Memória e resistência: veteranos do movimento sindical defendem renovação da luta dos trabalhadores e valorizam comunicação popular
Brasília (DF), Estúdio da Rádio Sinttel-DF – Em um encontro marcado por memórias, reflexões e preocupação com os rumos da organização dos trabalhadores, lideranças históricas do movimento sindical e da comunicação comunitária do Distrito Federal defenderam a necessidade de renovar as formas de mobilização e fortalecer a consciência política das novas gerações.
O debate ocorreu durante a edição nº 284 do programa da Rádio Sintel, na manhã de sexta (5/6/26), na sede do Sinttel-DF, e reuniu o vice-presidente do Sindicato dos Professores em Estabelecimentos Particulares do DF, Trajano Jardim, o diretor do Sintel-DF, Lula Torres, o jornalista e apresentador Edvaldo Ferreira e o presidente da TV Comunitária do Distrito Federal, Paulo Miranda.
Com quase seis décadas de atuação sindical e prestes a completar 91 anos, Trajano Jardim destacou que a longevidade e a lucidez são resultado da militância permanente. “O cérebro precisa estar em atividade. A luta mantém a gente vivo”, afirmou.
Durante o programa, os participantes resgataram a história do sindicalismo brasileiro, desde a reorganização dos trabalhadores no período final da ditadura militar até a criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e das principais entidades sindicais do país. Para Lula Torres, fundador do Sintel-DF, a conquista de direitos como vale-refeição, auxílio-transporte e negociações salariais foi resultado de décadas de mobilização coletiva. “Nada caiu do céu. Tudo foi fruto da luta dos trabalhadores”, ressaltou.
Comunicação popular como ferramenta de transformação
Presidente da TV Comunitária do Distrito Federal, Paulo Miranda destacou o papel desempenhado pelos movimentos sociais e sindicais na construção dos meios de comunicação alternativos no país. Segundo ele, a experiência começou com rádios comunitárias e se consolidou com a criação da TV Comunitária, há 28 anos, hoje presente em diversas plataformas digitais e com alcance estimado em cerca de 60 milhões de pessoas.
Para Miranda, o sindicalismo sempre compreendeu a importância da comunicação na disputa de ideias, mas enfrenta atualmente um cenário dominado pelas grandes plataformas digitais. “O grande enfrentamento hoje é contra as big techs e os algoritmos, que influenciam a sociedade e moldam comportamentos”, afirmou.
O desafio de dialogar com a juventude
Um dos principais temas da conversa foi a dificuldade de aproximar os jovens das pautas históricas dos trabalhadores. Para Lula Torres, a ausência de consciência política é um dos maiores obstáculos contemporâneos.
“Política não é apenas partido. Toda luta por direitos, contra injustiças e contra o racismo é uma questão política. As pessoas precisam compreender isso”, afirmou.
Trajano Jardim avaliou que a influência das redes sociais e das novas tecnologias modificou profundamente os hábitos culturais e educacionais das novas gerações. Segundo ele, a disputa ideológica passou a ocorrer principalmente nos ambientes digitais.
“O jovem não consegue assistir a um vídeo político de dois minutos, mas passa horas consumindo conteúdos superficiais. A tecnologia, que deveria servir ao ser humano, acabou sendo apropriada pelo capital”, disse.
Livro revisita a história das centrais sindicais
Durante o programa, Trajano Jardim apresentou o livro “Centrais Sindicais no Brasil Pós-Ditadura de 1964 – Narrativas dos Nossos Debates, Disputas e Conflitos”, resultado de sua pesquisa de mestrado em Ciência Política. A obra revisita os embates que marcaram a reorganização do movimento sindical brasileiro e discute se as centrais sindicais foram concebidas como instrumentos de unidade da classe trabalhadora ou como espaços de disputa pelo poder e pela hegemonia política.
Segundo o autor, a fragmentação do movimento sindical e as mudanças promovidas após 2016 contribuíram para enfraquecer a capacidade de mobilização das entidades.
“Hoje os sindicatos vivem dificuldades financeiras e estruturais. A pergunta central é se as centrais continuam sendo instrumentos de unidade da classe trabalhadora ou se se transformaram em espaços de disputa política”, explicou.
Formação cidadã e inclusão pela comunicação
Além da atuação sindical, Paulo Miranda destacou projetos desenvolvidos pela TV Comunitária do Distrito Federal voltados à formação de crianças, jovens, idosos e trabalhadores, que aprendem técnicas de comunicação e produção audiovisual.
Segundo ele, a iniciativa busca formar novas gerações comprometidas com a cidadania e o pensamento crítico. “Quando você ensina uma criança ou um adolescente, está garantindo a continuidade desse espírito de participação e transformação social”, afirmou.
Defesa da democracia e valorização da memória
Ao final do encontro, os participantes ressaltaram a importância de preservar a memória das lideranças históricas do movimento sindical e de fortalecer a organização popular diante dos desafios contemporâneos.
Confira a íntegra do bate papo no youtube da TV Comunitária de Brasília:
