Aprovados no Concurso CAIXA 2024 cobram revisão de cláusula de barreira e inclusão em cadastro de reserva
Em entrevista à TV Comunitária de Brasília, Maria Eduarda e Carlos Galuschka defendem aproveitamento de candidatos que concluíram todas as etapas do concurso e destacam impacto das regras sobre cotistas raciais e pessoas com deficiência
Por Paulo Miranda (jornalista) – Brasília (DF) — Candidatos aprovados no Concurso CAIXA 2024, mas excluídos do resultado final em razão da cláusula de barreira prevista no edital, reivindicam que a Caixa Econômica Federal reveja as regras do certame e permita que esses concorrentes sejam considerados para futuras convocações. O tema foi debatido no programa da TV Comunitária de Brasília apresentado pelo diretor do Sindicato dos Bancários de Brasília Josibel Rocha, que recebeu Maria Eduarda e Carlos Galuschka para falar sobre a mobilização dos concursados.
Os dois integram um movimento de candidatos que afirmam ter sido aprovados nas etapas do concurso, mas que ficaram fora da lista final em razão da limitação estabelecida pelo edital. Entre as principais preocupações apresentadas está o impacto da regra sobre candidatos negros e pessoas com deficiência (PCDs). Maria Eduarda, de 22 anos e estudante de Direito, concorreu no polo do Vale do Paraíba, em São Paulo. Segundo ela, o polo abrangia aproximadamente 25 municípios e oferecia quatro vagas de ampla concorrência, uma destinada à cota racial e outra para pessoas com deficiência. A candidata afirmou ter alcançado a terceira colocação entre os concorrentes da cota racial. De acordo com seu relato, porém, não havia cadastro de reserva nessa modalidade. Assim, caso a vaga destinada à política afirmativa fique novamente disponível, candidatos que concluíram todas as etapas do concurso não poderiam ser chamados por terem ficado fora do resultado final.
“Passamos em todas as fases do concurso, mas o edital não nos enxerga. Nós fomos excluídos mesmo com a nota, mesmo sendo capazes”, afirmou Maria Eduarda.
Candidatos questionam eficiência da cláusula de barreira
Carlos Galuschka, administrador e também aprovado no concurso, argumentou que a cláusula de barreira pode impedir o aproveitamento de candidatos mesmo quando pessoas classificadas à frente não assumem suas vagas. Na avaliação dos entrevistados, permitir que candidatos aprovados permaneçam no cadastro de reserva poderia evitar que determinadas vagas ficassem sem preenchimento e reduzir a necessidade de realização de novos processos seletivos para suprir carências de pessoal.
“Não estamos pedindo uma aprovação de todos imediata”, explicou Carlos. A reivindicação, segundo ele, é que os candidatos possam voltar a ser considerados diante da existência de vagas e da necessidade de empregados nas unidades da instituição. Durante o programa, os convidados também argumentaram que a questão ganha importância especial quando envolve políticas de ação afirmativa.
Maria Eduarda afirmou que o reconhecimento formal das cotas não é suficiente quando as regras do concurso dificultam sua efetivação. “É ação afirmativa. Acaba que o direito é formal porque ele está na lei, mas materialmente a gente não vê na prática”, declarou.
Concurso posterior teria adotado regra diferente
Outro argumento apresentado pelos candidatos diz respeito a um concurso posterior da própria Caixa. Segundo Carlos, o edital de 2025 para cargos de nível superior teria adotado ajustes em relação às limitações existentes no concurso de 2024. Para os integrantes do movimento, a mudança reforça a necessidade de discutir se os candidatos do certame anterior também poderiam ser beneficiados por uma revisão administrativa.
“Se esse ajuste foi feito exatamente para não colocar essa cláusula de barreira, então quer dizer que é uma evolução de um ano para o outro. Por que nós não podemos receber o benefício dessa correção de edital?”, questionou Carlos. Os entrevistados defenderam ainda que o aproveitamento dos candidatos já aprovados poderia representar economia e eficiência administrativa, principalmente diante da necessidade de recomposição do quadro de empregados da instituição.
Movimento busca diálogo com governo e instituições
A mobilização ultrapassou as reivindicações individuais e chegou a diferentes instituições. Durante a entrevista, foram mencionadas audiências e articulações com o Ministério Público, representantes do governo federal, entidades sindicais e organizações ligadas à defesa das políticas de igualdade racial. Os candidatos destacaram o apoio da Educafro e de Frei David às reivindicações. Segundo Maria Eduarda, a entidade tornou-se uma das principais parceiras do movimento na discussão sobre as cotas raciais.
