Andrey Lemos critica situação da saúde pública no DF e defende fortalecimento da atenção primária
Historiador, sanitarista e trabalhador do SUS há 21 anos, candidato a deputado distrital propõe ampliação das equipes de saúde, concursos públicos, atendimento regionalizado e políticas voltadas às populações negra, LGBT e de terreiro
Brasília (DF) – O fortalecimento da atenção primária, a contratação de profissionais, a ampliação dos serviços de saúde mental e uma maior integração entre saúde, assistência social e outras políticas públicas estão entre as propostas defendidas por Andrey Lemos, candidato a deputado distrital pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Historiador, professor, pesquisador e trabalhador do Sistema Único de Saúde (SUS) há 21 anos, ele participou do programa Identidade Negra, apresentado pelo diretor do Sindicato dos Bancários Josibel Rocha.
Durante a entrevista, Lemos apresentou sua trajetória profissional e política e afirmou que sua candidatura pretende ampliar a representação de segmentos que considera historicamente invisibilizados no Distrito Federal, entre eles a população negra, a população LGBT e os povos e comunidades de terreiro.
Atenção primária como porta de entrada do SUS
Um dos principais pontos abordados foi a situação da atenção primária no Distrito Federal. Segundo Lemos, a insuficiência da cobertura efetiva das unidades básicas contribui para a sobrecarga das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e dos hospitais. O candidato questionou dados oficiais sobre a cobertura da atenção primária e afirmou que a proporção de moradores efetivamente acompanhados por agentes comunitários seria muito inferior à cobertura anunciada pelo governo.
Na avaliação de Lemos, o acompanhamento das famílias nos territórios permitiria ampliar ações preventivas, vacinação, promoção de hábitos saudáveis e identificação precoce de doenças, reduzindo a pressão sobre os serviços de urgência e emergência. Ele também afirmou existir déficit superior a quatro mil trabalhadores em diferentes categorias da rede pública e defendeu a convocação de aprovados em concursos e a realização de novos certames. O número foi apresentado pelo entrevistado e não foi acompanhado, no material fornecido, de documentação oficial que permita sua verificação independente.
Terceirização e rotatividade de profissionais
Outro tema discutido foi a presença de trabalhadores terceirizados na rede de saúde. Para Lemos, a elevada rotatividade dificulta a construção de vínculos entre profissionais e pacientes e prejudica a continuidade do cuidado. Ele também apontou condições inadequadas de trabalho e carência de determinadas categorias profissionais.
O candidato defendeu, nesse contexto, a retomada dos concursos públicos e a valorização dos servidores como parte de uma estratégia para reconstruir a capacidade de atendimento da rede. Também se declarou favorável à redução da jornada dos profissionais de saúde de 40 para 30 horas, desde que a medida seja acompanhada da contratação de pessoal suficiente para garantir a continuidade dos serviços.
Clínicas regionalizadas e fortalecimento dos CAPS
Entre as propostas apresentadas está a criação de estruturas regionalizadas para realização de consultas especializadas, exames e procedimentos. A ideia é organizar os serviços considerando a população e as necessidades específicas de cada território, evitando que pacientes tenham de se deslocar constantemente entre diferentes regiões administrativas.
Lemos defendeu que as unidades básicas funcionem efetivamente como porta de entrada do SUS e encaminhem os pacientes, quando necessário, para serviços especializados, UPAs e hospitais regionais, formando uma rede integrada. O candidato também apontou a necessidade de ampliar os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Segundo ele, a insuficiência dessas estruturas prejudica o atendimento de pessoas com transtornos mentais e daquelas que necessitam de acompanhamento relacionado ao uso abusivo de álcool e outras drogas.
Para Lemos, a saúde mental não pode ser tratada isoladamente. Os CAPS precisam trabalhar de maneira articulada com assistência social, políticas habitacionais e programas de emprego e renda. “Talvez [a pessoa] precise de uma oportunidade de trabalho ou de moradia”, afirmou ao defender uma atuação intersetorial.
Saúde depende também de transporte, saneamento, cultura e alimentação
Um dos argumentos centrais apresentados durante a entrevista foi o de que as condições de saúde de uma população não dependem exclusivamente de hospitais, médicos e medicamentos. Lemos relacionou o adoecimento às condições sociais e econômicas dos territórios, citando problemas de saneamento básico, mobilidade urbana, transporte público, alimentação, cultura e lazer.
Segundo ele, uma pessoa que passa várias horas diariamente no transporte para chegar ao trabalho e retornar para casa perde tempo de descanso, lazer e convivência familiar, com consequências para sua qualidade de vida. “São uma série de fatores sociais, econômicos e culturais que vão fazendo com que essas pessoas adoeçam”, afirmou. O entrevistado defendeu, por isso, que a Câmara Legislativa tenha atuação mais propositiva na formulação de políticas públicas e na fiscalização do Executivo.
Equipamentos públicos nas regiões administrativas
A desigualdade territorial do Distrito Federal também ganhou espaço no programa. Josibel Rocha e Andrey Lemos discutiram a ausência de equipamentos públicos em determinadas regiões e defenderam maior descentralização de serviços de saúde, assistência social, educação, cultura e transporte.
Na área cultural, Lemos argumentou que equipamentos públicos são importantes não apenas para proporcionar lazer, mas também para preservar identidades e permitir que comunidades transmitam suas manifestações culturais às novas gerações. Segundo ele, esses espaços contribuem para “a cidadania dessas pessoas, para o autocuidado, para o autoconhecimento, para a autoestima”.
Candidatura defende maior representatividade
Ao falar sobre as eleições de 2026, Lemos apontou uma crise de representatividade e afirmou que candidaturas precisam dialogar de maneira mais direta com as experiências cotidianas da população. Para ele, partidos e lideranças políticas precisam apresentar propostas objetivas sobre como melhorar a vida das pessoas e aproximar novamente setores da sociedade que se afastaram da participação política.
“É preciso reencantar as pessoas para a política, mostrando que a política pode ser algo legal de se fazer”, declarou. O candidato também argumentou que um parlamentar ligado a determinada categoria profissional não deve representar exclusivamente os interesses corporativos daquele segmento.
Como trabalhador da saúde, afirmou que pretende defender tanto os profissionais quanto os usuários do SUS, incluindo trabalhadores que enfrentam dificuldades para conseguir atendimento devido aos horários de funcionamento das unidades. “Eu não posso ser um candidato só dos trabalhadores da saúde, eu tenho que ser um candidato também dos usuários”, afirmou.
Povos de terreiro e combate à intolerância religiosa
Na parte final do programa, Lemos abordou a situação dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana. O candidato afirmou que essas populações enfrentaram historicamente perseguições e continuam sujeitas a discriminação e racismo institucional. Integrante do candomblé há três décadas, ele defendeu maior representação política das comunidades de terreiro.
Lemos também chamou atenção para o papel social desempenhado pelos terreiros. Segundo ele, muitos desses espaços realizam acolhimento, escuta, orientação, distribuição de alimentos e apoio comunitário. Para o candidato, essas atividades precisam ser reconhecidas como práticas de cuidado e consideradas na construção das redes de proteção social. “Essa prática de cuidado precisa ser reconhecida pelo Estado brasileiro”, defendeu.
Ao encerrar a entrevista, Lemos reforçou que sua candidatura pretende articular saúde pública, combate ao racismo, diversidade, valorização dos trabalhadores e desenvolvimento dos territórios. A proposta apresentada ao longo do programa parte da ideia de que recuperar a qualidade do SUS no Distrito Federal exige não apenas investimentos em hospitais, mas uma rede pública capaz de atuar desde a prevenção e o cuidado comunitário até os serviços especializados.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
