da universidade. Em 2020, foi reeleita ainda no primeiro turno.
Expansão da UnB marcou sua gestão
Ao relembrar sua trajetória, Márcia destacou que participou diretamente do processo de expansão da Universidade de Brasília durante o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni).
Segundo ela, foram criados 36 novos cursos de graduação entre 2008 e 2012, além da consolidação dos campi do Gama e de Ceilândia e da ampliação das estruturas em Planaltina e no Plano Piloto.
Grande parte dos novos cursos foi implantada no período noturno, ampliando o acesso da classe trabalhadora ao ensino superior. “Foi um momento muito importante para abrir a universidade para os trabalhadores. Criamos cursos noturnos inclusive em áreas como Engenharia e Arquitetura”, lembrou. A ex-reitora também defendeu a continuidade da expansão da universidade para outras regiões administrativas do Distrito Federal.
Resistência durante período de cortes
Márcia Abrahão recordou que sua gestão coincidiu com um dos períodos mais difíceis enfrentados pelas universidades federais. Segundo ela, durante os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, sucessivos cortes orçamentários comprometeram investimentos e ameaçaram o funcionamento das instituições.
Ela relembrou as críticas dirigidas às universidades federais em 2019, quando a UnB foi acusada pelo então governo federal de promover “balbúrdia”. “Eu brincava que era a reitora da balbúrdia. Hoje dá para brincar, mas na época foi um período muito difícil”, afirmou.
Mesmo diante das restrições financeiras, a gestora destacou que a universidade conseguiu preservar investimentos estratégicos graças à arrecadação própria e à gestão dos recursos públicos.
Inclusão tornou-se marca da administração
Durante a entrevista, Márcia apresentou a ampliação das políticas de inclusão como um dos principais legados de sua administração. Ela destacou a criação das cotas na pós-graduação, a ampliação do acesso de estudantes indígenas, o programa UnB 60+, o fortalecimento da assistência estudantil e o aumento do valor das bolsas destinadas aos alunos em situação de vulnerabilidade econômica.
Segundo a ex-reitora, os auxílios, que permaneceram por anos em R$ 400, foram elevados para R$ 700 durante sua gestão. “O estudante vulnerável só consegue permanecer na universidade quando existe política de permanência estudantil”, ressaltou. Ela também lembrou que a Universidade de Brasília foi pioneira na implantação das cotas raciais, cuja constitucionalidade acabou reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal após questionamento judicial.
Mulheres na gestão universitária
Ao tornar-se a primeira mulher reitora da UnB, Márcia afirma ter assumido também o compromisso de abrir caminhos para outras lideranças femininas.
Segundo ela, sua gestão implantou políticas específicas para mulheres, incluindo a criação de uma creche pública, instalação de fraldários, medidas para facilitar a progressão acadêmica de docentes mães e ações voltadas às estudantes.
“Não basta ser mulher. É preciso deixar um legado para as outras mulheres”, afirmou.
Ciência, educação e servidores públicos estarão entre as prioridades
Ao apresentar os principais eixos de sua pré-candidatura, Márcia afirmou que pretende atuar no Congresso Nacional a partir da experiência acumulada na gestão universitária. Educação pública, ciência, tecnologia, valorização dos servidores públicos, direitos das mulheres, políticas para pessoas idosas e preservação ambiental aparecem entre as prioridades.
Segundo ela, essas propostas não são apenas compromissos eleitorais, mas refletem iniciativas concretas desenvolvidas durante sua administração na universidade. “Não adianta apenas apresentar um discurso. Tudo o que defendo está baseado na minha trajetória e no que realizei na Universidade de Brasília”, declarou.
Artigo propõe nova política de ciência para o DF
Durante a entrevista, Márcia comentou um artigo publicado em parceria com pesquisadores da UnB defendendo uma política estruturada de ciência, tecnologia e inovação para o Distrito Federal.
Ela afirmou que Brasília possui a maior concentração proporcional de mestres e doutores do país e reúne condições para consolidar-se como referência nacional em pesquisa científica.
Entre as propostas apresentadas estão o fortalecimento da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), ampliação dos investimentos públicos e criação do Museu de Ciência e Tecnologia do Distrito Federal. “Temos vocação histórica para sermos referência em ciência e tecnologia, mas isso exige prioridade orçamentária”, afirmou.
Defesa do transporte público e revisão das prioridades orçamentárias
A pré-candidata também abordou temas relacionados ao Distrito Federal. Ela defendeu a ampliação do metrô, a integração do transporte entre Brasília e o Entorno, a implantação da tarifa zero e a revisão de benefícios fiscais considerados excessivos. Segundo Márcia, recursos públicos poderiam ser direcionados para áreas como educação, saúde e mobilidade urbana.
Congresso precisa representar a população
Ao avaliar o cenário político nacional, Márcia afirmou que as eleições representam uma oportunidade para renovar o Congresso Nacional e fortalecer pautas relacionadas à educação, saúde, ciência e direitos sociais.
Ela também defendeu a aprovação de projetos voltados ao enfrentamento da misoginia, ao fim da escala de trabalho 6×1 e ao fortalecimento das políticas públicas para mulheres. “A população precisa eleger representantes comprometidos com as pessoas. Não podemos permitir retrocessos na educação, na ciência e na democracia”, afirmou.
Experiência administrativa como credencial
Ao encerrar a entrevista, Márcia Abrahão resumiu a motivação que a levou à disputa eleitoral.
Depois de décadas dedicadas à universidade pública, ela pretende utilizar a experiência adquirida na gestão acadêmica para atuar na formulação de políticas públicas nacionais.
“Coloco meu nome à disposição da população para defender a educação, a ciência, a tecnologia, as mulheres, os servidores públicos, as pessoas idosas e o meio ambiente”, concluiu.
Com uma trajetória construída na educação pública e reconhecida pela expansão da Universidade de Brasília, Márcia Abrahão inicia agora uma nova caminhada, levando para a arena política temas que marcaram sua atuação como professora, pesquisadora e gestora universitária.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