Os representantes dos aprovados também relataram reunião com integrantes do governo federal. De acordo com Maria Eduarda, a pauta das cotas e a situação dos candidatos foram apresentadas durante o encontro e os representantes governamentais se comprometeram a analisar o assunto e manter o diálogo. Outra possibilidade mencionada durante o programa seria a construção de uma solução administrativa capaz de permitir o aproveitamento de candidatos diante da necessidade de pessoal.
Sindicato dos Bancários apoia mobilização
Os entrevistados ressaltaram ainda o apoio recebido do Sindicato dos Bancários de Brasília. Maria Eduarda classificou como fundamental a participação da entidade na mobilização e afirmou que o movimento não teria alcançado a mesma projeção sem esse suporte. Segundo ela, dirigentes sindicais consideraram legítima a reivindicação e incentivaram os candidatos a continuar mobilizados mesmo após o término da validade do concurso.
Josibel Rocha também relacionou a reivindicação dos concursados à campanha sindical por mais empregos na Caixa. Durante o programa, ele argumentou que a redução do número de empregados tem provocado sobrecarga em unidades bancárias e dificuldades no atendimento. Maria Eduarda afirmou que a mobilização dos trabalhadores é importante diante de relatos de agências lotadas e empregados sobrecarregados. Para ela, a contratação de novos funcionários poderia beneficiar tanto quem já trabalha na instituição quanto os usuários dos serviços bancários.
Papel social da Caixa reforça necessidade de empregados
Um dos principais argumentos apresentados durante a entrevista foi o papel estratégico da Caixa Econômica Federal na execução das políticas públicas brasileiras. Além das atividades bancárias tradicionais, a instituição participa da operacionalização de programas sociais, habitacionais e educacionais. Durante o programa foram mencionados Bolsa Família, Pé-de-Meia e Minha Casa, Minha Vida, além do atendimento a parcelas da população que dependem da rede física da Caixa para acessar políticas governamentais.
Para os entrevistados, a digitalização dos serviços bancários não elimina a necessidade do atendimento presencial, especialmente entre cidadãos em situação de vulnerabilidade social ou com menor acesso aos serviços digitais. Nesse contexto, o movimento associa a convocação de novos empregados não apenas à expectativa profissional dos concursados, mas também à capacidade operacional de uma das maiores instituições públicas do país.
Representatividade racial dentro da Caixa
A reivindicação dos aprovados também incorpora uma discussão sobre diversidade e representatividade no serviço público e nas empresas estatais. Maria Eduarda afirmou que a presença de pessoas negras dentro da Caixa pode ter impacto que ultrapassa a conquista individual de um emprego. Para ela, ocupar esses espaços também significa servir de referência para outras jovens negras.
“Eu sendo negra e ocupando um lugar que, querendo ou não, é de prestígio, trabalhar na Caixa Econômica Federal, eu inspiro outras meninas, outras meninas negras, quem sabe, a poder olhar e falar: ‘Nossa, ela conseguiu, eu também consigo chegar lá’”, afirmou.
Josibel Rocha destacou a atuação do coletivo Caixa Preta, formado por empregados da instituição e voltado à discussão da pauta racial, além da existência de outros coletivos de diversidade dentro da empresa. Segundo ele, essas organizações buscam ampliar reconhecimento, valorização e oportunidades para grupos historicamente sub-representados. Carlos também ressaltou a importância da representatividade no atendimento ao público. Para ele, encontrar pessoas negras e integrantes de outros grupos historicamente discriminados nas agências pode contribuir para um atendimento mais inclusivo e próximo da realidade da população brasileira.
“Não somos apenas números, somos vidas”
No encerramento do programa, Maria Eduarda sintetizou a dimensão humana da mobilização. Segundo ela, os candidatos dedicaram meses ou anos de preparação ao concurso e enxergam a eventual contratação como oportunidade de transformação profissional e familiar. Ela também argumentou que novos empregados poderiam contribuir para reduzir a sobrecarga das equipes atualmente em atividade e melhorar o atendimento nas agências.
“Nós não somos só números, nós somos vidas e estamos prontos para poder trabalhar e ajudar a contribuir nessa grande instituição que é a Caixa Econômica Federal”, afirmou.
A reivindicação dos aprovados coloca, assim, duas questões no centro do debate: de um lado, o direito e a expectativa dos candidatos que concluíram as etapas do Concurso CAIXA 2024; de outro, a discussão sobre a necessidade de recomposição do quadro funcional de uma empresa pública responsável por atender milhões de brasileiros e executar algumas das principais políticas sociais do país. Para os integrantes do movimento, uma solução administrativa que permita reconsiderar os candidatos excluídos pela cláusula de barreira poderia unir eficiência no serviço público, valorização do concurso, diversidade racial e fortalecimento da função social da Caixa Econômica Federal.
Confira a íntegra da entrevista no youtube da TV Comunitária de Brasília:
